Jorge Jesus, o líder espiritual da maior Nação do Brasil
A “Nação”, como é apelidada a base de apoio do Flamengo, está rendida a Jorge Jesus, que colocou a equipa brasileira na final da Libertadores, algo que já não acontecia há 38 anos. Aos 65 anos, o treinador português está a deixar uma marca indelével no Brasil
25.10.2019 às 11h22
Lucas Uebel
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Penso que a minha opinião sobre Jorge Jesus já é conhecida: é um treinador fantástico! As equipas pelas quais passa tendem a personalizar a sua ideia de jogo e a cumprir as diretrizes a que são obrigadas quase ao milímetro. Se ele assim o é - fantástico -, é-o porque tem o conhecimento que separa os melhores dos bons: o técnico, ou, se quiserem, o tático.
Poucos têm mais conhecimento tático do que o treinador do Flamengo, passe o exagero. E são menos ainda os que conseguem operacionalizar de forma tão fiel o que lhes vai na cabeça. Se o jogo dependesse do treinador, seria tudo muito fácil, mas não; o jogo depende do entendimento e posterior reprodução em campo por parte dos jogadores daquilo que o treinador lhes tenta passar. É isto que Jesus oferece como muito poucos: aprendizagem célere dos processos de jogo.
Por isso nunca concordei quando foram dizendo em Portugal que a Jesus faltam aptidões na comunicação. Não concordo, porque percebo que ele consegue transmitir exatamente o que quer, com maior ou menor dificuldade na linguagem. Os jogadores entendem, a equipa técnica e todo o staff do clube entende, os jornalistas entendem e o público que o ouve e dele faz chacota (pelo mau português) também entende.
Nunca ficam dúvidas do que ele quer, quis, ou quererá dizer; e isso, amigos, é comunicar bem: a mensagem passa. As suas conferências de imprensa, que complementam o comportamento da sua equipa em campo, são fantásticas para quem quer saber mais, para quem quer um conhecimento mais profundo do jogo. Foi assim comigo: como à Lázaro, Jesus despertou-me e comecei a andar. Está a ser assim no Brasil: estão todos espantados e a querer perceber como é que um treinador pouco cotado na Europa, em tão pouco tempo consegue uma vantagem tática tão grande em relação a todos os outros.
Bruna Prado
Há, obviamente, mais treinadores de qualidade no Brasileirão, mas nenhum deles tem a capacidade de priorizar os conteúdos certos no treino para que, no jogo, a sua equipa apresente, regularmente, os comportamentos do seu modelo de jogo.
Como é também evidente, o Flamengo tem qualidade individual acima dos adversários, mas é sobretudo um futebol bem mais evoluído nos momentos defensivos que o distancia dos rivais. Há grande capacidade na transição ofensiva, nas bolas paradas e o ataque posicional, apesar de não ser o mais brilhante, por força da fragilidade tática dos treinadores no Brasil tem funcionado na maior parte dos jogos.
Jorge Jesus, como treinador de grande nível que é, tem bem definido o que quer, quando quer, e como quer. Para o ataque e para a defesa. Para cada uma das onze posições em campo. Sabe do que quer abdicar, e sabe o que é realmente importante para ele. E, por isso, na hora de escolher o seu plantel, de escolher o seu onze inicial, coloca os jogadores a competir dentro daquilo que é a exigência dele.
O Flamengo de Jorge Jesus goleou o Grémio, por 5-0, e garantiu presença na final da Libertadores, que será disputada frente aos argentinos do River Plate
EPA
E o que Jesus mais exige aos seus jogadores é a velocidade a que se cumprem os movimentos ofensivos e defensivos. É uma exigência mental, primeiro, mas, depois da perceção do estímulo, sobretudo física. Com ele, os mais rápidos a ocupar os espaços, os mais agressivos a atacar as linhas de passe que ele quer, vão jogar mais vezes. Os mais fortes a atacar a primeira bola, os mais agressivos no 1x1 (ofensivo ou defensivo), os que jogam constantemente em alta rotação, serão quase sempre os escolhidos.
As primeiras escolhas dele, assim possa escolher, estarão sempre dentro destes parâmetros. Dessa forma, vai desenvolvendo o seu modelo de jogo, no qual a exigência física é fundamental para a concretização da sua ideia.
Em Portugal, o atual treinador do Flamengo acabou por esgotar a influência que tinha, por força de um enorme conhecimento que todos passaram a ter dos seus processos, pela forma como marcou os treinadores por cá e todos passaram a olhar para ele como uma referência, e por não ser um treinador tão capaz de furar blocos baixos (e relativamente bem organizados de forma zonal) como os que ele passou a enfrentar.
Na Terra do Samba, por força de um futebol muito virado para as individualidades e pouco focado nas ações colectivas, Jorge Jesus está a ter uma passagem absolutamente arrebatadora, porque tem qualidades que encaixam como uma luva numa escola de futebol que produz os maiores talentos do mundo, mas que do ponto de vista coletivo está 20 anos atrasada no tempo - é caso para se dizer que em terra de cegos quem tem olho é rei!
Jesus promete transformar-se em Messias, o salvador profetizado pela “Nação” do “Mengão”, assim consiga cumprir a expectativa de vitória no Brasileirão e na Libertadores.
Por cá, já distribuía conhecimento há muitos anos... como se comprova nesta “aula” de março de 2013.
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