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Solskjaer pôs a jogar um futebolista acusado três vezes de violação. E a história está a voltar para o atormentar

Antes de treinar o Manchester United, o norueguês esteve no Molde, onde fez alinhar, repetidamente, Babacar Sarr, acusado de violar três mulheres diferentes e que, alegadamente, tem o mesmo empresário que representa Solskjaer. O jogador, entretanto, mudou-se para clubes na Rússia e Arábia Saudita, países que não têm acordo de extradição com a Noruega, onde Sarr já faltou a sessões de julgamento e levou a que fosse emitido um mandado de captura internacional

Diogo Pombo

Laurence Griffiths/Getty

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Quando os amigos se reúnem, há cavaqueira a ser partilhada, futebol para ser visto; preferem assistir ao jogo do Manchester United, pela televisão, mas ela recusa-se. Diz que não.

Não sabemos o nome, quer o anonimato e assim se mantém desde maio de 2017, quando, numa manhã nascida após uma noite de festa, acordou com um homem que a violara enquanto dormia. Era Babacar Sarr, senegalês e futebolista do Molde.

Sarr jogava regularmente como médio defensivo, era um comum titular, frequente na ficha de jogo essa temporada, em que o treinador o escolhia e deu aval à sua contratação do Sogndal, outro clube norueguês, onde já fora alvo de uma queixa por, alegadamente, ter violado outra mulher enquanto dormia, durante uma viagem de fim de época a Estocolmo, com a equipa.

Esse treinador era Ole Gunnar Solskjaer, outrora jogador reputado por ter cara de bebé e muitos golos marcar no Manchester United.

Que se saiba, não se terá oposto à ida de Babacar Sarr para o Molde e, quando a segunda mulher anónima apresentou queixa, o tribunal instaurou um processo criminal e civil e o jogador ia apresentar-se perante a justiça, em 2018. O jornal “Nettavisen” fez-lhe umas perguntas e ele disse: “O clube decide quem é contratado, quem é elegível e eu escolho uma equipa a partir daí. Veremos quando o caso terminar, mas escolhemos confiar no jogador”.

Essa mulher foi, agora, entrevistada pelo “Daily Telegraph”. Disse não considerar que Solskjaer “tenha valores para treinar um clube de futebol gigante” ou, sequer, para “gerir pessoas”. Defende que “tens de ter bons valores para criar bons jogadores” e não pessoas “que são estrelas” e que “podem fazer o que querem”. Daqui retira a conclusão de que “quando tens este tipo de pessoa a quem responder, estás lixado”.

O protótipo de humano a que se refere é, de novo, Solskjaer, o treinador que continuou sempre a escolher Babacar Sarr para a equipa do Molde, mesmo com o julgamento em curso, durante o qual até surgiu uma terceira queixa: outra mulher alegou que alegou, em 2014, ter sido violada durante o sono - e engravidado. Mais tarde, provar-se-ia que Sarr é, de facto, o pai da criança, escreve o jornal inglês.

Babacar Sarr, ao centro e de frente, durante um jogo com o Molde, em agosto de 2018.

Babacar Sarr, ao centro e de frente, durante um jogo com o Molde, em agosto de 2018.

NurPhoto

Os três juízes que julgaram o caso da mulher alvo de violação no período em que o senegalês representava o Molde consideraram Sarr como culpado. Condenaram-no a pagar uma compensação de 150 mil coroas, o equivalente a quase 15 mil euros. Tanto os advogados da mulher como os do futebolista recorreram da decisão.

Sarr continuou a ser titular até ao final da época (2017/18) e, após o derradeiro jogo do campeonato, em Oslo, foi sair com os companheiros de equipa. Nessa noite, outra mulher queixou-se de, alegadamente, ser violada pelo senegalês. Duas vezes.

Pouco mais de um mês depois, em janeiro de 2019, o Molde anunciava a rescisão com Sarr, por mútuo acordo, lembrando que foi “um tempo difícil para o jogador, assim como para o clube”. Solskjaer já era treinador do Manchester United. O jogador, entretanto, foi notificado para comparecer em tribunal para a audiência do apelo da decisão, mas, uma semana antes, assinou pelo Yenisey, da Rússia.

As sessões do julgamento foram sendo adiadas. No ano seguinte, um dia antes de ter de comparecer a nova audição, Sarr formalizou um vínculo com o Damac, clube da Arábia Saudita - outro país sem acordo de extradição com a Noruega.

Faltando a essa notificação, a justiça norueguesa emitiu um mandado de captura internacional para o futebolista de 28 anos, que, conta o “Daily Telegraph”, ainda se encontra na nação do Médio Oriente, apesar de já ter terminado o contrato com o Damac. Ambos os negócios foram agenciados, garante o jornal, por Jim Solbakken, empresário que representa, precisamente, Ole Gunnar Solskjaer.

São amigos, nasceram na mesma cidade (Kristiansund), fundaram a Dymanic Solution, empresa de agenciamento de jogadores, e a relação estende-se a partir daí em jogadores, negócios e parcerias, como, em 2014, detalhou a revista norueguesa "Josimar".

A mulher, de 29 anos, forçada a viver no anonimato, mudou-se para Oslo por não ser mais capaz de viver em Molde, uma cidade onde "toda a gente se conhece" e já sofria "ataques de ansiedade" cada vez que caminhava pelas ruas. Diz que passou o último verão num centro de reabilitação, sob tratamento para stress pós-traumático. Ainda está à espera que Babacar Sarr apareça para ser ouvido e julgado. E não vê os jogos do Man. United.