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O drible no Brasil-Argentina (marque na sua agenda: esta madrugada há grande jogo para ver)

Só há um tipo atrevido, descarado e desequilibrador que tentou fintar adversários e o consegui mais vezes do que Lionel Messi, carregador das esperanças e desalentos da Argentina. Chama-se Everton, tratam-no por Cebolinha e foi o driblador que o Brasil encontrou na ausência de Neymar. Na madrugada desta terça para quarta (1h30, Sport TV1), o clássico que calhou nas meias-finais da Copa América tê-los-á a querer a mesma bola

Diogo Pombo

DOUGLAS MAGNO/Getty

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Há qualquer coisa fatídica, uma tragédia anunciada, dentro do olhar que todos vemos a ver o que os outros não veem no campo. Por cada passe rasgado, com efeito e pelo ar, a sobrevoar planos anti-influência dele no jogo e a deixar um argentino na área, com a bola, à frente da baliza, há uma esperança refundada em dupla, tripla ou quádrupla dose de que, afinal, a enormidade do talento preso num corpo pode curar todos os males.

Mas, depois, nos espaços entre os laivos geniais que isolam alguém, tiram partido de outrem para tabelar e criar, ou que o fazem driblar meia equipa como se os adversários fossem imóveis, olhamos para os olhos de Lionel Messi.

No interior parece ter o desânimo de um craque que é maior do que a equipa da Argentina e do que a soma de todas as outras partes que há na seleção, sejam quais forem, resultado cada vez mais certo perante quem vemos a jogar com ele, a treiná-lo e a apoiá-lo. O olhar de Messi nesta Copa América é triste, desalentado, quase sem vida, e aqueles rasgos de genialidade vão rareando a cada jogo em que a Argentina aparece para desiludir, como coletivo - mas dar expetativas, devido a um indivíduo.

Os argentinos estão nas meias-finais da maior prova das Américas, a arrastarem-se na sua mediania, a jogarem com um esquema incerto que reflete a incerteza do selecionador, Lionel Scaloni, experimentador de 16 jogadores em busca da fórmula que melhor os faça render em torno de um, especificamente, que é quem se quer a render mais.

CARL DE SOUZA

Depois da pobreza diante da Colômbia (0-2) e da paupérrima desilusão com o Paraguai (1-1), deixou-se Messi atrás de dois avançados e com três médios juntos, nas costas, para o rodear de gente que toque a bola com ele e lhe colocar à frente, diante dos olhos, homens que tanto podem ser associativos, como partir em corridas de rutura. Resultou, porque a Argentina foi buscar um 2-0 frente ao Qatar e à Venezuela. Mas não validou, porque os argentinos continuam jogar pouco como equipa e a esperar muito de se exige demais.

Mesmo aos repelões, com uma equipa emperrada que não ataca com largura, que falha e falha nas transições defensivas, que não tem dinâmicas de ataque organizado fora do que Lionel pensa e o pé esquerdo executa, a Argentina está a um Brasil de distância de uma terceira final consecutiva da Copa América.

E entre os brasileiros passou a haver Everton.

É o único dono de ginga que tem mais dribles feitos (4) por jogo do que Messi (3.3), dizem os dados do WhoScored. É o descarado fintador que encara adversários, fixa-os com a bola e tira-os do caminho e (como um treinador quer) e da jogada. É quem passou a desequilibrar na ausência de Neymar, abono de malabarismos mil que racha organizações defensivas contrários pela simples presença em campo e pelo temor do que pode causar.

Everton tem 22 anos e joga no Grémio de Porto Alegre. É um extremo destro que prefere à direita, encantado pela queda de receber a bola, apontar para o centro do campo e esquivar-se de desarmes tentados para rematar ou assistir. Tite apenas lhe deu a tarefa permanente de ser o principal gerador de desequilíbrios individuais, com a bola, desde o início, nos últimos dois jogos. Nos dois primeiros encontros da fase de grupos confiou-lhe só 27 minutos enquanto aguardava pelo peso técnico que David Neres, do Ajax, não deu à seleção brasileira.

Kaz Photography

Na seleção com mais tempo de bola, mais passes certeiros e que tem uma média de 21 remates por jogo, veio dar o rasgo individual, o arrojo forçado pelo drible (no lado por onde os argentinos sofreram os três golos que têm na Copa América) a uma equipa que já dominava, controlava e goleava (12 marcados, nenhum sofrido), mas demorava a maravilhar com a ginga e o malabarismo que o povo sempre exigirá à nação do samba na bola.

Não se esperaria que o gerador de artimanhas entre pés fosse Everton, radicado no Grémio e pouco badalado, do lado de cá do charco e antes da Copa América, para transferências multimilionárias. Do olhar dele transparece descontração, calma e uma despreocupação controlada com a grandeza do palco que, de repente, já o envolve. Impressões opostas aos olhos amorfos de Messi.

No olhar de quem tudo se espera na Argentina cabe tudo o que há de mau na seleção - desânimo, pela decadência na qualidade per capita no relvado, tristeza, pelo cada vez menor qualidade aparente no universo de escolha de jogadores, perante a história do país, desespero, pela busca de um treinador capaz de unir a equipa ao nível que um povo (enlouquecido por futebol desde o louco Maradona) quer elevadíssimo por considerarem que ter uma Bola de Ouro com dois pés e uma cabeça a isso obriga.

A Argentina nunca foi ao Brasil ganhar um jogo oficial aos brasileiros. O Brasil e a Argentina nunca se defrontaram na meia-final de uma Copa América.

Lionel Messi nunca venceu um título pelos argentinos, que nunca se lembram que já ganhou uns Jogos Olímpicos e, provavelmente, nunca lhe perdoarão se chegar a uma terceira final seguida e a seleção não ganhar, sem que isso faça com que haja algo a perdoar-lhe. Everton não será, para já, a estrela do Brasil, por mais artimanhas que invente com a bola.