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Barcelona: um presidente duvidoso, uma estrela enraivecida e um treinador que sonha “passear a taça da Champions no meio de vacas”

Dirigentes demissionários, um presidente que alegadamente espia jogadores e põe a comunicação social contra o plantel, uma estrela (Messi) farta de politiquices, um treinador que projeta fantasias - e um clube que é bicampeão e lidera a suspensa La Liga. Um ambiente saudável no trabalho é um fator francamente sobrevalorizado quando se luta por títulos

Pedro Candeias

Eric Alonso/MB Media

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Quique Setién foi uma escolha sensual e não consensual no Barcelona. O treinador representava uma espécie de regresso ao ideário catalão - o jogo de passe e de posse, o espírito ofensivo inegociável - e assim o venderam os dirigentes blaugrana quando o apresentaram. Só que Quique Setién era o técnico preferido de ninguém: por esta ordem e por diferentes razões, Xavi Hernández, Ronald Koeman e Maurizio Pochettino rejeitaram o cargo.

Ora, diz-nos a intuição que quando alguém recusa treinar o Barcelona, o problema pode estar no treinador, mas que quando três treinadores recusam o Barcelona, é provável que o problema esteja no clube. E quando um presidente de um clube jura ter seguido e negociado durante dias com o novo treinador, que afinal era o quarto de uma lista não se sabe de quantos nomes, e o novo treinador ingenuamente responde aos jornalistas “ter recebido um telefonema no dia anterior”, há definitivamente um problema no clube.

Um problema descomunal e agora indisfarçável de fricção entre jogadores contra uma direção que os terá mandado espiar através de uma empresa à qual também foi confiada a missão de enobrecer os méritos do presidente Bartomeu nas redes sociais. O #BarçaGate, assim se chamou ao caso, revelou que muita coisa estava mal e que debaixo da relva onde jogava Lionel Messi se congeminavam ideias estranhas e paranóicas.

Depois, a questão da redução salarial, em que Messi sugeriu que Bartomeu mandava recados ao plantel pela comunicação social seguidista, foi a prova final de que afinal um ambiente de trabalho saudável, urbano e civilizado é francamente sobrevalorizado quando se luta por títulos. Porque o Barcelona foi campeão em 2017-18 e em 2018-19 e, convém recordar, lidera a liga espanhola, que se encontra suspensa, com dois pontos de vantagem sobre o Real Madrid.

Quique Setién diz mais ou menos o mesmo. “O ideal é trabalhar num ambiente positivo, mas não acredito que estas coisas possam influenciar Messi. Estamos seguros de que ele vai acabar a carreira no Camp Nou”, prevê o treinador do Barcelona, numa entrevista à TV3 a ser difundida esta quarta-feira - os jornais espanhóis anteciparam conteúdos.

Em Itália, escreve-se que a velha história que liga Messi ao Inter de Milão é uma possibilidade alimentada pela fratura catalã. Rakitic avisou que não quer “ser tratado como um saco de batatas”. O político Piquè nunca desistirá do sonho de ser presidente do Barça. Suárez está intermitentemente apto.

No geral, estão todos a envelhecer, o que convida a mexidas geracionais, mas Setién, como otimista que é – e diplomata que forçosamente terá de ser num ecossistema assim – não quer roturas ou beliscões. “Não sou partidário de uma revolução. É certo que será preciso incorporar jogadores, mas não é porque eles estejam cansados ou esgotados. O que é que queremos? Cantera ou seguir em frente?”.

Aparentemente, é para “seguir em frente”, porque Setién manifesta “pressa" e “não tem tempo a perder” com questiúnculas do fígado. “Já disse aos jogadores que gostaria de ganhar a Champions e a Liga. Se puderem ser as duas, melhor”, assume o treinador na entrevista à TV3. Há, porém, um obstáculo difícil de contornar pela frente: a covid-19 que suspendeu a Champions como a La Liga. “Eu gostaria de jogar e ser campeão a jogar; isso é óbvio. Se o campeonato terminar como está, não me vou sentir campeão. Quero que isto se solucione o mais rapidamente possível para nos abraçarmos com os velhos.”

O sonho “de passear-se por Liencres”, na sua Cantábria natal, alheado do pesadelo do dirigismo, “no meio das vacas, a mostrar a taça da Champions” ao povo pode esperar.