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Então é isto que é jogar em modo-Deus

O Liverpool-City acabou em 3-1 para os jogadores de Jürgen Klopp, que acertaram praticamente tudo o que de ousado e arriscado tentaram, passando por cima da equipa de Pep Guardiola que rematou e criou oportunidades ao seu estilo (até Bernardo Silva marcar), mas não partilha, de momento, um estado de graça em que tudo parece sair bem

Diogo Pombo

Andrew Powell/Getty

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Aí está ele, sorriso mais colgate que há, os dentes branqueados e milimetricamente alinhados, a rir-se. Minimiza o jogo que mais atenções atrai no mundo, neste sábado, com risos, encolher de ombros e despreocupação no tom de voz. Jürgen Klopp, de óculos na cara e fato de treino vestido, é o tipo com quem estaríamos num pub, após o jogo, canecas de cerveja na mão, a falar da vida no geral e, desconfio, não necessariamente de futebol em particular.

Fechado na cara e concentrado em manter a postura, Pep Guardiola aparece ornamentado no seu estilo casual, nem equipado à desportiva como se fosse dar um treino, nem aperaltado por camisa, gravata e fato, como se um jogo fosse uma boda casamenteira. Não é que surja carrancudo, mas tem a cara tomada pela concentração, o sorriso adiado.

Seria o tipo que deixaria a cerveja ficar morna, de tão ocupado em falar, durante horas, sobre o jogo e o futebol que lhe vai na cabeça e a ocupa a tempo inteiro (como dizem que, realmente, acontece).

Podem ser reboscadas, mas as impressões com que fiquei de Klopp e Guardiola depois de apareceram, à vez, para responder a umas perguntas pré-Liverpool-City, já no estádio, são um reflexo do que jogam as equipas que eles treinam. Não há uma boa e outra má, um estilo mais eficaz, um yin e yang de oposições. Mas, colidindo, respeitam o costume e dão uma primeira meia hora infernal ao jogo em Anfield.

O Manchester City quer entrelaçar e intrincar o uso que dá à bola, muito passe para o pé, muito toca e devolve e insistência fiel em atrair adversários ao meio, para libertar espaço por fora e ir, de tabela em tabela, fixando jogadores e tirando-os da jogada rumo a Agüero. O argentino remata ao lado ou para Alisson defender, ou quase chega a cruzamentos de Sterling e de um lateral careca e chamado Angelino.

Fazem a bola correr mais do que eles. Não correm tão intensos, frenéticos e verticais, acreditando que é possível acelerar à velocidade de um passe tenso, como os jogadores do Liverpool, que sempre procuram a forma mais rápida de todos chegarem à baliza.

Fabinho aproxima-se primeiro que os médios do City, recolhe a ressaca de um contra-ataque e bate a bola para o buraco mais próximo da baliza. Salah cabeceia um inacreditável cruzamento feito ao sprint, de Robertson, lançado com uma bola longa do lado direito da defesa, onde o Liverpool atraíra a pressão adversário e a ludibriou para abrir espaço no flanco oposto.

O simples, breve e direto feito a alta rotação, com dois golos a mais ao intervalo que o paciente, passador e posicional com bola.

Chloe Knott - Danehouse

Acrescentou-lhes um terceiro, logo depois, quando Henderson, mascarado de extremo em tempos recentes, acelerou encostado à linha para se evadir de um adversário, cortou a bola à maneira passe longo para virar o flanco e o tenso cruzamento chegou à cabeça de Mané, ajudado pela desatenção de Kyle Walker e a uma certa gentileza de Claudio Bravo na baliza.

A jogada serviu de exemplo, mais um, do flagrante modo-Deus em que jogavam Fabinho, Wiljnaldum, Alexander-Arnold, Robertson e os três fulminantes estarolas da frente.

Uma equipa com jogadores que acertam quase tudo o que de mais ousado, arriscado ou difícil tentem, ainda por cima forçando-se a jogar ao ritmo a que joga, atropelaria pela eficácia quem fosse a equipa a proteger a baliza do outro lado do campo.

E o City brilhante e mestre a vergar adversários a serem marionetas suas, jogando com o espaço e a bola para desbravar caminhos, nunca parou, ocasionalmente, de deixar Agüero em condições de rematar, Sterling a ultrapassar duelos e a decidir com critério, no pós, De Bruyne a cavalgar corridas até à entrada da área.

Mas, emperrado, sofria horrores a cada bola perdida, porque o Liverpool saltava (passes verticais e pelo ar) as suas armadilhas de pressão, coisa que deixou de conseguir, em série, nos últimos 15 minutos. O City avançou com as linhas, arriscou subir ainda mais a pressão, logrou encolher o Liverpool junto à própria baliza e somou mais toque dentro da ou perto da área contrária.

Um deles serviu para Bernardo Silva, com um cruzamento rasteiro desviado, bater um remate ao poste mais próximo, emagracendo a diferença no resultado, mas não o quase fosso que separou as equipas durante 75 minutos nas reações às bolas recuperadas e perdidas.

O City acabou a engordar a densidade populacional na área do Liverpool, sem conseguir mais golos, não voltando a acertar remates no raio de Alisson, sem sobrepor o seu estilo de jogo posicional ao futebol rock 'n' roll, como já é vulgar chamá-lo, dos anfitriões, cujos nove pontos de vantagem no topo da Premier League daria que falar a Jürgen Klopp, em qualquer conversa de pub - até Pep Guardiola entrar e lembrar a conversa de que, a época passada, a vantagem era, às tantas, de oito pontos e quem a tinha não foi campeão inglês.