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A equipa dos bigodes deu um bigode a Ronaldo

Muita conversa se botou na Taça de Itália em torno do possível tri-triplete de um certo português caso a Juventus fosse a equipa, no fim de tudo, a levantar o caneco, mas foi o Nápoles de outro português, Mário Rui, a ganhar no desempate por penáltis (0-0, 4-2) em que Cristiano não chegou a bater na bola porque ficou, ou se deixou ficar, para o fim

Diogo Pombo

FILIPPO MONTEFORTE/Getty

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Alfonso Bialetti nasceu não neste século, nem no outro, mas no anterior. Gostava de metal, tornou-se aprendiz da arte de o fundir e desse engenho, mestiçado com uma ideia, brotou a forma de uma cafeteira metálica. Posta ao lume, aproveitava a ebulição da água para a fazer subir, passando por um filtro com café para acabar no depósito de cima, acastanhada e cafeinada.

A cafeteira moka, invenção de Alfonso Bieletti, é de outros tempos, de 1933, mas ainda muito de hoje, bendito café caseiro a assobiar cozinha fora devido à cafeteira, que até no Museum of Modern Art (MOMA) de Nova Iorque está exposta, longa viagem percorreu ela desde que saiu da cabeça do senhor Alfonso, nascido faz hoje 132 anos, em Casale Corte Cerro, na região de Piemonte de Itália.

O lugar fica a uns 150 quilómetros de Turim, onde nove anos depois nasceria a Juventus, patavina sei eu se ele chegou a torcer pelo clube, ou sequer a apreciar futebol, mas o filho, Renato, que lhe tomaria o negócio, estampou uma caricatura feita à sua imagem nas mokas da Bieletti. O que salta mais à vista é, sempre foi, o farto bigode da figura, e, no aniversário do nascimento do mais sénior dos Bieletti, só há uma equipa em campo com jogadores a ostentarem pilosidade facial desta.

A coincidência feliz é do Nápoles, lá estão os bigodes do português Mário Rui e do espanhol Callejón, a padecerem de tempo com bola, muito correndo atrás dela, compartimentados em 25 metros, tentando manter a linha fora da sua área e o pequeno o campo jogável para o jogo de muito passe e apoio frontal da Juventus, que ameaça logo a abrir por Ronaldo, forte rematador de uma bola recuperada por Dybala com a fortalecida pressão pós-perda que a equipa executa e bem.

Mas, uns 15 minutos decorridos, essa pressão começa a esburacar. As saídas curtas do Nápoles já lhes fogem e eles aceleram por entre os buracos no posicionamento que a Juventus de Sarri, por mais intrincada que seja a ligar passes verticais, ao centro, para ir avançando no campo, deixa à vista por impreparada estar para lidar com a transição defensiva quando o adversário bate a sua primeira pressão.

Por muita bola, mais passes e duradouro tempo no campo dos outros tenha a Juventus, é a bigodeira equipa que perto fica de marcar, quando Lorenzo Insigne bate um livre ao poste, Diego Demme obriga Buffon a esticar as pernas para defender e Fabián Ruiz testa ainda mais as qualidades voadoras do quarentão. O Nápoles é a equipa que fabrica mais oportunidades para marcar.

A segunda parte, culpa da pandemia que enferrujou momentos de forma, traz várias coisas indesejadas. O jogo ganha faltas, paragens, passes errados e decisões mal tomadas, fica dependente de esticões e não tanto de posses de bola pensadas. Cristiano pisgava-se com muitas corridas, conduziu bastantes vezes a bola, dava boleia à equipa e atraía atenções tantas que tinha, às tantas, tinha que tocar um passe para alguém.

NurPhoto

Isso viu-se uma vez, Ronaldo frenou, olhou à volta, apenas vinha lá Bentancur, desequilibrado pelo próprio embalo para, com o pé esquerdo, rematar a bola que sobrevoou a baliza que nem um zepelim. E o pior que se pode dizer da Juventus é que, sim, continuou a usufruir muito de tempo com bola, a territorialmente ter mais presença na metade do campo contrário, a encontrar as receções de Dybala entrelinhas para ser ele, tinha de ser ele, a inventar qualquer coisa, mas a altitude daquela remate de Bentacur foi o mais perigoso que logrou fazer.

Porque, mesmo com menos posse, os ataques do Nápoles abusava da esperteza de Insigne a desmarcar-se e a soltar gente quando intervinha nas jogadas. E mesmo, também, sem a presença bigodeira de Mário Rui e Callejón, um que sairia amarelado e de rastos, o outro empurrado pela irrelevância no jogo, foi a equipa mais sedutora do golo. Insigne rematou em arco, Politano imitou-o e o ascendente de ocasiões crescia.

A Juventus tremia, mas não tombava, porque na última das barreiras existia a presença quarentona de quem, se bigode tivesse, tê-lo-ia grisalho, acinzentado pelos 42 anos e muitos a salvar a equipa, por isso não merecendo que a talvez derradeira hipótese de conquistar uma taça na carreira dependesse tanto nele.

Que fosse tão descaradamente resgatada por ele, aos 93’, quando atirou o esqueleto à relva, num canto, para desviar heroicamente o remate de Maksimovic e a fortuna lhe estender a vida na final quando a recarga de Elmas bateu no poste. No minuto seguinte, o árbitro apitou para os penáltis.

Aí é a morte de táticas, sistemas, conceitos e estratégias, tudo cambiado por um teste a 11 metros que depende da fortitude, concentração e técnica de remate de quem vai chutar contra a previsão e leitura de quem está de luvas na baliza. Calhou a Dybala e a Danilo falharem perante Meret, todos os quatro batedores do Nápoles acertarem e o Nápoles acabar com a sua sexta Taça de Itália.

E Ronaldo a ser bigodeado pelo inesperado e crescente sucesso de Gennaro Gattuso na equipa do sul de Itália, também com barba farta por baixo do nariz, tido e achado como treinador duro, defensivo e mundano na abordagem, mas que ressuscitou um grupo de jogadores combalidos e ainda a ressacar do abandono a que Maurizio Sarri os votou, há dois anos, para agora ser derrotado por eles.

E Cristiano, voltando atrás, a ver tudo isto sem ter um pé a dizer no hipotético salvamento da Juventus, pois, deduzo, seria o quinto batedor de penálti, hábito que costuma ter quando há uma final, um troféu e um papel de herói à mercê. Mas a Juventus não sobreviveu até à vez do melhor rematador que terá a 11 metros da baliza, que aguardou, ficando à deriva da sorte dos outros que foi o seu azar. E, como todos, levou um bigode da equipa dos bigodes.