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Wayne Rooney vai ser treinador-jogador, mas não à antiga

O ainda melhor marcador da história da seleção inglesa, hoje a gastar os anos decadentes da carreira na MLS americana, assinou contrato com o Derby County, do Championship, para se juntar ao clube a partir de janeiro de 2020 enquanto jogador e treinador, mas não da equipa principal. Não como parecia ser moda na década de 90, em que o Chelsea chegou a ter alguém como treinador-jogador durante oito épocas seguidas

Diogo Pombo

Icon Sportswire/Getty

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A frase não pode ser atribuída, com direitos de autor, a este ou aquele treinador, porque poderia vir de quem fosse, por este aspeto desta vida ser igual para todos: um tipo que tenha a função de treinar uma equipa de futebol acorda, vive o dia e vai para a cama a pensar futebol.

Há treinos para serem preparados, microciclos de trabalho semanal a delinear, exercícios com e sem bola, técnicos ou táticos, em que pensar em função do adversário seguinte, que vídeos montar para mostrar aos jogadores, e por aí fora. Ser treinador é puxar pela cabeça, talvez 24 horas sobre sete dias de uma semana. É pensar, deliberar e matutar sobre coisas em várias partes do dia, ao contrário do que é ser futebolista.

Quem se equipa e põe as chuteiras tem uma hora e meia, ou duas, para se preocupar. Tem o treino de campo, uma eventual sessão de ginásio, porventura mais uma fatia de tempo dedicada a trabalho físico fora do clube (prevenção de lesões, treino de força, velocidade ou explosão), com algum preparador privado. Chegar, reagir, treinar, executar e pronto.

Jogar. Essa foi a vida de Wayne Rooney, o corpulento inglês com fisionomia de raguebista, durante os últimos 17 anos. Apareceu a deslumbrar no Everton, explodiu de vez no Manchester United, onde jogou, marcou e correu até a idade lhe pesar mais nesse corpo e o afastar da área, e agora está a decair no DC United, nos EUA.

E, a partir de janeiro de 2020, o dono de mais golos (53) marcados na história da seleção, em quem talvez se encontra o pé direito inglês que melhor bate na bola no pós-Beckham, vai jogar no Derby County, da segunda divisão do país.

Mas não vai só jogar. É suposto que treine, também.

Primeiro que tudo, explicou o Derby County, ele juntar-se-á ao clube enquanto jogador, “mas terá responsabilidades de treino, particularmente no desenvolvimento dos jogadores mais jovens, da Academia, que estão a progredir até à primeira equipa”. Nos entretantos, procurará “ganhar as qualificações relevantes para uma futura carreira de treinador”.

Ou seja, Rooney não será bem um tipo que treina a equipa e pode, assim que lhe der na real gana, jogar em vez dos jogadores que treina. É o caso, por exemplo, de Vincent Kompany, atual e de facto treinador-jogador do Anderlecht, que foi titular no primeiro par de jogos da equipa no campeonato belga.

Kompany vai ser treinador-jogador. Tal como Vialli, Toschack, António Oliveira, Dalglish, etcetera

Capitão do Manchester City despede-se depois de 10 anos, onde, nos últimos tempos, voltou a encantar-se pelo jogo. Segue-se o Anderlecht, como treinador-jogador, no clube onde tudo começou

O ainda jogador, de 33 anos, chegará ao Derby County após o fim do campeonato da MLS e está “entusiasmado por começar a carreira de treinador, trabalhando com a primeira equipa e a Academia”. Nem o clube, nem Rooney esclareceram que função terá exatamente na equipa em que, na época passada, o treinador era Frank Lampard e agora é Phillip Cocu.

Um treinador-jogador à antiga, como chegou a ser usual ver em Inglaterra durante os anos 90, contudo, não deverá ser.

Mirrorpix

O último caso com toques de sucesso foi Gianluca Vialli, avançado careca que jogou e mandou no Chelsea entre 1998 e 2001, conquistando uma Taça da Liga e uma antiga Taça das Taças. Fê-lo num clube que esteve oito anos consecutivos (desde 1993) com alguém a treinar a equipa e a jogar, ao mesmo tempo: o italiano sucedeu a Ruud Gullit, holandês que ocupou o lugar de Glenn Hoddle, inglês antes já existira com esta dupla-face no Swindon Town.

Nenhum deles se vestiu com a artimanha criativa de Bryan Robson, que se adornou com camisa, fato e gravata no tronco, deixando os calções e as meias nas pernas, quando foi apresentado como treinador-jogador do Middlesborough, em 1994. Por lá ficou durante três anos, ao mesmo tempo que ainda se dividia com o ser adjunto de Terry Venables na seleção inglesa.

Ninguém resultou em tantos títulos, porém, como Kenny Dalglish. O escocês dos tempos mais áureos do Liverpool dedicou-se a jogar e a treinar em 1995 e, até 1990, deu ordens e marcou golos para conquistar 11 troféus, incluindo três campeonatos.

O completo oposto a Jaime Pacheco (Paços de Ferreira), António Oliveira (Sporting) ou até Petit (Boavista), exemplos dos aventureiros que tentaram misturar as funções em Portugal.