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O Barcelona é uma ideia - e, como todas as boas ideias, é rentável

Em menos de 24h, duas informações aparentemente desligadas uma da outra marcaram o ciclo noticioso: o Barcelona trocou de treinador e o Barcelona é o clube mais rico do mundo. Só que no Barça poucas coisas são coincidências ou casualidades

Pedro Candeias

Eis Quique Setién, novo treinador do Barcelona

LLUIS GENE

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Soube-se entre segunda e terça feira que o Barcelona trocara de treinador e que era o clube mais rico do planeta, duas notícias que dominaram o ciclo noticioso nestas últimas horas, aparentemente desligadas uma da outra. Acontece que no Barça poucas coisas são coincidências ou casualidades: a entrada de Quique Setién e o relatório “Football Money League 2020” da Deloitte serão apenas a consequência de uma certa concepção holística. O lema, carismático, é: “Mais do que um clube”.

Com o seu jogo mais vertical, desapoiado e, consequentemente, menos bonito e dominador, o estilo de Ernesto Valverde era a negação do Barcelona, o mais esteta dos clubes. Quique Setién, sem títulos para apresentar no currículo, é um técnico de culto, um pensador e um idealista. Historicamente, é o tipo ideal para um emblema assim.

Desde Pep Guardiola, o herdeiro espiritual de Cruijff, o Barça readotara a posse, o jogo posicional e o tiki-taka. A sua marca reapresentou-se ao mundo, que entretanto globalizara, como a derradeira experiência desportiva - uma ideia romântica que, como todas as boas ideias românticas, vende e o que vende rende. E parece que ninguém rende como Barcelona.

No estudo da Deloitte, o emblema catalão somou receitas no valor de €840 milhões, “tornando-se o primeiro a quebrar a barreira dos €800 milhões”. Para tal, contribuíram os extraordinários direitos televisivos (€298,1 milhões) e também a bilhética (€159,2 milhões), mas a maior percentagem (46%) provém das receitas comerciais: €383,5 milhões.

Por receitas comerciais, a Delloite entende patrocínios, merchandising e outras “operações comerciais” não discriminadas. E o Barcelona deu um salto de 19% (mais €60,9 milhões) relativamente a 2019, algo facilmente explicável por esta decisão precavida: em maio de 2016, o clube renovou com a Nike, mas recuperou os direitos sobre o licenciamento da marca e da venda das camisola que estavam nas mãos da FCBMerchandising, detida maioritariamente pela… Nike.

Em 2018, nasceu a Barça Licensing and Merchandising, que envolveu uma transferência não-futebolística entre rivais, pois o diretor Rúben Benseny saiu do Atlético de Madrid para a Catalunha; em 2019, o Barcelona somou mais em receitas comerciais “do que o total das receitas do 12.º classificado desta lista [Borussia de Dortmund, €377,1 milhões]”.

Comparativamente, o Barça fatura mais €207 milhões só a vender camisolas e em patrocínios do que o bolo integral do Benfica (€197,6 milhões), o clube português ‘mais rico’ - os encarnados subiram seis lugares, para 24.º; o FC Porto ocupa o 29.º lugar (€176,2 milhões).

A diferença é o abismo inultrapassável entre os ricos e os pobres: Barcelona, Real Madrid e Manchester United têm receitas acima dos 700 milhões; Bayern, PSG, Manchester City e Liverpool oscilam entre os €600 e os €655 milhões; a Juventus, de Ronaldo, está nos €459 milhões.

A independência

A independência é uma palavra naturalmente importante para a orgulhosa Catalunha e o Barcelona parece querer emancipar-se à poder das televisões. Não é o único, pois no top dos clubes mais ricos, as receitas dos direitos de transmissão são secundarizadas face às operações comerciais.

O Real Madrid depende 34% da TV (€257 milhões num total de €757 milhões), o Manchester United 38% (€273 milhões de €711,5 milhões), o Bayern 32% (€211 milhões de €660 milhões) e o PSG 25% (€156 milhões de €635,9 milhões). Os franceses, aliás, são um caso de estudo justificado pelo volume de vendas de camisolas. Num mercado brutal como a França, em que praticamente não têm concorrência, e com a notória ligação ao extenso território árabe, por força do patrocínio qatari, os números de Neymar e Mbappé vendem como poucos.

Segundo a Deloitte, é possível que o negócio das televisões chegue a um plateau. O futuro passa, de acordo com a consultora, pelo streaming e pelas plataformas digitais; parcerias com Facebook, Amazon, Apple, Netflix e Google poderão trazer novas formas de receita.

Mas há um outro desafio: a Geração Z, dos 16 aos 24 anos, cujo padrão de consumo difere bastante da anterior. A chave está nas redes sociais, onde se cultiva a proximidade e a interação com os fãs, cada vez mais voláteis e imprevisíveis nas suas escolhas, porque muitas vezes escolhem o atleta e não o clube - e há futebolistas com seguidores que ultrapassam, em larga medida, os dos seus empregadores.

A base de adeptos está cada vez mais deslocalizada e desenraizada e, digamos, infiel por ser global. Um dos indicadores foi a contratação de Cristiano Ronaldo pela Juventus, que provocou o aumento de seguidores no clube italiano e a perda de um milhão de seguidores no Real Madrid, em apenas 24 horas. Menos engagement traduz-se potencialmente na descida de receitas.