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O anátema Özil: ganha muito, rende pouco, não aceita um corte no salário no Arsenal

Na Premier League, o tema dos cortes salariais é particularmente delicado, porque toda a gente sabe que em lado algum se ganha tanto como lá, na mais rica e popular das ligas de futebol. O caso Özil é paradigmático: devia ou não ter aceitado uma redução?

Pedro Candeias

Catherine Ivill

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Em Inglaterra, o tema da redução salarial nos futebolistas profissionais é particularmente delicado, provavelmente mais ainda do que em outros países, porque em nenhum outro lugar se ganha tanto e se paga tanto: em média, um jogador da Premier League recebe €3,5 milhões por ano; também por ano, mas no total, a Premier League recebe €3,5 mil milhões de euros em direitos televisivos a distribuir pelos clubes.

Isto significa que a Premier League é a mais rica e a mais popular de todas as ligas de futebol mundiais – e, por isso, um alvo para todos aqueles que acham que esta devia dar o exemplo, em tempo de pandemia e de contração.

Já houve casos caricatos, de reviravoltas claramente provocadas por críticas na opinião pública, como no Tottenham e no Liverpool, que anunciaram lay-off para os trabalhadores e a seguir voltaram atrás nas decisões. E recentemente houve um caso estranho, quando o Arsenal comunicou uma redução de 12,5% nos salários do staff e do plantel da qual três jogadores ficaram de fora – um deles, soube-se depois, era Mesut Özil, o que mais recebe do clube londrino, cerca de €1,6 milhões por mês.

Consequência imediata, Gary Neville e Jamie Carragher, antigos jogadores e agora comentadores, censuraram o alemão em direto, embora não se tenha percebido muito bem se não estavam a misturar dos conceitos para chegarem à conclusão de que Özil é mal agradecido: o muito dinheiro que subjetivamente ele ganha e o pouco rendimento desportivo que objetivamente ele tem.

Seja como for, está criado o anátema: Özil, o indecifrável talento turco de nacionalidade alemã que ganha milhões e não está disponível para baixar o salário.

Em sua defesa, e antes de alguém no Arsenal o denunciar, o agente Erkut Sogut argumentara nos inícios de abril que o seu agenciado aceitaria cortes apenas e só se forssem provadas as quebras nas receitas no clube. “Daqui a três ou seis meses”, avaliou Sogut.

Roy Keane, o lendário rebelde do Manchester United, também o defendeu publicamente. “Sinceramente, não sei o que faria se estivesse numa situação assim. Mas eu não aceitaria uma redução se não estivesse num grande clube. Ninguém tem nada a ver com o que tu fazes com o teu dinheiro. E os jogadores têm um contrato assinado”.

Em entrevista à Sky Sports, Kean prosseguiu com a sua análise, criticando quem critica Özil, porque esta é uma escolha individual, não é um assunto que diga respeito a todos e cada um tem o direito de fazer as suas opções. E virou o jogo: “Os donos dos clubes são multimilionários e são implacáveis. Eles serão os primeiros a dizer aos jogadores que é apenas negócio, apenas a forma como as coisas se fazem. Mas não lhes liguem”. Claro está que Roy Keane “lutaria” contra eles para garantir que ninguém mexia no salário do seu plantel.