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Marcus Thuram marcou um golo porque consegue respirar e ajoelhou-se por quem deixou de conseguir

George Floyd morreu a 25 de maio, há protestos em dezenas de cidades nos EUA contra o racismo e violência policial contra negros e, este domingo, Marcus Thuram, avançado do Borussia Mönchengladbach, levou um joelho ao chão após marcar um golo, tal como Colin Kaepernick se ajoelhou em 2016, para prestar um tributo e protestar contra o mesmo que por estes dias tem enchido as ruas americanas de manifestantes

Diogo Pombo

MARTIN MEISSNER/Getty

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Marcus Thuram é negro.

A cor de pele de Marcus importa o mesmo que os olhos verdes de alguém, o cabelo louro de outrem ou o nariz comprido de fulano, que é nada. Ou deveria ser nada, mas não é nada porque de muito em vez, e não de vez em quando, nem nunca, como realmente deveria ser, a cor de pele parece ser a única justificação para se ouvirem injustificáveis sons de macaco nos estádios ou verem cascas de banana serem atiradas para os relvados.

Haver racismo no futebol é sintoma de existir racismo na sociedade. Ninguém deixa de ser quem é por assistir ou ir ao estádio ver tipos aos pontapés à bola. O que são vai com eles para todo o lado e, por querer ser alguém que se opõe ao racismo, à violência policial, injustiça racial e opressão na sociedade norte-americana, Colin Kaepernick ajoelhou-se durante o hino nacional dos EUA, antes de um jogo de futebol americano, quando é suposto o respeito manter gente de pé.

O seu joelho no chão simbolizou-se, virou sinónimo das causas que o baixaram, passou a ser um gesto reconhecível da luta contra a discriminação racial na terra dos livres e dos bravos onde, na segunda-feira, o joelho de Derek Chauvin, um agente da polícia, carregou sobre o pescoço de George Floyd e lhe asfixiou a vida durante oito minutos. Um joelho filmado a perpetrar tudo aquilo que o joelho de Kaepernick se baixou para combater.

Longe de Minneapolis, no estado de Minnesota, onde a morte aconteceu, ou de Nova Iorque, Miami, Chicago, Filadélfia, Nashville, Los Angeles, Charlotte ou Seattle, algumas das muitas cidades onde cidadãos americanos protestam há cinco dias nas ruas contra o implicado pelo joelho de Chauvin e pelo simbolizado pelo joelho de Kaerpernick, um jogador trouxe as causas deste último para o futebol.

Em Mönchengladbach, ao 41.º minuto do que seria a vitória (4-1) do Borussia contra o União de Berlim, o avançado Marcus Thuram marcou um golo e assim que o festejo com os companheiros foi cumprido, ele ajoelhou-se, assim ficou por uns três segundos, estático, imóvel e com a cabeça em baixo.

Marcus é negro, como o era George Floyd e o é Lilian Thuram, pai do avançado francês e no seu tempo também jogador, que após ganhar um Mundial, um Europeu e ser quem mais vezes jogou pela França, se tornou um embaixador da UNICEF e das vozes mais faladoras contra o racismo e pelo que é necessário fazer para o tentar erradicar da sociedade.

Existindo racismo, disse Lilian Thuram há tempos, à revista "Libero", significa que "as pessoas sabem muito bem que algumas pessoas são maltratadas, mas agem como se isso não existisse". Os últimos cinco dias nos EUA revelam que há muitas pessoas para quem o "não consigo respirar" na súplica filmada de George Floyd pode ter sido um sinal para que agissem.

Na Alemanha, a meio de um jogo da Bundesliga, o seu filho agiu, talvez para fazer algo em relação ao que o pai lamentou: "O mundo é um lugar perigoso para viver, não tanto por causa dos que fazem o mal, mas devido aqueles que observam e deixam que aconteça".

[mais tarde, também na Alemanha, Jadon Sancho e Achraf Hakimi marcaram pelo Borussia Dortmund, tiraram a camisola e mostraram uma mensagem: "Justiça para George Floyd.]