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O Peru joga como sempre e já pode ganhar como quase nunca

Há 44 anos que os peruanos não chegavam à final da Copa América. A explicação para o terem feito pode bem estar no jogo que fez muitos desacreditar que isso seria possível: a derrota por 5-0, na fase de grupos, com o Brasil que reencontram, este domingo (21h, Sport TV1), no Maracanã

Diogo Pombo

Alexandre Schneider/Getty

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Teófilo Cubillas embalou-se para a bola, em linha reta, a baloiçar as pernas com pequenos passos de corrida em vez de as pausar sequencialmente, o normal em quem vai bater um livre. A abordagem era estranha, quase anti-natura. Ele encostou a parte da frente do pé na bola, no resvés com a trivela, para lhe dar uma pancada chapada e a fazer surripiar pelo lado de fora da barreira. Bateu-lhe e continuou a correr, como se tudo fosse um gesto contínuo, sem necessidade de abrandar o movimento para rematar.

No engenhoso livre de Cubillas, na invenção que arranjou para marcar um de três golos à Escócia, no Mundial de 1978, na forma como adornou o corpo e alinhou o pé, estava muito do que, durante muitos anos, se associou ao Peru quando se pensava em futebol: arte, técnica, jogadas a um toque, coisas bonitas que se confundem com romantismo.

Durante esses anos 70 e mais uns pózinhos dos 80, salvas as devidas diferenças, os peruanos eram para a bola, na América do Sul, o que o mundo reconheciam serem os brasileiros e os argentinos. Dali era de esperar futebol bem jogado, a bola a ser cortejada. Só que aí, como fora antes e seria depois, o Peru jogava muito e ganhava pouco. “Que bonito joga o Peru”, lembra-se Cubillas de ouvir, disse ao “El País”, sem que a essa frase se juntassem vitórias que dessem títulos. Ou vitórias que os tornassem uma hipótese.

Houve a Copa América conquistada em 1939, no tempo de outros futebóis, outra vencida em 1975, e depois houve 44 anos até a final de domingo, com a Argentina. Até à consequência maior da “confiança inculcada” por um selecionador “para que os jogadores se dessem conta do potencial” que têm.

Porque “o futebolista peruano tem técnica e talento, mas carece de reconhecimento das suas virtudes”. O vaticínio é de Renzo Galiano, jornalista do “El Comercio” do Peru, que tem acompanhado a seleção há anos e tem visto, nesta Copa América, como tudo parece estar a alinhar-se por culpa de um a tipo que, em 2015, chegou para comandar a equipa e dar-lhe algo que não tinha.

Há quatro anos, o Peru já tinha bons jogadores, virados para o toque, a técnica e a bola mantida na relva, mas passou a ter Ricardo Gareca. O argentino pegou na seleção e levou-a logo a um terceiro lugar na Copa América. Qualificou-a para um Mundial, findos 36 anos. Colocou o país na final da maior prova de seleções das Américas, 44 anos depois.

E, sobretudo, começou a sacudir dos peruanos a aura de jogarem bem e produzirem pouco, na lógica do produto final resultadista. “Gareca instaurou um estilo onde se respeita o toque de bola. Onde todos contribuem, colaborem e são solidários. Deu prioridade ao coletivo em toda a linha”, resume-nos Renzo Galiano, definindo o treinador já como “parte da história gloriosa do futebol peruano”.

Alexandre Schneider

Nesse estilo cabe Renato Tapia, rochedo recuperador de bolas que sustenta Yoshimar Yótun e Christian Cueva, médios que muito correm e mais jogam e tocam. Mais ainda desde que a equipa perdeu Jefferson Farfán, por lesão, a meio da prova. O estilo obrigou em confiar mais em Édison Flores e André Carrillo, o ex-Sporting e exilado do Benfica, “um referente na seleção”, mas de quem os peruanos “acreditam que ainda pode dar muito mais”.

Um estilo que não começa, mas acaba e é personificado em Paolo Guerrero. O capitão que virará centenário na seleção, o avançado com cara de mau, tão lutador de bolas no ar e como requintado no toca-e-foge emaranhado nas jogadas que o Peru tenta ligar, em ataques rápidos. “É o líder por natureza. Honra o seu apelido”, elogia o jornalista peruano, sobre o melhor marcador em atividade na história da Copa América (13 golos).

Do outro lado do campo está Pedro Gallese, o guarda-redes que “tem muito caráter” e “soube levantar-se de uma goleada”.

Ou melhor, da goleada.

A fase de grupos acabou com o Peru a ser atropelado por um 5-0 do Brasil da baliza imaculada, da defesa coesa, do Daniel Alves rejuvenescido para criar jogo à direita, de Coutinho, Firmino, Everton e Jesus, craques a desabrocharem na ausência de Neymar do dono da ginga que costuma sugar todo o jogo atacante para os seus pés.

O Brasil constante e eficaz, mas que apenas foi espetacular à brasileira nesse jogo, rematou cinco bolas para a baliza da seleção que parecia necessitar de um mini-trauma destes para atinar.

A goleada foi uma espécie de fomento da “confiança” e da “atitude de superação” que explicam a chegada dos peruanos a esta final: “Toda a gente nos deu como mortos, até a maior dos peruanos não acreditavam numa recuperação. Com o trabalho e a liderança de Gareca, a equipa recuperou a memória de jogar futebol e a vitória [3-0] contra o Chile foi um baile”. Os uruguaios caíram nos penáltis antes de os chilenos não poderem contra as transições rápidas com jogadas de toques curtos.

Retificar o resultado com o Brasil nesta final "deveria permitir uma mudança estrutural" no futebol peruano, não na seleção, que muito tem evoluído com Ricardo Gareca, mas a nível interno, para puxar pela formação, a organização do campeonato e o nível de profissionalismo dos clubes - "Mas, se não aconteceu com a qualificação para o Mundial de 2018, é difícil que aconteça agora", lamento Renzo Galiano.

No que se pode tocar é no lado que se pode associar à boniteza do futebol praticado, que os peruanos sempre tiveram dificuldades em ter: "Uma vitória permitiria sentirmo-nos orgulhosos. Ficaríamos loucos de euforia, porque seria algo histórico e irrepetível durante décadas".