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Rashford faz apelo a deputados: “Deem meia volta e protejam os mais vulneráveis. A fome é uma pandemia”

O jovem jogador do Manchester United lembra as suas origens humildes e pede ao governo britânico que olhe com mais atenção para as crianças que passam fome devido ao encerramento das cantinas escolares

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Clive Brunskill

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"Isto não é sobre política; é sobre humanidade. Olharmo-nos ao espelho e sentirmos que fizemos tudo o que podíamos para proteger aquele que, por qualquer razão ou circunstância, não podem proteger-se. Afiliações políticas à parte, não podemos todos concordar que nenhuma criança deveria ir para a cama com fome?"

Este é o oitavo parágrafo que se lê na carta redigida por Marcus Rashford. Chegou, no domingo, à caixa de correio de todos os deputados de Westminster, o parlamento inglês que viu, na última semana, o governo anunciar o fim do programa de ajuda alimentar às famílias mais carenciadas do país.

Na semana em que deveríamos ter dado as boas-vindas ao Euro 2020, Marcus Rashford teria certamente estado em estágio, preparando a sua entrada em campo com a camisola branca da seleção inglesa. Em vez disso, o jogador do Manchester United escreveu aos deputados britânicos uma carta que publicou, na íntegra, nas redes sociais, e o "The Guardian" replicou.

Rashford começa por recordar o dia em que se tornou o mais jovem jogador de sempre a marcar no primeiro jogo com a seleção inglesa. “Observei a multidão com as bandeiras, a cantar a “Three Lions” e fiquei orgulhoso”.

A história de Marcus até àquele momento era a réplica da de muitas famílias em Inglaterra: “a minha mãe trabalhava a tempo inteiro, ganhava o ordenado mínimo para assegurar um bom jantar para nós. Mas o sistema não foi criado para famílias como a minha terem sucesso, independentemente do trabalho duro da minha mãe”. A família de Rashford dependeu muitas vezes da ajuda dos outros. “Bancos alimentares não nos eram estranhos.”

O jogador do Manchester United imagina o estádio de Wembley novamente cheio de bandeiras mas, “na realidade, Wembley podia ser cheio duas vezes com crianças que tiveram de saltar refeições durante o confinamento por as suas famílias não terem acesso a comida”.

Marcus Rashford juntou-se à organização FareShare que, durante o confinamento, tem distribuído alimentos para compensar o encerramento das cantinas das escolas. No entanto o jogador diz que os “três milhões de refeições por semana” não são suficientes.

“Isto não é política, é humanidade,” diz o jogador. “A fome em Inglaterra é uma pandemia que pode arrastar-se por gerações. (…) 1,3 milhões de crianças (…) estão registadas para receberem refeições escolares gratuitas mas um quarto dessas crianças não receberam qualquer apoio desde que as escolas fecharam.”

“Em Inglaterra, hoje em dia, 45% das crianças provenientes de grupos étnicos minoritários vivem em pobreza,” lamenta o internacional inglês, que pede aos deputados que oiçam “as histórias dos pais” que ele tem recebido.

Rashford refere os tweets que tem lido, em que vozes críticas culpam os pais por terem crianças “que não podem manter”. “Esse mesmo dedo poderia ter sido apontado à minha mãe, no entanto eu cresci num ambiente de amor e cuidado,” afirma o jogador.

“Enquanto homem negro de uma família com baixos rendimentos (…) de Manchester, eu podia ser apenas mais uma estatística. Em vez disso, devido às ações nada egoístas da minha mãe, (…) estou associado aos objetivos, número de jogos e internacionalizações.”

Marcus Rashford acusa o governo de ter adotado uma política “custe o que custar” para a economia mas não para a proteção de crianças vulneráveis em Inglaterra. “Por favor reconsiderem a vossa decisão de cancelar o cheque alimentar durante o período das férias de verão,” pede Rashford.

“Isto é Inglaterra em 2020 e este é um tema que precisa de assistência urgente. Por favor, enquanto os olhos da nação estão sobre vocês, deem meia volta e façam da proteção das vidas dos mais vulneráveis uma prioridade de topo,” termina o avançado dos Red Devils.