Tribuna Expresso

Perfil

Futebol internacional

Covid-19. A impensável história da saída de Obi Mikel do Trabzonspor: “Eles não querem saber das vidas humanas. Só lhes interessa o título”

Jogador nigeriano rescindiu contrato com o líder da liga turca depois de criticar a continuidade do campeonato e ter recebido pressões para não o fazer

Tribuna Expresso

VI-Images/Getty

Partilhar

Obi Mikel já está em Londres, junto da família, depois de uma odisseia que o levou a deixar o Trabzonspor, líder da liga turca, um dos únicos campeonatos que não foi suspenso com o agravamento do surto do novo coronavírus - entretanto, na quinta-feira, a liga foi, por fim, suspensa.

O nigeriano de 32 anos revelou que as críticas que fez nas redes sociais ao facto das autoridades do futebol turco não pararem o campeonato levou a ameaças do próprio presidente do clube, Ahmet Agaoglu, que exigiu que o médio apagasse os posts, numa altura em que o Trabzonspor estava muito perto de voltar a sagrar-se campeão da Turquia, algo que não acontece desde 1984.

"Eles não querem saber das vidas humanas, não querem saber sobre o que se passa no mundo. Tudo o que querem é ganhar o campeonato. Assinei pelo Trabzonspor no último verão porque queria ganhar a liga, dei 100% em todos os jogos. Mas numa situação como esta, em que o mundo está a enfrentar algo tão complicado, senti que o futebol não devia continuar", começou por explicar o jogador numa entrevista ao "The Guardian"

O presidente do clube começou por pedir à sua secretária para avisar Obi Mikel para retirar um post em que tinha criticado que os jogos continuassem à porta fechada e não fossem suspensos e face à recusa do nigeriano, a conversa passou a ser diretamente com o dirigente.

"Comecei por dizer que não ia apagar o post. É a minha opinião, o Mundo está a passar por tempos turbulentos e assustadores e as pessoas tem de acordar. Depois, o presidente disse-me que se não apagasse o post que não jogava até ao final da temporada", revelou.

No jogo seguinte, jogado à porta fechada, Obi Mikel foi relegado para o banco e foi nessa altura que decidiu que tinha de partir. "Havia na mesma risco de transmitir o vírus, há muitas pessoas ali. Além disso, não havia motivação, todos os jogadores estavam assustados. Não houve cumprimentos. Nada daquilo parecia certo. E eu disse para comigo que não queria fazer parte daquilo", sublinhou, revelando ainda que o medo de ver as fronteiras dos países europeus fechadas e o risco que tinha de ficar "meses e meses" fechado na Turquia, longe da namorada e das filhas que vivem em Londres, precipitou a decisão de rescindir contrato.

Com ligação ao Trabzonspor até ao final da próxima época, Obi Mikel sublinha que fazer o que está certo é neste momento mais importante do que assegurar o seu salário. Mas isso é algo que nem todos os jogadores da Turquia podem fazer. E o médio garante que muitos não falaram por medo.

"Toda a gente na Turquia tinha medo de dizer alguma coisa porque poderiam ser punidos pelos clubes ou porque os adeptos iam ficar contra eles, mas eu senti que tinha de dizer algo. Tive muitas mensagens de jogadores da Turquia que me diziam: 'Obrigada por teres feito o que fizeste, porque nós não podemos falar. Espero que entendas'. Eles tinham medo de perder o emprego e o salário, é claro que eu percebo", diz.