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Há um clube alemão na mira das autoridades britânicas de contraterrorismo. E o St. Pauli gostava de saber porquê

A caveira com ossos cruzados que é o símbolo dos adeptos do St. Pauli, clube da 2.ª divisão alemã conhecido pelo seu ativismo de esquerda, surge num documento oficial da unidade da polícia britânica de contraterrorismo distribuído por professores, profissionais de saúde e outros trabalhadores públicos. O clube diz estar surpreso, mas as autoridades do Reino Unido garantem que o documento é apenas um “guia para ajudar a identificar e perceber o alcance" de certas organizações

Lídia Paralta Gomes

Daniel Bockwoldt/picture alliance via Getty Images

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O documento de 24 páginas, tornado público pelo jornal “The Guardian”, foi distribuído por professores, profissionais de saúde e outros trabalhadores do sector público do Reino Unido. Nele, a unidade da polícia britânica de contraterrorismo elenca uma série de símbolos de organizações consideradas extremistas. E nele está o símbolo de um clube de futebol, o St. Pauli, da 2.ª divisão alemã.

A caveira com ossos cruzados, que é uma espécie de emblema não oficial do St. Pauli, adoptado pelos apoiantes do clube, aparece no mesmo documento oficial que vários grupos neonazis, nacionalistas ou jihadistas, bem como organizações antifascistas, anarquistas e de esquerda radical - é neste saco que as autoridades britânicas colocaram o St. Pauli, clube de Hamburgo historicamente ligado à luta antifascista, antirracista e contra a homofobia, algo que está inclusivamente nos estatutos da equipa. Nos últimos anos, o St. Pauli apoiou ainda entrada de refugiados na Alemanha e a causa dos curdos no Médio Oriente.

Ao canal público alemão Deutsche Welle, um porta-voz do St. Pauli reconheceu que o clube foi apanhado de surpresa e que pediu explicações às autoridades britânicas, justificações que, até agora, não chegaram. Contudo, ao “The Guardian”, o comissário Dean Haydon defendeu a presença de várias organizações não-violentas no documento (onde está também, por exemplo, a Greenpeace) por este ser apenas um “guia para ajudar a identificar e perceber o alcance das organizações com as quais os trabalhadores públicos se possam cruzar”, com o objetivo que estes tomem “decisões bem fundamentadas”.

“Não consideramos estes grupos como extremistas, não os vemos como uma ameaça à segurança nacional”, assegurou ainda o comissário, que fala de nada mais do que "um programa preventivo".

O St. Pauli tem o seu estádio, o Millerntor, perto do famoso bairro de Reeperbahn, na zona do porto de Hamburgo, centro da vida noturna da cidade e do seu red-light district. A partir dos anos 80, o clube e os seus adeptos tornaram-se vozes fortes no ativismo social, com ligação às políticas de esquerda. Foi nessa altura que o St. Pauli se tornou no primeiro clube na Alemanha a banir qualquer tarja ou cântico discriminatório nas suas bancadas.