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Dentro da cabeça de Setién, o novo treinador do colosso da Catalunha

Disse, há não muito tempo, que teria cortado o dedo mindinho para jogar no Barça de Johan Cruyff que instituiu uma forma de jogar com a bola no centro de tudo. Quique Setién ganhou apenas um título da Segunda Divisão B espanhola, mas treina equipas que arriscam com bola, a têm muito tempo e a jogam de trás e pela relva. Aos 61 anos, é o novo treinador do Barcelona e em vez de lhe contarmos quem é, sugerimos que o leia

Diogo Pombo

Aitor Alcalde Colomer/Getty

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Quem é Quique Setién, o treinador

"Sou perfeitamente consciente de que dependo dos resultados e que me podem despedir, mas, afinal de contas, mais tarde ou mais cedo vão acabar por te despedir. Prefiro criar algo, mesmo que me custe ao início, que dure e seja para o futuro." - Tactical Room, setembro de 2018.

"Existem muitos estereótipos: também quero ganhar, sou tão 'vencedor' como outros, mas quero ganhar através de uma série de mecanismos e de uma interpretação do futebol que é diferente. Entendo o futebol através da bola. Há outros que interpretam o futebol sem a bola." - ESPN, dezembro de 2017.

"Já me chamaram cabeçudo, e talvez tenham razão, mas sou cabeçudo para defender a minha proposta. Quando digo que sou cabeção, creio que é no sentido positivo, porque quando as coisas vão mal precisas de alguém com determinação para defender a ideia.

"Só prometo trabalho, prometo que a minha equipa vai jogar bem, não que vai ganhar, e isso, em algumas situações, não se entende bem." - El Mundo, maio de 2019.

Admirador de Johan Cruyff

"Disse a Cruyff que teria dado o dedo mindinho para ter jogado na sua equipa, não por jogar no Barcelona, mas pela forma como jogavam, porque via como os jogadores defrutavam." - El Periódico, outubro de 2018.

"Quando estava em campo sabia que se podia jogar melhor futebol. Não o soube verdadeiramente até defrontar as equipas do Cruyff. Pasmava-me o que sentia. Não sou capaz de inventar, mas sim de o copiar" - El País, janeiro de 2018.

O que acha do Barcelona

"O Barcelona é um exemplo: estabeleceram um critério que é como uma religião. Jogas assim, assim e assim... vieram 20 treinadores que sabiam que iam fazer dessa forma. Sim, o Lionel Messi está lá - ele é um caso à parte -, mas a ideia mantém-se. São a equipa que ganhou mais títulos na última década." - ESPN, dezembro de 2017.

"Nunca conheci um jogador que não goste de tocar na bola. Fazem-se futebolistas porque querem a bola, não para correr atrás dela. O conceito de médio defensivo traumatizou-me, porque no sítio por onde a bola passa mais vezes tens de ter os melhores futebolistas. É bom senso se quiseres jogar futebol." - El Periódico, outubro de 2018.

"É a tática que trata de anular os grandes futebolistas, com as ajudas, a ocupação de espaços. Cada vez custa mais aos grandes jogadores. Vemos como o Messi, sem a ajuda da equipa, se converte num futebolista deprimido e não saca o potencial que realmente tem. Quando tem uma equipa à sua volta, como no Barcelona, que leva anos a jogar de uma maneira concreta, o seu potencial expande-se de uma maneira bestial" - Tactical Room, setembro de 2018.

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Como pensa o jogo e gosta de o jogar

"Respeito todas as opiniões. Há equipas que se comportam muito bem sem a bola. Mas creio que 99% dos futebolistas pedirão uma bola quando lhes perguntarem o que é jogar bem. O futebolista quer a bola, não quer correr atrás dela. O jogador dar-te-á o melhor de si quando lhe dás o meio pelo qual se fez futebolista: a bola. Ninguém joga no recreio da escola para defender ou bascular. Tornas-te jogador porque gostas da bola." - El País, janeiro de 2018.

"Sempre dei muita importância ao passe. Quando jogava sofri com muitos treinadores que não interpretavam o futebol como sentia. Que jogavam longo, na segunda bola... Entendi bem quando apareceu o Barça do Cruyff. Jogavas contra eles, querias ir pressionar e nunca chegavas à bola.

Disse a mim mesmo: é disto que gosto. Comecei a ver o futebol de maneira diferente. Entendi a essência do jogo. Como te associas, a colocação, o jogo posicional. Desde miúdo ouvia que tinha de correr e, de repente, apercebi-me que não. Que o que é preciso fazer é jogar com a cabeça e não com os pés, nem com o coração. Porque quanto mais jogas a bola longa e mais rápido a bates, mais rápido ela volta." - El Periódico, outubro de 2018."

"Respeito totalmente toda a gente, mas eu gosto de futebol e interpreto-o com a bola. Trato de melhorar os meus jogadores e essa deveria ser a principal preocupação (...) Comigo jogará o futebolista que tenha mais qualidades técnica, mas sei que, com a maior parte dos treinadores, jogará aquele que trabalha, rouba 10 bolas por jogo, salta, é disciplinado e faz as coberturas, mesmo que quando tente dar um passe o dê ao contrário. Se tiver alguém para a sua posição que seja melhor tecnicamente, vou pô-lo a jogar." - Tactical Room, setembro de 2018.

"Sou identificado com uma certa forma de jogar. Disse aos jogadores [do Bétis] que lhes avalio a vontade, não o sucesso. Mas também lhes digo que a dose de risco que estão preparados a ter é decisão deles. Não temos que sair a jogar em todas as bolas. Haverá momentos em que os jogadores não estão confiantes, outras a bola vem e vão batê-la. Sem problema. O que lhes peço é que metam a nossa ideia na cabeça, porque nos vai ajudar e será a nossa forma de jogar." - ESPN, dezembro de 2017.

A forma de liderar

"Tens que tentar ser justo de todas as formas. E ser justo implicar não dar a muitos jogadores o que eles pedem. Mas a tua maneira de ver as coisas não encaixa com a deles e para colocares um jogadores tens que tirar outro, sempre. Por isso, gosto de dar muitas voltas às coisas, analisá-las. Não gosto agir por impulso.

Tento ser objetivo e falar bastante com os futebolistas sobre o que pretendo deles. Assim não restam dúvidas na hora de justificar as decisões que tomas. Quando te sentas à frente deles para lhes explicar porque não jogam há que dizer-lhes a verdade. Há que aclarar as coisas para que haja aproximação. Se não, haverá uma relação conflituosa." - Tactical Room, setembro de 2018.

"Todos os jogadores têm de ceder uma parte deles ao serviço da equipa. Aí se vê quem é realmente solidário e pensa na equipa, ou quem pensa apenas em si. É muito importante tê-lo claro para detetar problemas no campo. Por isso me defendo com argumentos quando falo com os jogadores. Primeiro, explico-lhes bem o que quero que façam e, quando não lhes sai, ou não o fazem, falo com eles.

Se, ao terceiro jogo que o faças, mando-te para o banco e perguntas-me porque não jogas, sentamo-nos e explico-te. Não quer dizer que nunca mais jogues, mas tens que mudar e esperar que o companheiro que te ganhou o lugar faça mal [o que peço], ou não o faça, ou que se lesione. Isto é o que há. São favas contadas." - Tactical Room, setembro de 2018.

Os clubes, os dirigentes, o futebol

"A conclusão a que cheguei, com o tempo, e já o disse a vários presidentes de clubes, é que, para fazer o que realmente quero, tenho de comprar um clube. Às vezes tomam-se decisões que não fazem sentido, como contratar um treinador que tem um perfil claro, despedi-lo ao fim de 10 semanas e trazer alguém diametralmente oposto, com um conceito totalmente diferente de futebol. Que sentido faz?

A primeira coisa que um clube precisa é uma ideia. O que quero? Como quero jogar? Uma vez definida a filosofia, tens de encontrar pessoas adequadas para desenvolver essa ideia, partilhá-la e comprometerem-se com ela. Se és o Barcelona e contratas o José Mourinho - que é um grande treinador - sabes que tens de mudar. Tens de perguntar 'temos a certeza que é isto que queremos?' O problema é que a maioria dos clubes não sabe o que quer fazer. São ditados pelas circunstâncias." - ESPN, dezembro de 2017.