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Que saudades de uma cotovelada em cheio no aborrecimento

Uma chapelada de Kimmich, tão grandiosa quanto triste por haver ninguém no estádio para a testemunhar, decidiu o primeiro clássico dos grandes jogado no futebol europeu em tempos pandémicos. O Bayern de Munique ganhou (1-0) ao Borussia Dortmund, ficou com sete pontos a mais na frente da Bundesliga e está embalado para um oitavo título seguido

Diogo Pombo

Federico Gambarini / POOL

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À meia hora, a bola é atrasada no campo do Dortmund, a equipa quer-lhe num refúgio longe de outros problemas e rasteira vai ela até Bürki, o guarda-redes que vai ser pressionado, Lewandowski corre para lhe emagrecer o tempo, mas há um segundo em que a transmissão urge que olhemos para este momento aparentemente banal, um pré-chutão dali para longe, de trás da baliza.

Quando Bürki bate na bola vemos o ângulo da desolação, uma arena cheia de nada e vazia de gente, ninguém para testemunhar o primeiro dos clássicos pandémicos na Europa, é apenas um guarda-redes a chutar com 21 jogadores à frente, o som do pé na bola a ecoar num estádio que soa a desperdício de betão por não poder ter os milhares que é suposto lá estarem a ver o que, de facto, é um bom jogo de futebol.

E ninguém lá está, deveria ser crime, para dizer que estava lá quando Joshua Kimmich, um tipo que, dentro de campo e entre o que sabe fazer, parece ser mais fraco em nada e acerta 49 passes até ao intervalo, recolhe a bola à entrada da área do Dortmund e cheio de visão, postura, técnica e habilidade, pica um chapéu à baliza que não é um remate, deveria ser um passe, o 50.º, pelo quão dócil é a passar sobre Bürki durante o silêncio que paira no estádio.

É uma obra que prima pela genialidade de, sequer, um jogador lembrar-se de tentar uma coisa destas, quanto mais com dois meses em cima sem treino, sem bola e sem futebol, ele e todos apenas regressados há duas semanas, a darem um espetáculo que se temia poder ser de pré-época, mas tem mais de temporada normal, como se nada de virulento tivesse acontecido.

O Dortmund joga com os seus próximos, quer e faz mais passes curtos por metro quadrado e segundo, tem Haaland a galopar pelas costas fora dos centrais, quão veloz pode ser um avançado tão alto e desengonçado de aparência?, a primeira resposta é que é, e muito, quando Brandt, logo na jogada inaugural, lança um passe na profundidade e o norueguês finta Neuer, mas não Boateng, que está na linha de baliza a cortar o remate.

Não entendo o alemão nos gritos, muito se berra e o silêncio torna percetível cada manifestação. Mas, durante uns 30 minutos, mais me parecem gritar os jogadores do Bayern, que muito se têm de virar para lidar com os passes que entram em Brandt, o loiro que pisa a relva nas costas dos médios com pés ligeiros que muito fazem a bola atrai-los de um lado e depois ser rodada para o outro, já na metade do campo.

Não se vira muitas vezes com ela, não acerta muitos dos passes na profundidade que tenta, é ele, porém, quem liga o trabalho a aguentar a pressão de Delaney e as rabias que Guerreiro e Hakimi promovem nas alas. É ele quem direciona as posses para Haaland, quem faz por a equipa usar a excelente aberração que tem na área. Mas, no descanso, ele e Delaney ficam no balneário.

E o Bayern não assim tão inferior, embora lento e com a defesa a reagir tarde ao interesse adversário pela profundidade - valia-lhes Alphonso Davies a compensar o critério de jogador verde com o velocista adormecido que tem no corpo -, sem teias de passe tricotadas e obrigado a procurar cedo Lewandowski ou Müller, melhorou com o auto-pioramento do adversário.

Alexandre Simoes

O brutal mas nunca espampanante Kimmich e o tanque musculado de Goretzka que não o aparenta, mas também toca na bola com algodão, impõem-se em tudo no centro do jogo. A linha de quatro atrás é brava a encurtar até à linha do meio o campo jogável para o Dortmund e já reagem cedo às bolas que lhes podem entrar nas costas. O Dortmund murcha e o Bayern assume-se. Os amarelos abrandam tudo o que fazem e os de vermelho aceleram quando querem.

Porque podem.

Vão parecendo melhores no físico, que não é tudo mas importa, por afinado aos tropeções ter sido, na medida do possível que cada jogador trouxe da quarentena, ou uns quilos a mais no caso de Jadon Sancho, o talentoso extremo inglês que o treinador abdicou de Brandt para ter e de quem não teve retorno. O frenético que havia nele ficou no tempo antes de o vírus infetar tudo e, talvez, ter alguma coisa a ver com a lesão muscular que tira Haaland do jogo, aos 72’.

Antes, aos 58’, ainda rematou contra o caído corpo de Boateng, estendido na relva pela sua receção de bola, raspada no braço que lhe ampara a queda e o árbitro, compreensível, não vê, nem o VAR, estranhável, não manda rever. É a mais perigosa das tentativas que um Dortmund cadente no tempo vai afastando da baliza. A que vemos aos 81’ de Dahoud, o meio campista de calções arregaçados, como se isto fosse uma pré-época num país demasiado acalorado, só parece mais inofensiva do que é porque Neuer soca a bola violentamente para longe.

Bem mais resfriador da espinha é o remate que Lewandowski faz contra um poste, perto do fim, já Bürki fechara os olhos quando a bola lhe escapou, sinal não feito em golo de que o Bayern acabou sendo superior após começar tão espantado pela inferioridade que o Dortmund lhe impôs, mas não materializou, como mostram os agora sete pontos do embalo bávaro em direção ao oitavo título seguido.

E mostraram as cotoveladas em série, zero agressivas como a conotação usual lhes dá ao nome, sim com muito de inofensivo, carinhoso e obrigatório, porque foi com toques de cotovelo que Rummennigge, o presidente mascarado, celebrou com os poucos comparsas que tinha à volta na bancada.

São os gestos possíveis de festejo, os que jogadores e árbitros tocaram, também, no túnel antes do jogo, onde ainda não há distrações que os desconcentrem no exemplo de barro que devem dar e desaba em campo, onde a bola os distrai e há contacto, palmadas, corpos a chocarem, onde houve o futebol possível que já nos conseguiu distrair com o primeiro clássico europeu desta pandemia.