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Villa maravilha, o rapaz que se vai embora

O protótipo de avançado móvel, nunca estático, sempre a desmarcar-se e a jogar com o espaço, anunciou a retirada aos 37 anos. Quando a Espanha forçou Raúl a desaparecer da seleção, surgiu David Villa, maior goleador da história da equipa que ganhou um Mundial, dois Europeus (o último, sem ele) e o teve como a referência do que é para aparecer na área, em vez de apenas estar lá

Diogo Pombo

David Ramos/Getty

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O pai é um homem abastado no peso, bigode cuidado a suster o nariz. Deixa a mulher e a filha em casa, a diário, fato macaco a cobrir o corpo para descer às profundezas de 800 metros debaixo de terra. É mineiro de carvão nas Astúrias, volta ao ninho, a diário, com a pele manchada de negro, para ninguém lhe dar conversa.

Quer falar sobre futebol, o tema desinteressa às mulheres, ele aguarda por outra filha que faça companhia à irmã, mas muito se alegra quando a segunda gravidez lhe dá um filho. O rebento persegue-o para todo o lado, ele incentiva-o a fabricar os próprios objetos redondos, de papel e fita adesiva, única forma de tornear a mãe que proíbe bolas verdadeiras em casa, a bem da mobília.

É mais um dos rapazes à espera que o pai mineiro se assome do carvão, todos os dias. O específico dialeto asturiano chama-lhes guajes.

David quer um dia imitar o progenitor que, cruzes credo, tudo faz por evitá-lo. Brinca e entretém o filho com uma bola, incentiva-o, descobre o médico que sugere colocar-lhe as pernas suspensas, por pesos, no hospital, quando todos os outros julgavam inevitável que a imaculada crescesse mais que a quebrada pelo peso de um miúdo mais velho, que lhe cai em cima e parte o fémur, durante um jogo na rua.

Recebida a alta do hospital, algures entre o pai que sugere e o filho que insiste, ficou David, com quatro ou cinco anos, encostado a uma parede de casa, apoiado do lado da perna ainda engessada, a receber e a devolver passes com a outra. Aí localiza a razão para a destreza bípede: “Quando as pessoas analisam hoje o meu jogo, falam sobre como sou capaz de rematar com os dois pés”.

As aparências podem iludir para se julgar isto como o cúmulo da sobredosagem, sintoma de um pai obcecadamente a ver no filho uma fuga de Tuilla, pequena cidade das Astúrias, porque quem de lá não saísse tinha uma descida traçada às minas, de onde se extraía o emprego, o dinheiro e a subsistência de famílias.

A pessoa que o incentivava à fusão com uma bola, porém, era a mesma que, em dias chuvosos e frios, quando David embirrava por faltar ao treino, deixava o motor do carro ligado e o aquecimento a trabalhar, para o filho ter um calor à sua espera no fim e manter os pés quentes até casa.

Ele continuou com o direito aquecido até desviar o quinquagésimo nono golo pela Espanha, contra a Austrália e no Brasil, em 2014, no último ajuntamento de nações em que jogou. Foi, mais precisamente, com o calcanhar e aos 32 anos, quase parado no sítio certo da grande área, à espera de um cruzamento rasteiro.

Laurence Griffiths/Getty

Não foi em corrida atrás de um passe, área dentro, para o rematar em força com a pujança dos 23 sóis que contava quando marcou o primeiro, frente à Eslováquia, em 2005.

David Villa fugiu do destino em carvão, saiu da Tuilla mineira e tornou-se o maior marcador da história da seleção espanhola, enquanto se alternou entre Gijón, Saragoça, Valência, Barcelona, Madrid, Melbourne, Nova Iorque e Kobe, povoando todos os lugares com golos e deixando para a cidade japonesa o anúncio, esta quarta-feira, de que vai “sair do futebol antes que o futebol saia” do seu corpo, de 37 anos.

Ainda era um adolescente ingénuo quando a mãe, preocupada com o dinheiro que chegava a casa, o urgiu a optar. Havia as minas e os estudos para ser eletricista, a pressioná-lo, ou o futebol, que tinha como divertimento, a puxá-lo para um caminho endinheirado, mas não para todos.

Pediu-lhe dois anos para tentar ser profissional. Seis meses depois, o Sporting Gijón oferecia-lhe o primeiro contrato, nem 17 anos tinha.

O avançado do estilo de corrida peculiar, não corcunda, mas a inclinar o corpo anormalmente para a frente, parecendo que se vai desequilibrar, lá marcou 40 golos em duas épocas, convencendo o Saragoça a comprá-lo para ter 39 no par de temporadas seguintes. Ganhou um Taça e Supertaça de Espanha, chegou à seleção e foi para Valência.

O filho de mineiro não escacava pedra para ver a baliza, era homem de poucos toques na bola. A dar muitos, dispensava as simulações de perna por cima da bola, preferia enganos com o corpo a regateava com supostas fintas. Muitos dos 129 golos são arqueados de longe, batidos com força junto aos postes, cabeceamentos em voo ou remates de ângulo complicado.

O que se retém não são bolas de encostar, David Villa não ficará como um tipo que esperava na área para o servirem. Era alguém que corria para apontar os passes que queria, desmarcador-mor e nato para indicar o caminho a quem o via de frente, nunca estático, jamais apenas a aguardar para que as jogadas entrassem nos últimos 30 metros.

Jasper Juinen/Getty

O Barcelona foi buscá-lo por isso, para o ter como o avançado de livre circulação durante o apogeu da giratória equipa de Guardiola. O carrossel de passes e jogo posicional, com bola, para atrair adversários e abrir espaço, colocou Villa à esquerda do campo. Foram três anos a fazer-se de extremo com destino à área, não também, mas sobretudo, para Lionel Messi instruir o mundo do que é jogar como falso 9 e espalhar genialidade onde lhe apetecesse.

Falou-se em desagrados de Villa, em supostas agruras com o argentino e suspeitou-se, à terceira época, que ali estava um titular da seleção onde não queria estar. Saiu para o Atlético de Madrid “porque não jogava”, trocou a omnipresença da bola na equipa pelo esforço constante sem ela e regressou à Camp Nou, na última jornada desse campeonato, em 2014, com um prato frio: uma vitória que deu o título aos vermelhos e brancos da capital.

Dali partiu, quis ir longe, foi até Melbourne (dois golos), seguiu para três anos em Nova Iorque (80) e um último, no Vissel Kobe (12), onde Iniesta o convenceu a acabar, pacientemente. “O que podes aprender é a ter calma. Se não tiveres paciência, não vais marcar. Também me aconteceu. Começas a perder bolas fáceis, a enganares-te nos dribles. Nessas situações, dizia a mim mesmo: uma oportunidade vai chegar, no mínimo”, admitiu, ao "Players' Tribune", o distribuidor de golos pelo mundo.

Conquistou-o, em 2010, com a Espanha, dando cinco golos à aventura do Mundial. Antes esteve no Europeu que tudo desencadeou para a seleção que uniu os baixotes em torno da bola, e, depois, uma lesão tirou-o do Campeonato da Europa que encerraria o ciclo antes de os espanhóis se darem conta.

Em 2014, na calamitosa eliminação na fase de grupos, no Brasil, marcou o último dos 59 golos pela seleção. Apenas voltaria a jogar mais um minuto, em 2017, na qualificação para o Campeonato do Mundo da Rússia.

O rapaz sai agora do futebol antes de o futebol sair dele e, quiçá, sem ter saído da cabeça dos espanhóis - David Villa foi o depois de Raúl González, mas, no depois do guaje, ainda ninguém houve como eles.