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O corpo disse-lhe basta e Aduriz deixou o futebol antes de o futebol o abandonar a ele

Aos 39 anos, o último jogo do avançado do Athletic Bilbao já não será a final basca da Taça de Espanha, contra a Real Sociedad. Os médicos recomendaram a Aritz Aduriz uma cirurgia "para ontem" de modo a colocar uma prótese na anca e "tentar enfrentar com a maior normalidade possível a vida diária". Foi por duas vezes o melhor marcador da Liga Europa e retira-se como o sexto com mais golos na história do Athletic

Diogo Pombo

Juan Manuel Serrano Arce/Getty

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É coisa escrita e contada, lida e ouvida, que em Bilbao há gente listada de vermelho e branco que joga futebol na terra e pela terra basca. No Athletic só pode jogar quem é basco ou descender de bascos e tem um tipo de sangue específico na veia, que há mais de 100 anos é bombeado pelos corações de quem já lá jogou e nunca deixou que o clube descesse de divisão.

Esta época, a final da Taça de Espanha, que lá se chama Copa del Rey, será ou seria jogada, ainda não sabemos bem, entre o Athletic de Bilbao que só joga com bascos e a Real Sociedad que já não o faz, mas é um clube basco, de San Sebastián, onde Aritz Aduriz nasceu há 39 anos e sempre continuou a jogar futebol até esta terça-feira. Mas era suposto que continuasse até ao dia da final.

Ele não o sabia, mas, na época passada, quando anunciou que esta seria a sua última, talvez não imaginasse que a despedida pudesse ser uma tomada basca da decisão do troféu cujo nome é dedicado ao rei de Espanha. Esta era a 12.ª temporada não consecutiva de Aduriz no Athletic, onde regressou em 2012 (depois de dois anos no Valência e dois anos no Maiorca), tinha 32 anos, era já uma presumível decadência de avançado a voltar ao clube que gosta e apoia.

Mas, em oito anos, marcou 149 golos para ficar com 172 e ser o sexto melhor goleador da história do Athletic. Foi por duas vezes o melhor marcador da Liga Europa (31 golos em 47 jogos). Era o sardento avançado que, simplesmente, arranjava forma de rematar bolas para dentro da baliza, por mais visíveis que se tornassem a idade e os cabelos brancos no corpo desgastado, cada vez mais importunado na anca.

Na época passada já só apareceram seis golos, nesta apenas um, à primeira jornada da liga espanhola e ainda em agosto de 2019, diria ele e ninguém que seria o derradeiro, mas não haverá outra pessoa que possa dizer que o último golo que deixou no futebol foi assim - com um pontapé de bicicleta, contra o Barcelona, perante a multidão do estádio San Mamés. Um futebolisticamente idoso a fintar o tempo com uma acrobacia.

Em fevereiro, quando voltou após quase quatro meses a curar o quadril e ouviu aplausos do público ao aquecer os músculos, contra o Getafe, já aceitara a cadente condição que o corpo lhe impusera. "Não é fácil saberes que tens uma lesão que não se vai curar porque a vou levar comigo depois do futebol. Tenho isso assumido", diria, no final. Esta quarta-feira, disse que os médicos lhe sugeriram operar-se "ontem" para colocar uma prótese na anca e "tentar enfrentar com a maior normalidade possível a vida diária".

Aduriz sentira-se sortudo por ser ele a decidir quando deixar o futebol. A maioria de todos os que jogam são desafortunados a quem o futebol abandona quando ainda têm as chuteiras nos pés, disse, mais do que uma vez.

Ele sai por decisão própria, como iria sair, mesmo que obrigado pelo corpo que lhe "disse basta". Porque em 39 anos o futebol nunca pareceu tê-lo abandonado.