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Enfim, o louco futebol inglês voltou

O Manchester City ganhou a Supertaça de Inglaterra ao Liverpool, nos penáltis (5-4 após o 1-1), num jogo frenético com bolas nos postes, pressão intensa e ataques à velocidade da luz que já são regra quando estas equipas colidem. Bernardo Silva foi titular e bateu um dos penáltis

Diogo Pombo

Martin Rickett - PA Images

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Pregar uma partida, em campo, é um trick or treat distorcido onde não se dá bem a escolher, mas se é escolhido por quem dá o truque. No caso, o Manchester City, recém-dono de um livre a meio da metade do campo dos outros, dos inofensivos, toca-o para o lado e aciona a previsível reação automática que viria de qualquer linha defensiva decentemente treinada: avançarem, em bloco, para cortar espaço a quem ataca e deixaram os mais distraídos em fora de jogo.

Uns quatro ou cinco são apanhados na rede, impávidos, e não reagem. Ficam na posição, propositadamente não jogáveis, enquanto a linha do Liverpool avança e, em contra-mão, correm Kevin De Bruyne, o transparente genial médio, David Silva, o pequeno artista da chuteira esquerda, e Raheem Sterling, outro minorca cujos braços correm como se estivesse a pisar brasas.

Eles sprintam contra o espaço que o Liverpool vaza e nenhum é tipo para estar na área à espera de uma bola que caia do ar.

Mas o passe longo sai, é para o belga, que a desvia a bola de cabeça para o espanhol, rodando no ar, a ceifar ao de leve com o pé, fazendo-a chegar ao desvio do inglês, já na pequena área. O trick foi estudado e bem aplicado pelo City, o treat é para nós, toda a gente que estivesse a ver, sem a obrigação de amar o futebol, basta gostar de se ver uma coisa bonita a ser bem feita.

Os de azul claro e camisola minimal, para comemorar os 125 anos do clube, é a dona da bola. Silva e De Bruyne filtram-na com poucos toques, pedem que Sterling a acelere muito e que Bernardo Silva fixe atenções com ela, no seu estilo de decidir à beira do corte adversário. Rodri, a única compra da época na equipa, ainda parece um peso na fluidez com que o treinador careca, vestido como se esperasse uns amigos em casa para umas cervejas no quintal, costuma dar ao City.

Eles convidam à pressão na área própria para chegarem rapida, vertical e intensamente à que está do outro lado. E o Liverpool do outrora bloco infalível, cujos médios se fechavam no território a evitar para qualquer adversário, é um prisioneiro de si próprio: esses médios saltam tarde a pressionar quem tem bola, reagem tardiamente às segundas bolas e não conseguem receber e virar-se de frente para o campo.

Fabinho, Henderson e Wijnaldum nada fabricam e o Liverpool só abana a sua existência quando Firmino se farta dos centrais alheios, foge da posição, dá-se como parede e pede tabelas. Ou, até, quando desce para apertar o médio do City que recebe quando a equipa quer variar o sítio onde toca a bola. Firmino roubou-a várias vezes para lançar Salah nas costas de Zinchenko.

O egípcio e o brasileiro remataram, foram perigosos, deram uso às luvas de Claudio Bravo, lograram que o Liverpool atacasse mesmo não jogando no meio campo.

John Powell

A moagem contínua da bola através do passe em que o City prospera não sobreviveu ao intervalo. O Liverpool avançou uns metros a linha defensiva, empurrou os médios na pressão sem a bola e, com ela, forçou a ponte entre Van Dijk-Arnold e Firmino-Salah. Insistiu no vaivém e confortável ficou no jogo porque o forçou a ficar frenético.

Depois de Sterling ainda curvar uma bola contra o poste, o central holandês e o extremo faraónico do Liverpool acertarem, consecutivamente, no ferro da baliza. Salah já tinha várias corridas com bola para serem definidas à entrada da área. A equipa de Klopp já agia para jogar como costuma em vez de apenas reagir ao que o City fazia, por hábito.

E mais agressiva ficou com Matip em campo, a central, para Joe Goméz ir anular Sterling à direita com velocidade contra velocidade, e com as conduções de bola de Naby Keita ao centro, para empurrar os médios do City contra os centrais e abrir espaços para se verem mais linhas de passe até Firmino e Salah. A intensidade do Liverpool cresceu quando a do City quebrou e empataram, também com um livre cruzado para a área.

ADRIAN DENNIS

O golo do camaronês Matip apareceu aos 77’ e foi como que uma ordem para acentuar o frenético ritmo que se espera de um jogo de futebol entre equipas inglesas. O Liverpool cheirou a falência do City, avançou ainda mais as linhas no campo, encostou a pressão à baliza de Claudio Bravo e provocou aquelas auto-detonações raras, embora típicas, da equipa de Guardiola: a desmantelar-se perto da própria área, a falecerem iguais a si próprios com saídas de bola curtas, a insistirem com essa ideia na cabeça quando dentro dela já só têm cansaço.

Foram minutos de perdas de bola, passes falhados, decisões mal tomadas e a pressão do Liverpool a tudo engolir, que fizeram de Bravo, ainda mais, o jogador mais importante em campo à medida que parava as tentativas dos monstros da intensidade. A última que parou deixou o ressalto para a cabeça de Salah, que não foi buscar a taça porque Kyle Walker se atirou baliza dentro, com um pontapé acrobático, para não ser a bola a entrar.

Nos penáltis que salvaram o Manchester City, em 10 pontapés, todos cruzados para o lado contrário do pé que os batia, só Wijnaldum falhou - ou Bravo acertou, depende da perspetiva. A equipa de Pep Guardiola conquistou o sexto título consecutivo em Inglaterra, mas, antes de o confirmar, os treinadores deram um abraço sentido, entre risos e sorrisos, quando o desempate a 11 metros da baliza já era uma certeza.

Um abraço, quem sabe, para se congratularem por o louco e saudável e frenético futebol inglês estar, finalmente, de volta.