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Balotelli, os sons de macaco, o líder dos ultras que lhe chamou "um palhaço" e o racismo em Itália

Mario Balotelli ouviu sons de macaco, pegou na bola, chutou-a para a bancada e ameaçou abandonar o Hellas Verona-Brescia. O jogo continuou e o líder dos ultras de onde vieram os cânticos disse que o jogador "os ouviu na sua cabeça", que "não é inteiramente italiano" e "comportou-se como um palhaço". Um delegado da federação italiana presente no estádio garantiu que, pelo menos, 15 pessoas imitaram sons de macaco

Diogo Pombo

Alessandro Sabattini/Getty

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Mario Balotelli está a ser encostado contra a bandeirola de canto por um adversário, com outro bem perto, a dar-lhe cobertura e a armadilhar, mais ainda, a bola que o avançado tenta proteger. Ele abranda, tenta acalmá-la e preparar-se para magicar uma forma de sair dali. De repente, agacha-se, pega na bola com as mãos e, furioso, pontapeia-a para a bancada.

A cor de pele do italiano é negra e, no estádio do Hellas Verona, há pessoas estupidificadas ao ponto de imitarem sons de macaco, aos berros, quando Balotelli domina essa bola junto ao canto do campo. Ele ouve-os, reage como reagiu e o jogo é interrompido.

Quase todos os jogadores em campo o interpelam. Tentam acalmá-lo, agarram-no, pelas imagens nota-se que usam palavras para convencê-lo a desconsiderar o que ouviu. Fazem por resfriar quem respondeu à ignorância com fúria e pretendia abandonar o jogo. O árbitro ordena que, no sistema de som do recinto, se diga uma mensagem: caso os insultos racistas se repitam, as duas equipas saem do campo.

O jogo prosseguiu, o Hellas Verona de Miguel Veloso ganhou ao Brescia, o resultado é 2-1 e Mario Balotelli ainda curva um senhor golo, à entrada da área, no que foi uma não-solução que evidenciou um problema.

Porque, mesmo ameaçando-o, o italiano não abandonou o jogo e, aparentemente, tanto o árbitro, os jogadores do Hellas Verona e os do Brescia o convenceram a ficar em campo. Ninguém pareceu pretender que o encontro terminasse para, na prática, se ver um consequência de existirem mentes que vão a um estádio de futebol, veem na cor de pele um motivo para insultar e fazem-no com sons de macaco.

Houve hora e meia de futebol à vista de 39,211 lugares. Um deles era de Luca Castellini, líder dos ultras do Hellas Verona, conjunto de adeptos que ocupam a secção de onde vieram os gritos racistas. O jogo jogou-se, terminou e Castellini ainda teve tempo de antena na “Radio Cafè” para dizer isto: “O Balotelli ouviu os cânticos apenas na sua cabeça e comportou-se como um palhaço. Ele tem cidadania italiana, mas não é inteiramente italiano. Qual é o problema de dizer negro?”.

Da sua boca ainda saíram justificações várias, falando “no jogador careca, o que tem cabelo comprido, o jogador do Sul ou o jogador negro” para defender a claque como pluralista nos seus cânticos - “gozamos com todos, mas não o fazemos com motivações políticas ou racistas”.

Os sons que culpou Balotelli por ouvir na sua cabeça foram, porém, escutados pelos ouvidos de um dos delegados que a Série A tem, em cada jogo, junto às zonas do estádio onde se encontram os ultras. “Eram apenas cerca de 15 pessoas”, escreveu, no relatório de jogo, segundo o “Gazzetta dello Sport”, o que tem implicações na forma como um caso destes é sancionado em Itália.

Os regulamentos quantificam as ofensas racistas quando se chega ao momento de as castigar, ditando que se deve calcular a percentagem dos adeptos que entoaram os cânticos, entre o total que se encontrava nessa secção do estádio. Ou seja, “cerca de 15” entre uns quantos milhares, escreve o mesmo jornal, deve resultar numa multa - e não em jogos à porta fechada, ou na proibição dos ultras de entrarem no recinto.

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Eis, portanto, mais um episódio de racismo em Itália, onde muito se repetem sintomas que há em todo o lado, mas por lá são mais específicos, para não utilizar outros adjetivos. Em setembro, Romelu Lukaku queixou-se do mesmo e foram os próprios adeptos do seu clube, o Inter de Milão, a tentarem convencê-lo que sons de macaco "não são racismo", mas sim formas de irritar e gozar com os adversários.

Coisas que se querem fazer passar por argumentação, como Luca Castellini lembrar que o Hellas Verona "também tem um jogador negro, que foi aplaudido" quando marcou um golo ao Brescia.

Mario Balotelli e outros ouviram macacos a serem imitados quando tocaram na bola, jogadores a convencê-los a ignorarem, jogos a quererem ser continuados, a federação italiana a aplicar multas percentuais e entidades a dizerem para se dizer #nãoaoracismo, quando esse não, talvez, se torne mais eficaz quando os jogos deixarem de ser terminados e pontos forem subtraídos.

Tal acontecer significaria o todo ser punido pela parte, mas, se o objetivo da UEFA é "eliminador o racismo, a discriminação e a intolerância do futebol", ter o nome da campanha escrito nas braçadeiras de capitão, em cartazes nos estádios e em vídeos nos ecrãs gigantes poderá não ser suficiente. Como a solidariedade que clubes como o Inter, a Fiorentina ou o AC Milan demonstraram a Balotelli, por não substituírem a ação.

Mas Balotelli agradeceu-a, dirigindo-se "a todos os companheiros de campo" pelos gestos de conforto e "às mensagens recebidas de adeptos", que "demonstraram ser verdadeiros homens" - ao contrário dos que "negam as evidências."