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Uma Supertaça para mais tarde recordar

Árbitras, bicicletas, golos e penáltis, muitos penáltis: foi assim a animada Supertaça Europeia 100% inglesa, entre Liverpool e Chelsea, que acabou empatada a um golo, nos 90 minutos, a dois golos, nos 120 minutos, e foi finalmente desempatada nos penáltis, por um herói desconhecido chamado Adrián, que foi contratado pelo Liverpool na semana passada

Mariana Cabral

Anadolu Agency

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É uma daquelas verdades praticamente universais no futebol: a Premier League é o melhor campeonato do mundo. Milhões à parte (se é que se pode sequer ignorar tal quantidade estapafúrdia de dinheiro), essa verdade habitualmente advém daquela loucura prática frequente nos jogos entre equipas inglesas, da qual os adeptos tanto gostam.

On a cold rainy night in Stoke ninguém está particularmente interessado em passes, fintas ou em controlar os ritmos do jogo. O melhor é mesmo meter a bola bem longe da própria baliza, dar tudo para ganhar as segundas bolas e os ressaltos e, bom, seja o que o deus da bola quiser.

É assim que a ação vai rapidamente de uma área à outra, sem particular respeito pelos homens do meio-campo, e foi também assim que os locais chegaram à conclusão antecipada - e errónea - de que Pep Guardiola não iria ter sucesso em Inglaterra com o estilo de jogo que preconiza. Como é evidente, inúmeros recordes e troféus depois, o treinador espanhol deitou por terra teorias chauvinistas e abriu caminho para que outros maluquinhos fizessem o mesmo - ou pelo menos tentassem.

Esta foi a discussão da semana em Inglaterra, depois da 1ª jornada da Premier League 2019/20, no passado fim de semana, ter sido pouco generosa para duas destas equipas que gostam de jogar, enfim, de peito aberto, com intenção bem mais ofensiva do que defensiva: o Norwich de Daniel Farke, que fez frente ao Liverpool, ainda que tenha acabado a perder 4-1; e o Chelsea de Frank Lampard, que entrou em Old Trafford bem melhor do que o Manchester United, mas saiu vergado por um doloroso 4-0.

Nick Potts - PA Images

Como se a estreia de Lampard no banco da antiga equipa que capitaneava não tivesse sido suficientemente complicada, o jovem treinador ainda teve de levar com o rótulo de ingénuo, em direto na televisão inglesa, cortesia de um ex-treinador bem conhecido do Chelsea. "Acho que foram muito moles", disse José Mourinho, na Sky Sports. "Foi muito difícil perceber esta equipa, porque não foram compactos defensivamente. Havia demasiado espaço para jogar e não houve agressividade suficiente sobre a bola. A linha defensiva não estava bem e a distância entre defesa, meio-campo e ataque... Nunca estavam compactos", acrescentou, lamentando também a inclusão dos jovens Mount e Abraham e a falta de Kanté e Willian.

Ao ataque de Mourinho, no estúdio, Lampard respondeu com um contra ataque, em campo. Isto é, não, o Chelsea não trocou as (boas) intenções que tinha demonstrado em Old Trafford, mas o ex-pupilo do Special One também não pareceu ignorar o ex-treinador, esta noite, em Istambul: a equipa não só apareceu mais compacta nos momentos defensivos (se bem que aquele espaço entre lateral e central, por onde entrava Salah...), refreando, em certos momentos a pressão alta que manteve mais frequentemente no fim de semana passado, como beneficiou da inclusão do incansável Kanté no meio-campo, a médio centro, ao lado de Kovacic e à frente de Jorginho.

E se o Chelsea equilibrou, ao contrário do que era esperado, a Supertaça Europeia, isso em muito se deveu ao internacional francês, que recuperou inúmeras bolas no meio-campo e, mais do que isso, lançou várias vezes a equipa com perigo para as transições, conduzindo de forma agressiva e rapidíssima essas saídas.

Como a que deu a origem ao primeiro golo do Chelsea.

BULENT KILIC

Aos 36 minutos, Kanté recuperou uma bola no meio-campo e acelerou de forma estonteante para a transição ofensiva, lançando o endiabrado Pulisic que, por sua vez, atraiu os centrais Van Dijk e Matip, e beneficiou do trote frouxo de Joe Gomez na recuperação defensiva para colocar a bola na zona (aberta) do lateral direito do Liverpool, onde estava Olivier Giroud a receber e a rematar para o 1-0, de pé esquerdo.

Antes disso, também Pedro já tinha ameaçado a baliza do Liverpool - esta noite defendida por Adrián, devido à lesão de Alisson -, enviando uma bola à trave, ainda que o ímpeto ofensivo, a certa altura, tenha parecido bem mais propício a uma vitória da equipa de Klopp do que o inverso.

Mané - de volta à equipa depois das férias; jogou apenas 16' na 1ª jornada -, com uma bicicleta (pouco depois, Giroud também tentou uma), Salah, com o típico remate descaído para o corredor direito, e Van Dijk, de cabeça, ainda ameaçaram Kepa, só que depois o Liverpool foi parecendo cada vez mais adormecido no jogo. E ainda permitiu um segundo golo, agora a Pulisic - mas o tento foi bem anulado, por fora de jogo.

O que nos leva então à única equipa que ainda não foi mencionada nesta crónica: a de arbitragem.

Nick Potts - PA Images

Com Stéphanie Frappart como árbitra principal e Manuela Nicolosi e Michelle O' Neill como assistentes, fez-se história em Istanbul, já que estas foram as primeiras mulheres a orientar uma final europeia masculina. Nos foras de jogo, as assistentes tiveram um acerto quase inacreditável, enquanto a árbitra principal, nas restantes decisões, esteve igualmente num alto nível, ainda que dois lances tenham deixado algumas dúvidas: uma mão de Christensen na área, após um pontapé muito próximo de Mané, e um penálti a favor do Chelsea, já no prolongamento, devido a falta de Adrián sobre Abraham - em ambas as situações, o VAR não se manifestou (nem noutras, aliás), e, no final, o guarda-redes do Liverpool até admitiu que tocou no adversário.

À entrada para a 2ª parte, com o Liverpool em desvantagem, Klopp emendou a mão: tirou Oxlade-Chamberlain, que mal se viu na 1ª parte, e fez entrar o fantástico Roberto Firmino - o que teve logo efeito no jogo.

Aos 48', depois de uma desmarcação para a área, Firmino recebeu um passe de Fabinho e, na cara de Kepa, tocou a bola para o lado, oferecendo o golo a Mané.

A igualdade animou a equipa de Klopp, que voltou a superiorizar-se no ataque, estando perto do golo com remates de Fabinho e de Henderson. Aos 74', na sequência de um canto, Kepa fez a defesa da noite, a remate de Salah, e, na recarga de Van Dijk, suplantou-se a ele próprio com outra defesa da noite, desviando a bola para a trave e para o poste (!), na mesma jogada.

Já com os jovens Mount e Abraham em campo, por troca com Pulisic e Giroud, o Chelsea voltou a marcar, mas o golo foi novamente - bem - anulado por fora de jogo.

Os 90 minutos terminaram com um empate e o prolongamento começou com um desempate, novamente tendo como protagonistas Firmino e Mané. O avançado senegalês lançou o internacional brasileiro na profundidade e Firminou assistiu, com um cruzamento atrasado, o companheiro, que fez o 2-1, com um remate fantástico.

Era então a vez do Chelsea lançar-se na procura do empate e, na cara de Kepa, Abraham conseguiu desviar a bola para fora da baliza. Ainda assim, pouco depois, após mais uma grande investida do incansável Pedro, Abraham é derrubado na área por Adrián e, de penálti, Jorginho faz o 2-2.

Já na 2ª metade do prolongamento, com ambas as equipas em clara fadiga, Mount ainda esteve perto do golo, mas Adrián conservou o empate.

E foi assim que a Supertaça Europeia foi para penáltis, tal e qual como tinha ido a Supertaça inglesa, há duas semanas - quando o Liverpool perdeu com o City. Só que, nesse altura, Adrián ainda estava a treinar, para manter a forma, no clube lá da terra, o Unión Deportiva Pilas, perto de Sevilha.

O guarda-redes espanhol de 32 anos, que tinha saído do West Ham, só foi contratado na semana passada, depois de Mignolet ter saído do Liverpool, e o timing não podia ter sido melhor: Alisson lesionou-se frente ao Norwich e voilá, a baliza passou a ser de Adrián.

Matthew Ashton - AMA

O guarda-redes espanhol viu a bola passar por ele, para as redes, quando Jorginho, Barkley, Mount e Emerson marcaram - e também viu os colegas Firmino, Fabinho, Origi, Alexander-Arnold e Salah ultrapassarem Kepa -, mas, no décimo penálti da noite, Adrián converteu-se em herói inesperado, ao defender o remate de Abraham.

E foi assim mais um jogo louco da Premier... quer dizer, da Supertaça Europeia. Para mais tarde recordar.