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Em plena crise da covid-19, há um golpe palaciano a acontecer no Barcelona

A entrar no último ano de mandato, o presidente Josep Maria Bartomeu iniciou uma verdadeira purga na direção, ao tentar afastar alguns elementos que já lhe foram próximos, mas que entretanto se tornaram críticos. Um deles é Emili Rousaud, o homem que todos viam como próximo presidente do clube

Lídia Paralta Gomes

Este é Bartomeu, presidente do Barcelona, que não vê com bons olhos alguns dos seus antigos apoiantes

JOSEP LAGO

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O surto do novo coronavírus está a deixar boa parte dos clubes de futebol em dificuldades, mas no caso do Barcelona veio pôr a nu muito mais do que problemas de tesouraria. Todo o processo que levou ao corte de salários dos jogadores já indiciava que a relação entre direção e plantel estava longe de ser saudável, um desgaste para o qual não terão sido incipientes as revelações de fevereiro passado, quando o presidente do clube Josep Maria Bartomeu foi acusado de pagar a uma consultora para criar perfis falsos nas redes sociais com o intuito de criticar rivais e até alguns jogadores, como Messi ou Piqué.

Mas no próprio seio da direção há fissuras profundas, numa altura em que Bartomeu entra no último ano de mandato. Um ano que deveria ser de transição para a passagem de testemunho a Emili Rousaud, vice-presidente da junta diretiva do clube e considerado até há bem pouco tempo o candidato da continuidade. Contudo, Bartomeu, que vai cumprir o limite de mandatos e portanto não se pode recandidatar, está a levar a cabo um golpe palaciano que pretende afastar boa parte dos homens que lhe foram próximos até há bem pouco tempo.

Bartomeu, agora de cara destapada

Bartomeu, agora de cara destapada

Urbanandsport/NurPhoto via Getty Images

O diário "As" fala de uma verdadeira "purga" em Can Barça, com Bartomeu a tentar deitar abaixo alguns elementos mais críticos da direção - ao presidente está vedado pelos estatutos expulsar membros do conselho diretivo, mas pode colocá-los em cargos mais simbólicos. Nos últimos dias, Bartomeu terá também pressionado alguns proscritos a apresentarem a demissão, saindo assim pelo próprio pé.

Além de Rousaud, que terá sido um dos membros da direção mais críticos depois de ser tornado público o escândalo dos perfis falsos, também Enrique Tombas, vice para a área económica, é um dos alvos de Bartomeu. De acordo com o "As", há mais dirigentes, fora da direção, a quem foi apontada a porta de saída.

Rousaud diz que não se demite

Em declarações ao catalão "Mundo Deportivo", Emili Rousaud assegurou que não tem qualquer intenção de se demitir do conselho diretivo e revelou que Josep Maria Bartomeu lhe ligou a dizer que não contava consigo.

"Ligou-me, disse-me que queria uma remodelação no conselho diretivo e que tinha problemas com alguns membros, entre eles eu. Disse-me que houve informações tornadas públicas que chatearam os jogadores e que eu colocava em causa o trabalho da direção", revelou, dizendo ainda que acredita que este afastamento está relacionado com as suas críticas à direção no caso dos perfis falsos.

"Levanto-me todos os dias com a consciência muito tranquila. Relaciono isto com as minhas críticas ao Barçagate", sublinhou. Rousaud acusou ainda Bartomeu de maus investimentos no que diz respeito a contratações e de o tentar enganar com os pagamentos à I3Ventures, a empresa contratada para criar os tais perfis falsos que teriam o objetivo de afastar críticos e tornar o poder de Bartomeu mais forte. A I3Ventures terá recebido 1 milhão de euros pelo serviço.

Emili Rousaud, o alegado traidor, é o primeiro a contar da esquerda nesta simpática foto de família

Emili Rousaud, o alegado traidor, é o primeiro a contar da esquerda nesta simpática foto de família

JOSEP LAGO

"Eu estou no comité de adjudicações, onde se aprovam faturas superiores a 200 mil euros. As faturas foram divididas para que não passassem no nosso comité", acusa, apontando também o dedo a Bartomeu por estar a levar a cabo o golpe em plena crise da covid-19: "Não fiz nada para merecer ser tratado assim. Quero refletir e pedir calma. É lícito que Bartomeu queira gente de confiança ao seu lado, mas não é a forma correta de o fazer, assim, em pleno confinamento. Segundo os estatutos, pode afastar-me - e vai fazê-lo -, deixarei de ser vice-presidente, passarei a ser vogal, mas não pode expulsar-me, porque fui eleito".

"Não tenho uma decisão tomada, mas neste momento não estou disposto a demitir-me. Não me parece que este seja o momento para o fazer, em pleno confinamento, em plena Semana Santa, para mim não são maneiras de o fazer", frisou ainda o vice, deixando claro que tudo vai mal no reino do Barça.