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Borussia - Schalke 04: no dérbi do aço e do carvão, houve protocolo, silêncio e depois ecos. E dois golos de um português

Este era o futebol que toda a gente queria ver: o clássico do Vale do Ruhr marcava o recomeço da Bundesliga, o primeiro campeonato de elite a voltar à atividade após a suspensão. Embora estranho, revelou-se um bom jogo, apesar das extraordinárias restrições que tornaram a celebração do golo num hesitante exercício de distanciamento social. O Borussia festejou quatro vezes, com um dos golos a ser marcado pelo inevitável Haaland; houve um bis de Raphaël Guerreiro e outro do irmão muitas vezes esquecido de Hazard

Pedro Candeias

Raphaël Guerreiro celebra o golo marcado. Não houve abraços nem apertos, como a imagem pode erradamente sugerir

Alexandre Simoes

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Venderam-nos a narrativa:
O futebol iria recomeçar na eletrizante Bundesliga, que se joga na Alemanha, o lugar adequado para a retoma über condicionada, cheia de regras e protocolos a respeitar escrupulosamente por todos, que serviria então como um teste de algodão às outras ligas que preparam timidamente o regresso. Caramba, se os alemães, que proibiram o treinador do Augsburgo de ir para o banco depois de uma saída higiénica para comprar a pasta de dentes, não fossem cumpridores, ninguém seria.

Além disso, a narrativa também nos dizia que vinha aí o clássico do Vale do Ruhr, o Borussia de Dortmund - Schalke 04, o quase dérbi do Stahl e do Kohle – do aço e do carvão –, sempre intenso, disputado, ainda que agora forçosamente menos barulhento e ruidoso.

A narrativa era omissa a propósito do som.

Mas quando o cavalheiresco Hummels subiu ao terreno para se assoar à Paulo Futre [um dedo tapa uma narina enquanto a outra é destapada numa expiração vigorosa; a variante do polegar e do indicador na cana do nariz também é popular], chegámos a acreditar numa certa normalidade. Só que depois veio o silêncio e vieram as máscaras e também as gentes distanciadas nos bancos de suplentes; e a seguir o silvo do apito e os berros em alemão e o impacto uma bola batida – e as respostas chegaram em ecos.

À falta de imagem melhor, o arranque do Borussia - Schalke 04 transportou-nos para um jogo de futebol de sete num pavilhão no Portugal mais ou menos profundo, onde pouca gente assiste e as reverberações do que é gritado lá dentro são os únicos ruídos a preencher o vazio. Naturalmente que as pernas perras e o físico de alguns jogadores, menos angulares e mais redondos do que o costume, ajudaram a esta impressão inicial.

Mas, pronto, era futebol e mesmo um futebol assim é sempre melhor que futebol nenhum.

Ultrapassada a desconfiança, o Borussia - Schalke 04 revelou-se um bom jogo, apesar das extraordinárias restrições que tornaram a celebração do golo num hesitante exercício de distanciamento social. Quando o inevitável Haaland fez o seu 10.º golo em nove jogos pelo Borussia esta época, os jogadores mantiveram-se sanitariamente longe uns dos outros, uma coreografia desajeitada que ensaiariam três vezes mais, com mãos recolhidas e toques de cotovelo, quando Raphaël Guerreiro (bis) e o irmão muitas vezes esquecido de Hazard construíram o resultado robusto: 4-0, Schalke 04, a piada não é minha, mas de Podolski

Para sermos justos, o Schalke nunca pareceu ter hipóteses perante o Borussia de Lucien Favre, uma máquina frenética de contra-ataques violentos que apanhou despercebidos os defesas contrários vezes de mais.O Borussia, a equipa mais equipada para tentar contrariar o domínio - este, sim - hegemónico do Bayern de Munique, foi sempre melhor do que o adversário, permitindo-lhe poucas oportunidades, ainda que, no final, o número de remates à baliza tenha sido sensivelmente o mesmo nos dois lados. Claro que ter Haaland e Brandt (e um Raphaël saudável) contribuíram para a causa, mas é inegável concluir que a paragem de quase dois meses fez menos mossa a uns do que a outros.

Agora, é perceber como corre isto daqui para a frente e tentar ter algum humor neste novo mundo distópico. Os jogadores do Dortmund, que bateram palmas para espetadores imaginários na bancada entre sorrisos no final do dérbi, fizeram a sua parte possível para tentar normalizar esta anormalidade.