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Jack Rodwell, o renegado

Jogou no Manchester City, chegou a ser internacional inglês e foi retratado, numa série da Netflix, como o patinho feio e pouco profissional que parecia não querer jogar pelo Sunderland em plena queda livre até à terceira divisão de Inglaterra. Esta é a breve história de Jack Rodwell, a quem o Sheffield United deu uma oportunidade de voltar à Premier League

Diogo Pombo

Stu Forster/Getty

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Quem consumiu, fortemente, a série documental "Sunderland 'Til I Die", terá reparado no vilão do drama. Por vezes a caminhar nos corredores do centro de treinos do clube, outras a dizer duas, três ou quatro palavras para a câmara, nunca variando muito do negar-se a fazer algo, lá aparecia Jack Rodwell, o identificado futebolista inglês que o documentário pintou de mau, o patinho feio que nunca jogava, muito dinheiro ganhava e se recusava a renegociar o seu contrato.

O problema desse papel é que fora assinado três anos antes de o Sunderland descer, em 2017, ao Championship, ruína que terminou com uma década consecutiva na Premier League, arruinou umas já ténues finanças do clube do norte de Inglaterra, abriu as comportas ao vazamento de jogadores e deixou uma equipa para a queda não ir até à terceira divisão (League One).

Luta que, precisamente, as câmaras e microfones da Netflix documentaram, retratando Jack Rodwell como o mais cotado jogador que, ao longo de uma época, se recusou a rever o acordo que lhe depositava na conta, alegadamente, 70 mil libras (cerca de 81 mil euros) por semana, luxo num clube impedido de os ter.

Jack, como qualquer trabalhador, estava desobrigado a aceitar a revisão. Não tinha culpa de ser o único futebolista no plantel - facto revelado por David Moyes, treinador do Sunderland aquando da despromoção da Premier League - que assinara um contrato sem uma cláusula que implicasse um corte no ordenado caso o Sunderland descesse de divisão. Isto, mais os rumores de que Rodwell torcia o nariz a jogar e inventava mazelas em treinos para não se pôr a jeito, deu as más línguas um alvo para os dardos das críticas.

O médio esteve em três jogos (158 minutos) durante a calamitosa época de 2017/18 e as histórias foram aparecendo. Kit Symons, adjunto de Chris Coleman, treinador que acabaria por descer com o Sunderland à League One, contou que, no treino que antecedeu o primeiro jogo de ambos à frente da equipa, Rodwell "saiu a cinco minutos do fim agarrado à coxa" numa sessão em que "ninguém fez mais do que corrida ligeira".

Depois, "nunca mais" o viram - "esteve lesionado durante montes de tempo e nunca estava disponível para jogar".

Kevin Barnes - CameraSport

O Sunderland desceu às catacumbas do futebol inglês, Rodwell acabaria por rescindir o contrato na época seguinte, ser contratado pelo Blackburn Rovers, lá jogar na última época e, no verão, não aceitar uma proposta de renovação.

De repente, a reputação colada poderia sugerir uma leitura para o caso. Jack Rodwell, o renegado futebolista, o outrora promissor médio com tanto de bom passador quanto de corredor incansável, outra vez a arranjar problemas com verbas, contratos, salários e tempo de jogo.

O internacional inglês contou os últimos seis meses de 2019 a treinar sozinho, sem clube, de repente com algo a ver com Paulo Fonseca, quando a Roma treinada pelo português teve uma razia de lesões a meio campo e o improviso quase os fez contratar Rodwell, de rompante. Mas o semestre passou, Jack continuou sem ser visto até, no terceiro dia de 2020, o Sheffield United gostar do que viu, durante umas semanas, à experiência e tomar uma atitude.

Jack Rodwell é o novo médio da equipa recém promovida à Premier League e que vai no 8.º lugar, a dois pontos do 5.º que é do Manchester United.

O treinador, Chris Wilde, disse que o passado é passado, o jogador "preencheu todos os requisitos" necessários e "joga a várias posições" - na época anterior, foi quase sempre defesa central no Blackburn Rovers. Aos 28 anos, carregado com a bagagem que o etiquetou bastante nos tempos de Sunderland, o médio inglês tem um contrato válido até ao final da época, com hipótese de prolongar para a temporada seguinte.