Tribuna Expresso

Perfil

Futebol internacional

Robben passou uma carreira a enganar toda a gente: a anatomia de um golpe previsível e terrivelmente eficaz

Será seguro afirmar que Arjen Robben marcou a grande maioria dos seus 144 golos após receber a bola, fintar para dentro e ir fintando até arranjar espaço para rematar a bola em arco, para o poste esquerdo da baliza. Aos 35 anos e ao fim de 309 jogos, o holandês mais previsível mas imparável retirou-se do futebol

Diogo Pombo

Alexander Hassenstein

Partilhar

Havia um careca sereno e paciente, sempre no lado direito do campo, de preferência não mais longe do que 40 metros da baliza, à espera que a bola lhe chegasse. Assim que a controlava, o tempo como que parava e, de repente, contemplávamos uma das verdades absolutas desta vida: aquele canhoto ia arranjar forma de arrancar com a bola, fintar quem fosse para o centro e encontrar maneira de rematar à baliza, em arco, com o pé esquerdo.

Durante anos, jogos, temporadas, vários campeonatos, muitas edições de Ligas dos Campeões, o calvo mais previsível na intenção, mas imparável na execução, levou a melhor. Livrou-se de um adversário atrás do outro que sabia, há muito, o que ele queria fazer, mas incapaz era de o evitar.

Arjen Robben era assim, minuciosamente especializado num tipo de drible, num gesto. Um canhoto encostado à direito para receber a bola com o campo aberto. Um extremo feito não para cruzar, sim para embalar e ludibriar, até ter na mira poste esquerdo da baliza

Se fosse computorizado ou adaptado a comando de consola, o holandês teria apenas um botão, mas o botão mais eficaz. Ainda era assim aos 35 anos e com 19 de carreira. O corpo, os músculos e a velocidade estavam gastos pelo tempo; o velho truque, porém, mantinha-se surpreendente para quem o tinha de defender.

Anatomia de um golpe previsível e eficaz

MB Media

Robben parecia jogar nos milésimos de segundo, abrandar o tempo e acelerar o pensamento nos momentos em que o adversários hesitava, cravava o pé de apoio, levantava o outro e se enganava, outra vez, na tentativa de agir sobre o expectável. “Deve haver alguma coisa que ele faz. Talvez espere pelo último momento, não sei. Na maioria das vezes, tento esperar pelo movimento, para ter mais hipóteses de roubar a bola. Se não for paciente, ele finta-me”, disse Wendell, do Bayer Leverkusen, ao “New York Times”, defesa que defrontou Robben mais de dez vezes na Bundesliga.

O holandês passou 10 anos no Bayern de Munique a replicar o drible, depois de temporadas erráticas no Real Madrid e no Chelsea pelas muitas lesões que lhe encurtaram o tempo em campo, e instáveis pelos treinadores que nem sempre o colocavam a jogar à direita, onde partia como um extremo de baliza, não de cruzamento.

Arjen Robben foi cedo cristalizado pelas dezenas lesões musculares que acumulou durante a carreira. Com a alcunha de “Homem de Cristal” sempre veio a eterna questão do que teria sido com mais constância, maior imunidade, mesmo que aquilo que tenha sido, não tenha sido coisa pouca: acumulou 26 títulos entre quatro países, incluindo uma Liga dos Campeões. Com a Holanda, jogou a final do Mundial de 2010.

Com 35 anos tomou "a decisão mais difícil da carreira" - terminá-la.

Admite ter "pensado durante as últimas semanas" sobre o fim agora confirmado. Acaba a história que a bola mais conhecia antes de chegar aos pés. Terminou com Robben a fintar para fora do campo.

Nunca terá havido jogador tão genial, eficiente, rápido e espetacular a executar uma só coisa, em específico, de bola corrida. Arjen Robben passou uma carreira a enganar toda a gente.