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Saarbrücken: vocês não têm hipótese de ganhar, mas sabem como usá-la

O primeiro jogo do Saarbrücken em três meses será a meia-final da Taça da Alemanha desta terça-feira (19h45, Sport TV2), contra o Bayer Leverkusen, que está três divisões acima da modesta equipa que prefere olhar para todas as chances que estão contra ela com um copo meio cheio na mão: "Tivemos a preparação para um jogo mais longa que uma equipa alguma vez teve"

Diogo Pombo

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A Taça, em qualquer país, é fértil em histórias do ocasional patinho feio que se embeleza até ao topo, de ronda em ronda aproveitando-se da menor improbabilidade estatística e dando-se à sorte, porque sim, é verdade, se uma equipa das catacumbas do futebol do país jogasse 10, 50 ou 100 vezes contra uma da primeira divisão, provável seria que fosse perdendo a maioria das partidas.

Mas, defrontando-se apenas uma vez, quiçá no campo cru e agreste da equipa mais pequena, com os seus adeptos lá, talvez a coisa fique mais árida em diferenças.

É por isso, de quando em vez, vemos um Leixões da terceira divisão no Jamor (2002), um Les Herbiers do mesmo escalão no Stade de France, em Paris (2018), ou um Millwall da segunda liga inglesa a ter fôlego para ir até à final no Millenium Stadium, em Cardiff (2004). Depende do quão para trás se rebobina a cassete copeira de cada país, onde, por norma, a Taça é a competição mais igualitária por abafar no campo, mesmo que levemente, os abismos que há entre clubes de níveis diferentes.

Na Alemanha, a história improvável antes de o coronavírus aparecer era do Saarbrücken, que esta terça-feira defronta o gigantão Bayer Leverkusen, da Bundesliga.

O clube escalou até às meias-finais vindo de uma das cinco séries regionais da quarta divisão do país e nem sequer tinha um lugar cativo na Taça. Teve de se qualificar, ainda no verão passado, para depois nunca ter um adversário sequer do mesmo escalão e ir ganhando 'sofrível' como alcunha: na primeira ronda, o golo com que superou o Jahn Regensburg, da segunda divisão, apareceu no tempo de compensação; ganhou ao Colónia, da Bundesliga, marcando aos 90'; seguiu-se o Karlsruher, do segundo escalão, e o Fortuna Düsseldorf, outra equipa da principal liga do país, batendo ambos nos penáltis.

Uma atrás da outra, logrou todas essas superações em casa, no próprio estádio, que mais perto fica no mapa de Paris do que de Berlim, geografia que se intromete na história que faz deste um clube caricato. Saarbrücken é a capital do Sare, um estado hoje alemão e outrora gaulês, porque de 1945, quando terminou a Segunda Guerra Mundial, até 1957, quando se juntou à República Federal Alemã, a região foi administrada por França e até chegou a fazer um referendo pela independência.

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Uma seleção do Sare participou nos Jogos Olímpicos de 1952 e chegou a tentar qualificar-se para o Mundial de 1954. A cidade de Saarbrücken está colada à fronteira e, antes de ser um dos fundadores da Bundesliga (1963), o clube participou na segunda liga francesa, embora quase figura de corpo presente, pois impedido estava de conquistar títulos ou subir de divisão.

Os seus pontos nada valiam, mas, fazendo o caminho com goleadas várias, foi o campeão não oficial da prova em 1949 e causaria a demissão de Jules Rimet, o então presidente da Federação Francesa de Futebol (cujo nome batizou o primeiro troféu de vencedor do Campeonato do Mundo), a quem mais de 500 clubes do país se opuseram quando propôs a inclusão do Saarbrücken na entidade para que, no futuro, pudesse competir nas provas do país.

Quando, de facto, se estabilizou como alemão, o clube até foi o primeiro do país a jogar e a ganhar ao Real Madrid e em 1976 conquistou a segunda divisão da Alemanha, único título relevante numa história que não vê o Saarbrücken na Bundesliga há 27 anos e faz desta terça-feira um dia ainda mais especial - também porque "ganhar seria como o renascimento de Jesus Cristo".

Lukas Kwasniok é o treinador da equipa, ciente está de que perderia "99 de 100 jogos" que fizessem contra o Bayer Leverkusen, como admitiu, em conferência de imprensa, mesmo que as probabilidades não andassem longe disso quando defrontou os adversários anteriores. Todos lhe eram superiores na qualidade per capita, no jogo que produziam enquanto equipa, porém todos perderam no estádio do Saarbrücken, cheio com os quase de 9.000 adeptos que aguenta e, desta feita, jogarão contra a equipa.

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Porque a pandemia os impedirá de estarem no estádio e, pior ainda, impede a equipa de ter um jogo oficial desde 7 de março. A quarta divisão foi suspensa e seria depois cancelada. O Saarbrücken estava em primeiro, foi decretado campeão, mas não joga há três meses e nem um jogo-treino conseguiu fazer antes de defrontar o Bayer, cujos jogadores já desenferrujaram em cinco partidas da Bundesliga desde que a competição foi retomada, a meio de maio.

Ou seja, o estádio cheio de barulho próprio, em teoria a dificultar a vida aos visitantes que já estranhariam um relvado acidentado, contra uma equipa em forma e com rodagem no nível a que compete, são as armas que o Saarbrücken sempre teve na Taça da Alemanha e não terá agora. "A maior vantagem do Leverkusen é a sua qualidade", admitiu Lukas Kwasniok, que apesar de tudo revestiu de otimismo tudo o resto: "Temos as nossas pequenas vantagens. O estádio, as condições gerais, o nosso papel de outsider ou o facto de o Bayer ter jogado contra o Bayern Munique há três dias".

Mesmo com um treinador tão positivo, tão insistente em ver o copo meio cheio, até dizendo que tiveram "a preparação mais longa para um jogo que uma equipa alguma vez teve" e deveria ser "feriado em todo o estado", Tobias Jänicke, médio do Saarbrücken, reconheceum, "para ser honesto", que "não têm hipótese" de ganhar, em parte porque será o primeiro jogo que fazem desde o início de março.

Bernd Gauer, líder de um de vários clubes de fãs do com quem a televisão "Die Welt" falou, tem uma opinião convergente com a do jogador, embora tenha divergido do pessimismo futebolístico que estará em campo com a carta que escreveu ao Saarbrücken, antes do encontro: "Vocês não têm hipótese de ganhar, mas sabem como a podem usar". Seja lá o que isso quererá dizer, talvez queira lembrar o facto de que isto é a Taça. E as taças são os lugares prediletos das surpresas.

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