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A Vida de Brian, o homem que tornava o normal no extraordinário, acabou há 15 anos

O treinador que levou o Nottingham Forest da segunda divisão até ao título de campeão europeu perdeu a luta para o cancro a 20 de setembro de 2004. Brian Clough, iconoclasta, brutalmente honesto, especialista em mind games e em tirar clubes do lodo dos escalões secundários e os levar ao sucesso, marcou uma forma de estar no futebol que, por estes dias, já não parece possível. Este é o perfil de um dos treinadores que influenciou José Mourinho

Lídia Paralta Gomes

Peter Robinson - EMPICS/Getty

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Ali pelos anos 70, Brian Clough era dono de um privilégio reservado apenas aos figurões, àquelas personagens míticas que todos os países albergam: era a voz mais imitada de Inglaterra, nas casas, nos pubs, nos jantares com família ou amigos. Acontece a tipos icónicos, como ele, rapaz nascido em Middlesbrough tornado treinador de futebol de sucesso, sotaque do norte de Inglaterra entranhado, voz ligeiramente anasalada a sair de uns lábios finos que pareciam não combinar com aquele ar de classe trabalhadora que nunca perdeu, nem quando passou a viver numa bela mansão e a conduzir um potente carro.

E não era só pelas idiossincrasias físicas que Clough fazia parte do imaginário público. Também era por o treinador ser uma das mais iconoclásticas figuras que o futebol já nos deu, não só por ter conseguido essa bizarria que era, nos anos 70 e 80, meter grupos de rapazes ingleses a jogar de pé para pé - porque como o próprio disse, se Deus Nosso Senhor quisesse que o futebol se jogasse no céu, talvez lá tivesse construído uns estádios -, mas também por causa daquela língua viperina, da forma como manejava as aparições na televisão, onde era cáustico, sarcástico e falava a linguagem de toda a gente, num tempo em que ser treinador na primeira divisão e fazer comentários televisivos ao mesmo tempo não era necessariamente um problema.

Dos anos 70 para cá, muito mudou, o futebol mudou e muito dificilmente se apanham treinadores a combinarem treinos e jogos com uma vida paralela de estrela da televisão. E por causa disso nunca mais teremos um Brian Clough, que partiu faz esta sexta-feira 15 anos, vítima de cancro do estômago, depois 20 anos de abuso de álcool, um vício que não escondeu, que o apanhou naquela frincha que sempre existe entre a auto-confiança desmedida e a vulnerabilidade, e que o levou deste mundo aos 69 anos, um ano e meio depois de fazer um transplante de fígado.

Brian Clough em 1980. O mítico treinador faleceu há 15 anos, vítima de cancro

Brian Clough em 1980. O mítico treinador faleceu há 15 anos, vítima de cancro

Allsport UK /Allsport/Getty Images

Depois de Clough, não deixaram de aparecer treinadores capazes de tornar a soma das partes em algo muito melhor que uma equipa de duas ou três estrelas, mas é possível que nunca ninguém o tenha feito como Clough, o homem que transformava o normal - o fraquinho até -, no extraordinário. Que levantou equipas do lodo das divisões secundárias, que tornou clubes de pequenas e cinzentas cidades inglesas em campeões de Inglaterra e depois campeões da Europa. Um tipo de treinador cuja vida dá livros e filmes e coletâneas de citações, quais Confúcio do futebol.

O maldito joelho e o maldito Leeds

Antes de se tornar num dos treinadores mais citados e citáveis do planeta e no milagreiro de Derby e de Nottingham, Brian Clough foi um avançado temível. Nascido e criado em Middlesbrough, foi na equipa da terra que começou a jogar e a marcar em barda. E também a mostrar os primeiros sinais de forte personalidade: aos 204 golos marcados em 222 jogos juntou uma série de atritos com colegas de equipa, a quem frequentemente acusava de falta de empenho, e um rol de pedidos de transferência, o que viria a acontecer em 1961, quando saiu para o rival Sunderland, na altura também no segundo escalão do futebol inglês.

Em Sunderland não parou de marcar. Até ao Boxing Day de 1962. No meio da chuva torrencial e do frio que chegava até aos ossos, Clough chocou com o guarda-redes do Bury, rebentando os ligamentos do joelho o que, nos anos 60, era praticamente uma sentença. Clough ainda voltou a jogar passado quase dois anos, os primeiros jogos e únicos jogos que fez na primeira divisão, mas as dores eram insuportáveis e aos 29 anos era o fim do goleador Brian Clough.

Um jovem Brian Clough, goleador no Middlesbrough

Um jovem Brian Clough, goleador no Middlesbrough

PA Images Archive/Getty

Foi logo à primeira experiência como treinador, com apenas 30 anos, que Clough mostrou aquilo que seria uma marca distintiva do seu percurso: tornar vencedoras equipas antes habituadas a sofrer. O Hartlepool United era uma modesta formação da quarta divisão, tão à rasca que o treinador tirou a carta de pesados para ser ele próprio a conduzir o autocarro da equipa.

Um oitavo posto à segunda época, um feito para uma equipa que em anos anteriores lutava para fugir ao últimos lugares, valeu-lhe um lugar no Derby County, da 2.ª divisão. Com ele foi o adjunto Peter Taylor, que seria o seu braço direito nos maiores sucessos.

No Derby County, a primeira temporada foi para limpar a casa: para lá de uma revolução no plantel, Clough ainda exigiu o despedimento do secretário do clube, do responsável pelo relvado e do responsável pelo scout. O alegado despedimento de duas empregadas por se terem rido após uma derrota do Derby é um dos mitos que sobreviveram ao mito Clough.

A limpeza teve os seus frutos e à segunda temporada o Derby sagrou-se campeão da segunda divisão, entrando de rompante na primeira divisão com um surpreendente 4.º lugar. Dois anos depois, na época 1971/72, chegava o título, o seu primeiro título de Inglaterra. E logo depois os problemas.

O planeamento da pré-temporada seguinte trouxe os primeiros desencontros com o presidente do Derby, Sam Longson: a direção queria viajar para a Holanda e Alemanha e Clough disse que só o faria se pudesse levar a família. Quando o clube recusou, Clough mandou o adjunto no seu lugar.

É também por esta altura que Brian Clough aumenta o volume dos seus comentários críticos em relação a colegas e ao poder instituído no futebol inglês, tanto em jornais como na televisão, onde é uma figura omnipresente. O seu principal alvo era o Leeds United, treinado por Don Revie, que, dizia Clough, personificava tudo aquilo que ele não acreditava nem permitia nas suas equipas: o jogo sujo, a indisciplina, as pressões aos árbitros, a falta de fair-play.

A corda entre Clough e o Derby partiria em outubro de 1973, entre protestos dos adeptos do clube e dos próprios jogadores do plantel. Poucos dias depois estava a treinar o Brighton, da terceira divisão, um interlúdio antes dos, provavelmente, 44 dias mais loucos do futebol inglês.

Depois de levar o Leeds ao título, Don Revie aceitou o convite para se tornar selecionador inglês. E o sucessor foi o homem que tanto havia criticado a forma de jogar do Leeds. Os mesmos jogadores que havia acusado de falta de fair-play, de serem violentos e sujos, eram os mesmos que Clough iria agora treinar. Igual a si próprio, Clough não chegou a Elland Road com um discurso pacificador. Pelo contrário: no primeiro treino aconselhou os jogadores a deitarem fora todas as medalhas e taças que tinham ganho com Revie, já que não eram limpas nem justas - Clough conseguia ser tão brutalmente honesto quanto irascível.

Com boa parte da equipa contra si, a passagem de Clough pelo Leeds - para onde não levou o fiel adjunto Peter Taylor, que previu desde logo o descalabro e ficou em Brighton - ficou marcada por intrigas, discussões e, consequentemente, maus resultados desportivos: em doze pontos possíveis, o Leeds conseguiu apenas quatro, num dos piores arranques de campeonato da história do clube. Esses 44 dias de verão quente de 1974 dariam origem ao livro (e depois ao filme) “The Damned United”, onde factos reais se misturam com ficção, merecendo, por isso mesmo, críticas vorazes tanto de antigos jogadores do Leeds como da própria família de Clough. Em sua defesa, o autor, David Peace, frisou que o livro era “um retrato de Brian Clough e não uma fotografia”.

A glória em Nottingham

Com a conturbada saída do Leeds, Brian Clough voltou às catacumbas do futebol inglês. Em janeiro de 1975 foi contratado pelo Nottingham Forest e foi na terra de Robin Hood que emulou (ou melhor, melhorou) aquilo que havia conseguido a poucos quilómetros de distância, em Derby. Depois de duas temporadas regulares na segunda divisão, voltou a juntar forças com Peter Taylor e logo na temporada seguinte o Nottingham Forest chegou à 1.ª divisão.

E se com o Derby, a magia da dupla Clough/Taylor demorou duas temporadas a fazer efeito, no Nottingham foi logo à primeira: na temporada de regresso à 1.ª divisão chegou ao título, vencendo o campeonato com claros 7 pontos de vantagem para o segundo. Um segundo título inglês, depois do conquistado com o Derby, não era apenas uma resposta depois do falhanço no Leeds, era também a vitória de um novo Clough, mais afastado de polémicas, mais comedido, mas nunca calado, ele que sempre se assumiu como socialista e apoiante do partido Labour.

Clough a festejar com Peter Taylor o título europeu de 1979, em Munique

Clough a festejar com Peter Taylor o título europeu de 1979, em Munique

Peter Robinson - EMPICS/Getty

Mas aquele que seria o primeiro e até agora único título inglês do Nottingham não seria, nem de perto nem de longe, o título mais surpreendente daquele Forest: em 1979 e 1980, os ingleses tornaram-se bicampeões europeus, com uma equipa sem estrelas, em que a junção de forças valia muito mais do que as individualidades e que privilegiava o futebol de Clough: apoiado, rápido, simples, sem invenções ou malabarismos. Os títulos europeus do Nottingham, em finais contra o Malmo e o Hamburgo, são, ainda hoje, um dos feitos mais incalculado e espantosos da história da agora Liga dos Campeões. Duas vitórias de uma equipa sem história de títulos tanto dentro como fora de portas, algo que parece, por estes dias, impossível.

Brian Clough seria treinador do Nottingham até à descida de divisão do clube, em 1993. O brilhantismo daquele período entre 1978 e 1980 não voltaria. A saída de Peter Taylor, em 1982, desfez a dupla maravilha e a relação dos dois, que não se voltaram a falar até à morte repentina de Taylor, em 1990. Algo que, de acordo com a família, deixou profunda marca em Clough, que nunca terá ultrapassado o facto de não ter feito as pazes com o antigo adjunto.

A incapacidade de replicar aqueles anos dourados tornaram Brian Clough cada vez mais refém da pressão e, causa/efeito, do álcool. “Beber tornou-se mais importante para mim do que a angústia que estava a criar naqueles que mais gostava”, disse numa entrevista. Nunca ter sido escolhido para selecionador de Inglaterra, algo que esteve perto de acontecer em duas ocasiões, foi outra das desilusões que o treinador nunca escondeu.

Os últimos anos foram passados fora do futebol, embora Clough continuasse a escrever para várias publicações enquanto definhava fisicamente. Em 2004, há precisamente 15 anos, a doença levaria a melhor, mas o legado, esse, fica até hoje e em treinadores como José Mourinho, que já citou Clough como influência. Aliás, talvez nenhum outro treinador de perfil alto se tenha aproximado tanto da persona pública de Brian Clough como José Mourinho. Porque também o português foi cá dentro um mestre em tornar jogadores até então normais em futebolistas extraordinários. E também o português marcou um estilo e uma forma de estar fora de campo.

Mas ao pé de Clough, Mourinho até parece um rapaz bem comportado.