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De mestre a ajudante do aprendiz: o novo adjunto de Guardiola é um treinador que ele admira

Um dia, bateu-lhe à porta do gabinete para se apresentar após jogar contra uma equipa treinada por ele e fez questão de terminar a carreira num lugar violento e desaconselhável no México, para ser treinado por ele. Pep terá escolhido o espanhol Juan Manuel Lillo para ser o seu próximo adjunto no Manchester City, após as saídas de Domenec Torrent (New York City) e Mikel Arteta (Arsenal). Este é um resumo da história que os liga

Diogo Pombo

A última experiência de Juan Manuel Lillo como treinador-adjunto foi em 2016/17 com Jorge Sampaoli, no Sevilha

Aitor Alcalde Colomer/Getty

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Algures em 1996, calhou ao Barcelona ir jogar contra o Real Oviedo para a liga espanhola, no que se esperaria ser mais um trivial choque entre gigante e modesto. Terminada a partida, e é irrelevante o resultado, Juan Manuel Lillo, o treinador da equipa do noroeste de Espanha, estava a matutar os acontecimentos no seu gabinete quando ouviu alguém a bater à porta. Pode entrar, e entrou um dos seus adjuntos, que disse: "O Pep gostaria de se apresentar".

Lillo saiu para o encontrar à porta, ainda estava suado, botas pretas calçadas, nem ao próprio balneário tinha ido. Saudou-o e ouviu elogios, confissões do quão "surpreendido" estava com o Oviedo e de "como tinham jogado" contra a Barcelona. Lillo era, e ainda é, o mais jovem de sempre a treinar na primeira divisão espanhola. Tinha 29 anos quando promoveu o Salamanca.

Guardiola era um dos capitães do Barcelona, jogador-pensador da equipa adversária; o técnico foi incapaz de lhe recusar a passagem. "Se poderia vê-lo? Como poderia dizer que não a um jogador de quem gostava tanto?", confessou Lillo, quando rebobinou a memória ao "New York Times" e recordou a ocasião em que Pep baixou as defesas e lhe admitiu que "gostava" da sua "forma de jogar". Falaram bastante, trocaram ideias e "a partir daí mantiveram o contacto".

O espanhol jogador já tinha a cabeça posta em ser treinador porque a cabeça já treinava e pensava em coisas que as demais não se preocupavam. Já tinha insistido com o diletante Romário para mudar a sua forma de receber a bola, explicando-o como deveria enquadrar o corpo para poupar segundos na relação com o espaço.

O lado mais didático de Guardiola saiu ainda mais cá para fora quando iniciou a sua romaria pós-Barcelona, indo para Itália (Roma e Brescia) ouvir de Fabio Capello e Carlo Mazzone, passando pelo Qatar para fortalecer a carteira, passar os dias a jogar golfe e ser "o melhor adjunto" de Augusto Inácio, que o treinou no Al Ahli e o viu a ensinar os colegas e a explicar-lhes como "o futebol era bonito no passe", antes de levar o tour de fim de carreira à última paragem.

Pep acabou no Dorados do México, em Cuyacán, terra pragada pelo cartel de Sinaloa e cheia de violência, crime e insegurança provocados pelo tráfico de droga que não recomendava o lugar a pessoas vindas de fora. Mas lá estava Juan Manuel Lillo a treinar. E era a última oportunidade de Guardiola ser treinado por ele, mesmo que a amizade além-futebol já lhes juntasse as famílias à volta da mesa e os unisse em tempos livres.

O catalão aceitou passar os últimos cinco meses da carreira, em 2006, no México, com o treinador basco.

Entre as muitas pequenas lesões, os poucos jogos e os raros minutos em campo para Guardiola, contam-se histórias de como ele anotava num bloco de notas os exercícios aplicados nos treinos, sobretudo os que punham os jogadores a pensarem em como sair a jogar de trás e da pressão adversária. De como teve outro bom embirranço com Sebastián Abreu, teimando em ensinar-lhe as melhores posturas de corpo para receber a bola orientada: "Se fiz um jogador como o Romário fazê-lo, também o farei contigo".

Pep Guardiola, na época de estreia (2009/10) na primeira divisão, com o Barcelona

Pep Guardiola, na época de estreia (2009/10) na primeira divisão, com o Barcelona

Jasper Juinen/Getty

E de como, após os treinos, Pep e Juanma, alcunha que lhe encurta os dois primeiros nomes, iam para o hotel e perdiam a conta às horas de conversa batida sobre bola. "Já sabia que ia dar um grande treinador muito antes de o conhecer. E quando começou a falar, nem te conto", disse Lillo, à revista "El Gráfico", especificando um dos rasgos que descortinou desde cedo na cabeça careca que treinou: "Todos os jogadores foram jogadores e logo fazem-se treinadores. Ele não, ele jogou à espera de ser treinador".

Foi para um clube que lhes dava um parque aquático como sítio para treinar, um gazebo sem paredes para se equiparem, nem chuveiros para se lavarem, a receber, "de longe, o salário mais baixo" que alguma vez lhe pagaram, garantiu Juan Antonio García, o então presidente do Dorados, ao "The Guardian". Era lá que trabalhava Juan Manuel Lillo, era com ele que Pep finalizar o fim da carreira de jogador e começar de vez o início da sua história de treinador.

Guardiola descalçaria as chuteiras por lá e das conversas cheias com Lillo partiu para aprender com Ricardo La Volpe, argentino que treinou durante muitos anos no México e de quem aprendeu a diferença entre começar a jogar e sair a jogar, com "jogadores e bola a avançarem juntos, ao mesmo tempo", porque se "um o faz sozinho, não há prémio", como chegou a escrever.

Também iria à Argentina para privar com Marcelo Bielsa, outra das maiores referências que sempre confessou ter, a par de Arsène Wenger e do treinador basco que, com 54 anos, parece estar prestes a tornar-se no novo adjunto de Pep Guardiola no Manchester City, segundo a imprensa espanhola.

Depois de lhe bater a porta do gabinete, de ser treinado por ele, de o derrotar largamente por 8-0, em 2010 - e, em parte, provocar o seu despedimento do Almería, horas depois -, de perder, primeiro, Domènec Torrent (New York City) e depois Mikel Arteta (Arsenal), Guardiola terá a inspiração em forma de amigo, a ajudá-lo do banco e nos treinos. Uma espécie de pai futebolístico, ou algo parecido. "De paternidade biológica, nada, de paternidade carinhosa, sim. É o meu filho, um irmão mais novo, um amigo", admitiu Lillo.

Ele é o treinador que já barafustou com jornalistas por se refugiarem em clichés e lugares-comuns futebolísticos. Foi o homem prometido por Guardiola para treinar o Barcelona, em 2003, quando Pep era o futuro e hipotético diretor desportivo na lista de um candidato à presidência do clube. É quem, no início dos anos 90, se atribui a criação do sistema 4-2-3-1, quando treinava o Cultura Leonesa. Agora, estava a treinar o estava a treinar o Qingdao Huanghai, da China.

Juan Manuel Lillo é um dos mestres do aprendiz de quem parece estar prestes a ser adjunto. A ser ajudante do mestre que ajudou a criar.