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Ele foi para o treino com as unhas pintadas de preto. Ele não quer saber do vosso racismo para nada. Nem da vossa homofobia

Ele é Borja Iglesias, jogador do Bétis de Sevilha que começou a ser gozado no Twitter por ter ido treinar com as unhas pintadas de preto. A resposta foi mais elegante do que uma boa manicure: "Eu explico, não há problema. É uma forma de me consciencializar e de lutar contra o racismo, mas acho que também calha bem contra a homofobia. E também tenho de admitir que gosto de vê-las assim"

Mariana Cabral

Borja Iglesias, ao centro, com as unhas pintadas de preto, num treino do Bétis

Bétis

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Tudo começou com uma fotografia, aparentemente inofensiva, igual a tantas outras imagens de futebolistas no treino, apontando para coisas, sorrindo, olhando para a bola, com os colegas à volta e a relva como pano de fundo.

Até que alguém aumentou a imagem e viu um pormenor pouco comum, pelo menos em relvados de futebol: um jogador com as unhas pintadas. O novo, sendo raro, nunca é facilmente entranhável e foi assim que houve quem começasse a gozar com Borja Iglesias, no Twitter - com muitas das mensagens, em tom homofóbico, a terem sido entretanto apagadas, como a que motivou a primeira resposta do jogador do Bétis de Sevilha.

"Eu explico, não há problema. É uma forma de me consciencializar e de lutar contra o racismo, mas acho que também calha bem contra a homofobia. E também tenho de admitir que gosto de vê-las assim", escreveu o avançado de 27 anos, com a naturalidade de quem empurrava uma bola para o fundo de uma baliza.

As unhas pretas de Borja Iglesias foram uma mensagem subtil a propósito do movimento #BlackLivesMatter, que o jogador também já tinha apoiado nas redes sociais, e que contornam de forma hábil o que hoje em dia parece uma absurdidade: os jogadores de futebol não podem ter opiniões políticas e sociais, pelo menos durante os jogos.

De acordo com as leis do futebol, não podem existir "slogans políticos, religiosos ou pessoais", ainda que a FIFA tenha, cautelosamente, dito entretanto que as demonstrações antirracistas "devem ser aplaudidas e não punidas", já que a Bundesliga poderia ter castigado os jogadores que pediram "justiça para George Floyd", o cidadão afro-americano que morreu asfixiado por um polícia.

"Temos de fazer algo porque não podemos deixar que isto tenha lugar", começou por dizer Joshua Kimmich, jogador do Bayern de Munique, à AP, expressando-se contra o racismo. "Nós, futebolistas, temos muito poder, porque podemos chegar às pessoas, podemos ser exemplos e dizer alguma coisa".

Foi, então, isso que decidiu fazer um jogador que nasceu em Santiago de Compostela, em 1993, e que subiu na carreira a muito custo, só se afirmando verdadeiramente no futebol espanhol em 2017/18, quando marcou 23 golos em 43 jogos pelo Saragoça. Dali, Borja Iglesias, que foi formado no Valência, passou para o Espanhol, e foram os 20 golos em 2018/19 que fizeram com que o Bétis batesse, já esta época, a sua cláusula de rescisão, fixada nos €28 milhões.

Para já, ainda só conta com três golos marcados pelo clube de Sevilha, mas isso não impede que o Bétis o valorize pelo "golo" marcado no Twitter: "Hoje e sempre dizemos 'não' ao racismo e 'não' à homofobia. 'Não' a qualquer tipo de ódio. A luta contra este flagelo pode ser expressada de muitas maneiras. O importante é que ela seja visível. És top, Borja Iglesias".