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O apelo da apolítica FIFA: tenham "tolerância, respeito mútuo e bom senso"

Questionada sobre a condenação de Donald Trump à decisão da federação norte-americana de futebol em abolir a regra que obrigava os e as jogadores a erguerem-se durante o hino nacional, a FIFA respondeu com a defesa dos mesmos valores que levam futebolistas a ajoelharem-se

Diogo Pombo

Richard Heathcote/getty

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Existe um cânone no futebol, ou melhor escrevendo, em quem está em posição de mandar no futebol, vindo sabe-se lá de onde e difícil de despistar a origem, que há muito faz por instituir um silêncio seletivo em quem anda no futebol. Se, sobretudo, joga ou treina, cinja-se ao palavreado futebolistico e às mensagens futebolisticamente entendíveis, caso contrário eis multas, castigos e suspensões à espera de serem aplicadas.

As pessoas que lêem e ouvem, pensam e deliberam, concordam ou discordam e com opiniões ficam sobre o que lhes entra pela vida dentro e que divergem de outras apenas na profissão começaram, aos poucos, a não se expressarem sobre assuntos fora da profissão que exercem, pois a profissão assim o exige por decreto - "o futebol não devem mostrar mensagens, slogans ou imagens políticas", ordenam as leis do jogo - ou assim o diz de forma subliminar.

O futebolista é para jogar futebol e pronto. Substitua-se a modalidade em questão e a frase assentaria em muitas outras.

A morte de George Floyd e a ebulição que causou, primeiro, nos EUA com protestos, manifestações e comoção social contra o racismo, a discriminação racial e a violência policial, e alastrou, depois, para dezenas de países onde as mesmas causas uniram pessoas nas ruas, veio mexer com a auto-imposta postura apolítica da futebol.

Começou com as demonstrações de apoio de jogadores na Bundesliga e já fez com que a federação norte-americana retirasse uma norma dos regulamentos (mesmo que não fosse vinculativa) que obrigava os e as futebolistas a permanecerem de pé durante o hino nacional.

Obrigação relevante porque Megan Rapinoe, a capitã e, talvez, a mais mediática jogadora do mundo, desde 2017 que colocava um joelho no chão ao escutá-lo, em solidariedade com Colin Kaerpernick, o jogador da NFL que introduziu o gesto no desporto americano, um ano antes. Depois de ser punida por o fazer e até deixar de ser convocada, passou apenas a colocar os dois braços ao longo do corpo, enquanto as restantes jogadores levavam a mão direita ao peito.

No sábado, assim que a federação do país das estrelas e riscas na bandeira aboliu a regra, Donald Trump, o presidente americano, que sempre defendeu a punição de quem não se erguesse para o hino, foi ao seu predileto Twitter para reagir à notícia: "Já não verei muito mais [futebol]!". Na mesma publicação, Trump partilhou uma declaração de um senador republicano, Matt Gaetz, que disse preferir que "os EUA não tenham uma seleção de futebol do que ter uma equipa que não se levante para ouvir o hino nacional".

A postura do presidente dos EUA parecia, no fundo, ser oposta à de Gianni Infantino, o presidente da FIFA que, no início no mês, se pronunciou sobre as demonstrações de apoio de três jogadores da Bundesliga ao movimento Black Lives Matter, dizendo que "mereciam um aplauso e não um castigo". Mas, para o clarificar, a "Associated Press" questionou a FIFA sobre as declarações de Donald Trump.

E em resposta obteve que "a FIFA defende fortemente a tolerância, respeito mútuo e bom senso quando são debatidos temas tão importantes". Não disse que apoia, ou critica, quem se ajoelhar quando se escutar um nacional. Não se pronunciou. Mas realçou que tem "uma abordagem de zero tolerância para incidentes e quaisquer formas de discriminação no futebol" e embrulhou tudo numa frase - "Todos devemos dizer que não ao racismo e não à violência".

Que é tudo o que está a ser dito quando um futebolista leva um joelho ao chão. No domingo, Marcelo também o fez, após marcar um golo pelo Real Madrid.

A apolítica FIFA, com punições nas regras para jogadores que ousarem politizar-se durante um jogo de futebol, a responder à postura de Donald Trump através da defesa dos valores que estão no cerne do gesto ao qual o presidente do EUA se opõe.