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Passarinhos a cantar, o dilúvio e os dois golos da equipa do filho do presidente (sim, isto é a crónica de um dérbi da liga do Tajiquistão)

Este domingo foi dia de dérbi em Dushanbe, capital do Tajiquistão, um dos poucos países em que ainda há futebol. O campeão em título, o Istiklol, bateu o CSKA por 2-0, num jogo com direito a hino do país, a tentativas de cantos olímpicos e a tentativas de saída de bola à Barcelona que correram mal

Lídia Paralta Gomes

D.R.

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Há uma cidade, lá longe, enclausurada num pais que é todo montanhas e onde o mar só existe a mais de três mil quilómetros, que viveu este domingo um dérbi. Dushanbe é a capital do Tajiquistão, uma das únicas nações do Mundo em que as bolas de futebol continuam a rolar nos estádios, estádios vazios, é certo, mas estádios de futebol onde acontecem campeonatos oficiais.

A minha avó materna, que mal conheci, tinha uma frase que ficou no nosso imaginário familiar e que repetimos amiúde, talvez para não nos esquecermos que tempos houve de muita míngua. Dizia ela então que "muito se poupa por não haver". E não se podendo gastar o que não existe, que era o que ela queria dizer, mais vale aproveitar bem o que temos. E o que temos, neste momento, é o futebol da Bielorrússia, da Nicarágua e do Tajiquistão, trio corajoso ou irresponsável, não sabemos ainda bem o que serão, mas também não é para essas análises que cá estamos.

Estamos aqui para falar de futebol. Mesmo que nunca em momento algum da minha vida tivesse pensado que iria escrever uma crónica de um Istiklol-CSKA Pamur Dushanbe, duas equipas da capital e duas equipas que, em diferentes momentos da história, marcaram ou marcam, o futebol tajique.

Pois bem, se o CSKA foi o primeiro campeão da liga do Tajiquistão, em 1992, depois do estilhaçar da União Soviética, o Istiklol é a grande força da atualidade. E como em boa parte das forças sejam elas sociais, económicas ou desportivas em países cujo presidente é o mesmo desde 1994 - neste caso, um tal de Emomali Rahmon -, o poder do Istiklol não se fez só de suor: a equipa foi fundada em 2007 por Rustam Emomali, filho do presidente, quando era apenas um rapazola de 20 anos. Rustam foi durante anos o avançado da equipa, até começar a fazer o percurso mais ou menos habitual de todos os filhos de estadistas, digamos, pouco democráticos. De avançado do Istiklol passou a presidente da federação de futebol do país, salto lógico, para depois ser o representante do Tajiquistão junto do Comité Olímpico Internacional. Agora, no alto dos seus experientes 32 anos, é presidente da Câmara de, precisamente, Dushambe. Nos entretantos, o Istiklol foi campeão nacional oito vezes e há surpreendentes relatos de que os árbitros do país são geralmente simpáticos com a equipa. Há duas semanas arrancou a época com uma vitória na Supertaça do país.

Mas vamos ao jogo, que começou a horas, aliás, começou até dois minutos antes das 14h - liga portuguesa, põe o olho nisto.

Para um campeonato tão obscuro, não se pode dizer que o Tajiquistão não se esforce. A entrada das equipas é ao jeito FIFA, com uma musiquinha genérica, como nos Europeus e Mundiais, equipas alinhadas, árbitro com a bola. Parte dos jogadores desata então a levar a mão direita ao coração e, claro, começa então o hino do Tajiquistão. Deixem que vos diga que o hino do Tajiquistão é tão longo que deu tempo para ir à cozinha, ligar a máquina do café, esperar que esta aquecesse e tirar um belo expresso.

O jogo em si começou logo com uma peripécia. Logo nos primeiros segundos, Dmitry Bondar, ucraniano do CSKA, demorou-se um bom pedaço até perceber que precisava de assistência médica. Entre a conversinha com o árbitro, a viagem do massagista lá do outro lado do campo e a assistência propriamente dita, já perdemos dois minutos. E ainda falam do VAR.

Esperei o pior, até porque tinha deitado um olho a um encontro da 1.ª jornada da liga e receei que apenas um café não fosse suficiente. Mas acabei surpreendida: a 1.ª metade do dérbi de Dushanbe, um de muitos porque boa parte das equipas do campeonato estão na capital, foi relativamente agradável - poderá ser da ressaca, é certo -, apesar do desconcertante chilrear de pássaros que durou todo o jogo, porque sem adeptos ouve-se tudo, do click do flash do fotógrafo, ao insulto do jogador ao rival.

(Neste particular, eu podia jurar que ouvi frases inteiras em português ao logo do jogo. Ouvi distintamente as expressões "passa a bola, c*****o", "aqui atrás" ou "vai buscar!". Há quem diga que o russo soa a português e eu posso confirmar que sim - a língua oficial do Tajiquistão é uma espécie de farsi, mas toda a gente fala russo)

Mas, como dizia, a 1.ª parte foi interessante e logo aos 2 minutos o Istiklol podia ter marcado. Cortesia de Manuchehr Jalilov, estrela da equipa, filho pródigo regressado ao seu Tajiquistão esta temporada depois de uma aventura por outro campeonato exótico, neste caso, o da Indonésia. Na sequência de uma boa jogada de entendimento pela esquerda, praticamente sempre ao primeiro toque, Jalilov rematou com perigo.

Estava dado o mote para o domínio total do Istiklol na 1.ª parte, 45 minutos com extremamente menos porrada do que a amostra que tinha visto da 1.ª jornada do campeonato. Do CSKA pouco se viu, a não ser um livre direto aos 12', uma bola que provavelmente só no Tajiquistão passaria aquela barreira, mas tudo bem, valeu o esforço.

Ainda não estávamos no minuto 20 quando apareceu o já mais que esperado golo do Istiklol, marcado por outro Jalilov, Alisher Jalilov (os Jalilov devem ser os Silvas lá do sítio, porque ainda havia mais um em campo e mais outro no banco do CSKA).

Após um cruzamento na direita, a bola é mal aliviada pela defesa e o número 10 do Istiklol, à entrada da área, aproveitou para a recarga, com um belo remate cruzado de pé esquerdo.

Estávamos a assistir ao melhor momento do jogo que encerrou a 2.ª jornada do campeonato do Tajiquistão, país que jura a pés juntos não ter qualquer caso de covid-19. Logo a seguir ao golo, o Istiklol teve mais uma flagrante oportunidade: um dos avançados da equipa surgiu isolado, mas um dos defesa do CSKA fez um dos cortes mais impressionantes que eu alguma vez vi, vigoroso, sem medos, a cortar pela raiz uma jogada de perigo iminente. Gostava de vos dizer quem foi o autor do desarme, mas a realização preferiu repetir o lance seguinte, que teve absolutamente perigo nenhum.

Adiante. Aos 32, o craque Manuchehr Jalilov esteve mais uma vez perto do golo, mas o guarda-redes do CSKA, Ponomarenko, saiu bem ao lance, numa altura em que já chovia copiosamente em Dushanbe, situação que não se alterou até final do encontro. Aos 37', mais um momento interessante, com duas tentativas seguidas de canto olímpico por parte do Istiklol. No primeiro Ponomarenko estava atento, no segundo a bola simplesmente foi aninhar-se por cima da rede da baliza do CSKA. Ainda antes do intervalo, mais uma oportunidade para os campeões em título, com um remate de Dzhuraev a mordiscar a barra.

Se estávamos com dúvidas sobre quem é o maior no Tajiquistão, esta 1.ª parte tirou-as todas.

No entanto, o CSKA respondeu bem no regresso dos balneários, talvez respondendo aquela arroganciazinha de quem sabe que é melhor e por isso já goza. E só assim posso entender aquela tentativa do Istiklol aos 50 minutos de sair de trás, à Barcelona, que acabou, naturalmente, com a bola a fugir pela linha lateral. Contudo, faltou sempre ao CSKA o jeito. Confesso que perdi a conta aos remates que saíram por cima (mas muito por cima) da baliza do Istiklol.

E vendo o tempo a passar e as pernas a pesar naquele sintético alagado tal era o dilúvio, foi aumentando o nível de porrada. Os últimos minutos seriam inglórios para a equipa do exército. Há coisas universais no futebol, seja na Premier League ou na liga do Tajiquistão: uma equipa mais fraca pode bater o pé a uma mais forte, mas tem de saber aproveitar o momentum. O CSKA não conseguiu empatar e aos 86' o Istiklol fechou as contas com um bom golo do suplente Boboev: desmarcação impecável, passe no momento certo e remate forte a fazer explodir todas as gotinhas de água que se haviam acumulado naquelas redes ao longo do jogo.

E assim se fez a história do dérbi: vitória do Istiklol por 2-0 e regresso à liderança do campeonato, agora partilhado com o Khatlon.