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Futebol internacional

Assistência ✔️ Golo ✔️ Expulsão ✔️ Copa América ✔️

A figura da final da Copa América foi Gabriel Jesus, o avançado brasileiro que brilhou antes de ver o segundo amarelo e animar, ainda mais, o jogo que, 12 anos volvidos, deu o maior título do continente ao Brasil

Diogo Pombo

Yuri Edmundo/Getty

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Gabriel Jesus, o cara que liga para a mãe por cada golo que marca, é um homem de área, brasileiro para receber a bola e a primeira, a segunda e a terceira coisas que lhe vêm à cabeça serem rematá-la à baliza. Gabriel Jesus é avançado, é-o no Manchester City e já o era no Brasil, mas deixou de o ser na seleção brasileira.

Mascarado de amarelo e azul, Tite tem-no à direita, encostado à linha, como um extremo que tem mais parecenças com um avançado ou, vendo bem as coisas, um avançado que mais parece um extremo.

Estando a bola em Daniel Alves, ele finge que se aproxima para atacar as costas do lateral, pede o passe longo que sai, mata-o no peito, troca a bola nos pés para simular um cruzamento com o esquerdo e fazê-lo com o direito, trocando os apoios ao adversário no processo. Desmarca-se, recebe, dribla e cruza para Everton, o extremo a sério que vem do lado contrário rematar o 1-0 na área.

Ou, se calhar, Gabriel Jesus é mesmo um avançado de gema e jogar perto de uma linha, com o Brasil, é um mal necessário para ele e um bem construído para a seleção.

Meia hora depois de assistir, ele é assistido por Arthur depois de o médio conduzir a bola e quase a deixar seguir até Jesus. À beira da área, no centro e ao segundo toque desvia-a do guarda-redes e repete, na final da Copa América, o filme da meia-final: um golo e uma assistência para o extremo-avançado.

Este golo ajuda a explicar o que é ele no Brasil e o que o Brasil é com ele, e com Roberto Firmino - também ele um falso em campo, um avançado que foge da área tanto quanto está nela, para criar dúvidas e arrastar marcações. Firmino perdeu uma bola quando estava à direita, correu para a recuperar e, quando a deu a Arthur, já Gabriel Jesus estava ao centro, perto da área, feita a troca de posições com quem é suposto estar sempre a trocar.

Assim o Brasil controlou e dominou o Peru, com bola, à imagem do que tem mandado na Copa América, abusando da posse de bola e procurando atrair a pressão contrária no lado esquerdo, para depois tentar encontrar, do lado oposto, Dani Alves e os seus 36 anos de lateral que guardam um organizador nato de jogo

Antonio Lacerda/Lusa

Os peruanos tentavam cair logo sobre a primeira fase de passes dos brasileiros. André Carrillo pressionava muito as tentativas de saída por Dani Alves. Consegui-o se a bola saísse por ele. Chegava atrasado se fosse obrigado a lá chegar basculando, que é futebolês para quando os jogadores têm de ajustar a posição e o espaço às viagens da bola.

Só uma bola na mão de Thiago Silva, na área, quando o central estava a cair num carrinho, deu um penálti para Paolo Guerrero bater. O 14.º golo do capitão peruano em Copas Américas e o primeiro que o Brasil sofreu nesta edição apareceu cinco minutos antes de Gabriel Jesus fazer o dele.

Os peruanos treinados por Ricardo Gareca jogam próximos, com passes curtos, num estilo apoiado e de bola no pé, refém da própria crença pelas jogadas que, na segunda parte, continuaram a desaproveitar por quererem entrar com pequenas tabelas pela área do Brasil adentro.

Perdiam a bolas uns metros mais à frente, bem dentro da metade do campo do Brasil, abrindo espaço à frente da defesa onde Philippe Coutinho recebia muitos passes, rodava e embalava nas jogadas que o caracterizam. O Brasil rematou à baliza por Firmino e Jesus, enquanto Coutinho insistia em só os querer imitar e nunca soltar a bola, à beira da área. Desperdiçou três jogadas assim.

E quando o Brasil ameaçava e mantinha o Peru controlado, o avançado feito extremo virou expulso. Gabriel Jesus atropelou Zambrano no ar, levou um segundo amarelo, refilou com a decisão do árbitro e foi chorar para as escadas de acesso ao balneário do Maracanã.

No campo, a bola passou para os peruanos, que a passaram muito, de um lado ao outro, à procura de espaços para descobrir Guerrero. Os brasileiros encurtaram a distância entre linhas, Arthur juntou-se a Casemiro e Firmino saiu para o mais veloz Richarlison reforçar o perfil contra-atacante da equipa. O Brasil defendeu, esperou, cortou jogadas e aguadou mais um pouco até uma saída rápida lançar Everton, que ganhou um penálti.

Richarlison bateu Pedro Gallese já nos 90' e à assistência, ao golo e à expulsão, Gabriel Jesus juntaria uma Copa América conquistada. O brasileiro que foi figura no bom e no mau atualizou as memórias do Maracanã, dando outro grande título ao Brasil seis anos volvidos (fora os Jogos Olímpicos de 2016, o último troféu foi a Taça das Confederações, em 2013).