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O Atalanta-Valência pode ter culpas no surto em Bérgamo: "Temos 120 mil habitantes cá e nesse dia 45 mil foram a San Siro"

Papu Gómez, capitão da Atalanta, numa entrevista ao diário argentino "Olé", lembra o jogo da Champions que levou quase metade da cidade a Milão. Bérgamo é um dos maiores focos da covid-19 em Itália

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DeFodi Images/Getty

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Foi a 21 de fevereiro que Itália confirmou o seu primeiro caso de covid-19 com transmissão local. Dois dias antes, boa parte da cidade de Bérgamo fez a curta viagem até Milão: a Atalanta jogava em casa emprestada, em San Siro, para os oitavos de final da Liga dos Campeões, frente ao Valencia. Os italianos venceram por 4-1, houve festa, abraços, foi um dia histórico para o modesto emblema da Lombardia.

Hoje, pouco mais de um mês depois, Bérgamo é uma das cidades mais afetadas pelo surto do novo coronavírus. E Alejandro 'Papu' Gómez, capitão da Atalanta, acredita que esse jogo pode ter algo que ver com a situação dramática que vive Bérgamo.

"Acho que o que se passa hoje em Bérgamo pode ser porque temos um dos melhores hospitais da Lombardia e muita gente vem cá ser atendida, mas também por causa do jogo que fizemos com o Valência. Temos 120 mil habitantes cá e nesse dia 45 mil foram a San Siro. Foi um jogo histórico para a Atalanta, uma loucura. A minha mulher demorou três horas a chegar a Milão quando normalmente em 40 minutos estás lá", disse o argentino ao mais importante diário desportivo do seu país, o "Olé".

O internacional argentino criticou ainda que a UEFA não tivesse adiado o jogo da 2.ª mão, que se realizou a 10 de março em Valência, quando Itália já estava mergulhada na crise mas Espanha ainda vivia dias de relativa calma: "Fazer esses jogos foi terrível. Nessa altura ainda não havia muitos casos, ninguém sabia da gravidade e do contágio e não se percebeu a dimensão que podia tomar. Na 2.ª mão já estava o caos em Itália, mas Espanha ainda estava como nós no início. Fomos a Valência e não havia controlos, estavam todos relaxados. Agora é o segundo país da Europa com mais contágios".

Desde esse jogo que Papu Gómez não mais saiu de casa e ao "Olé" fez o relato do que se passa em Itália, mais concretamente em Bérgamo.

"A situação é dramática porque há muitos contágios por dia. Respeita-se a quarentena, mas ainda há pessoas na rua. Houve aqui uma polémica com os runners, porque iam correr para as praças e não pode ser: se eu, que sou desportista, não vou correr…", refere o avançado.

Papu Gómez diz ainda que sempre que acorda vai ver as notícias. "E elas são sempre más. Os hospitais estão cheios e não há lugar para mais doentes. Pensámos que era uma gripe como outras e por isso continuámos a fazer a nossa vida normal. Só quando apareceram as zonas vermelhas e os cordões sanitários é que tomámos consciência do que se estava a passar. Quando começaram a aparecer os mortos é que nos assustámos e passou também a haver mais informação".

O jogador da Atalanta lembra ainda que a situação de caos pode levar a medidas ainda mais estritas, até porque há quem continue a não respeitar a quarentena. "Fala-se disso, querem colocar militares nas ruas porque ainda tens gente na rua que sai para correr, que vai para o parque fazer abdominais, os que levam o cão à rua e depois passam ali uma hora às voltas porque estão aborrecidos em casa, os que dizem que vão ao supermercado mas depois é mentira...", diz.

Sobre a sua rotina, agora que está confinado em casa, Papu Gómez explica que tem feito coisas que nunca até agora havia feito. "De manhã levanto-me, tomo um mate com a minha mulher enquanto vemos as notícias. Nos dias que estão mais agradáveis saímos para o terraço, fazemos coisas em casa. No outro dia fiz jardinagem. Estou a fazer coisas que jamais fiz na vida, aproveito agora que tenho tempo. E à tarde treino", remata o capitão da equipa de Bérgamo.