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A saga de um futebolista negro na Bulgária: a solidão, os insultos nos estádios e os emojis de macaco que lhe chegam pelas redes sociais

Viv Solomon-Otabor, jogador do CSKA Sófia, contou na primeira pessoa ao "The Guardian" o inferno pelo qual tem passado, principalmente depois do triste espetáculo que foi o Bulgária-Inglaterra, em outubro, jogo que foi interrompido duas vezes devido a insultos racistas dirigidos aos jogadores ingleses: "Estou sempre a receber mensagens de abuso. Um adepto disse-me para ir para casa, nem posso dizer aqui as coisas que ele me disse"

Lídia Paralta Gomes

Nigel French - EMPICS/Getty

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Viv Solomon-Otabor é um extremo londrino de origens nigerianas conhecido pela sua rapidez e facilidade no drible. No início da época, vendo-se sem grandes oportunidades no Birmingham City, optou por um novo desafio: um contrato na mais histórica das equipas da Bulgária, o CSKA Sófia.

Aos 24 anos, esta é a primeira experiência de Solomon-Otabor fora do futebol inglês. No início, tudo correu bem. Mas nem a sua velocidade ou a sua capacidade de trocar as voltas a adversários na linha lateral podia prepará-lo para o que viria aí.

Tudo começou a mudar em outubro, após o infame encontro entre Bulgária e Inglaterra de qualificação para o Euro2020, em que adeptos búlgaros receberam os jogadores ingleses com insultos e imitações de macacos. O jogo foi interrompido por duas vezes e a federação búlgara multada em 70 mil euros e dois jogos à porta fechada, um deles com pena suspensa.

Nessa pausa para as seleções, Solomon-Otabor não estava na Bulgária. Chamado pela primeira vez à equipa principal da Nigéria, a nação dos seus pais, o extremo viajou para Singapura, onde a seleção africana jogou frente ao Brasil. O Bulgária-Inglaterra aconteceu precisamente durante a longa viagem de regresso do sudeste asiático.

"Não vi o jogo, mas mal saí do avião o meu telemóvel desatou a vibrar. Toda a gente me perguntava: 'É por isto que tens de passar?'. Diziam: 'Tens de vir para casa', 'tens de sair daí'", contou o jogador ao "The Guardian". "Fiquei surpreendido por ter acontecido tal coisa, porque até aí nunca tinha tido uma experiência semelhante", revelou ainda.

Com meia Europa em cima da Bulgária pelas pouco edificantes imagens que ficaram do Bulgária-Inglaterra, Viv Solomon-Otabor viu então a atitude dos búlgaros a mudar. Por ser negro e nascido em Inglaterra, tornou-se no mais fácil bode expiatório para os habitantes do seu país de acolhimento. Desde aí que recebe insultos racistas dos próprios adeptos do CSKA e dos rivais e as suas redes sociais encheram-se de ataques.

Ao "The Guardian", o jogador falou do dia em que um speaker de um estádio rival teve de intervir para que os adeptos locais parassem com os sons de macaco. Foi em dezembro, frente ao Arda. "Estava a aquecer quando comecei a ser insultado pelos adeptos do Arda. Foi muito difícil". O jogo continuou e o Arda acabou multado em 20 mil euros, nada que tivesse parado o inferno de Solomon-Otabor: "Estou sempre a receber mensagens de abuso. Um adepto disse-me para ir para casa, nem posso dizer aqui as coisas que ele me disse".

Por causa destas ameaças e insultos, a vida de Solomon-Otabor em Sófia, capital da Bulgária, limita-se às viagens entre os treinos e casa. Apesar de nunca lhe ter acontecido nada nas ruas da cidade, o britânico tem medo e não quer correr riscos. "Acho que já é algo da minha cabeça", diz. A solidão não ajuda. "O pior é que estou sozinho, nunca vivi em outro país que não Inglaterra e não me sinto confortável na rua por causa do que me acontece nos estádios. Essa é a parte mais complicada. Por isso, normalmente estou sozinho e fico em casa".

Sobre o clube, o extremo só tem coisas boas a dizer. "São todos muito simpáticos, mas há pessoas estúpidas que arruinam tudo. Isso não é bom para um miúdo vindo de Inglaterra", confessa, recordando as vezes em que abre as suas redes sociais e tudo o que encontra "emojis de macacos e insultos".