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O “risorgimento”, o “campanilismo”: ou como Cristiano Ronaldo pode fazer história na batalha entre o norte e o sul

Português pode vencer esta quarta-feira um dos títulos que lhe falta, a Taça de Itália (às 20h, na Sport TV4), num Juventus - Nápoles que, mais que um jogo de futebol, é o confronto entre as duas melhores equipas da última década em Itália, numa rivalidade que vai para lá do futebol

Lídia Paralta Gomes

MARCO BERTORELLO/Getty

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A história da rivalidade entre a Juventus e o Nápoles também é a história do risorgimento e é, por isso, muito mais antiga do que os próprios clubes. O processo de unificação do Reino de Itália, que terminou em 1871, pode ter juntado territorialmente uma série de estados tresmalhados uns dos outros naquele pedaço de terra com a forma de bota mas, ontem como hoje, o norte é uma coisa e o sul outra.

Naqueles dias, o Norte já era urbano, industrializado, burguês, enquanto o sul continuava rural. Os preconceitos mantêm-se até hoje e dependem sempre da pele de cada um. Os do norte, onde está a força económica do país, acham o sul preguiçoso, caótico, atrasado. Os do sul vêem o norte como frio, altivo, arrogante. E Juventus e Nápoles são uma extensão cultural de tudo aquilo que separa os italianos, tão agarrados ao campanilismo, o sentimento de pertença a um qualquer lugar - aquilo que aqui chamaríamos de bairrismo, ainda que, em comparação, o bairrismo português seja para meninos. Em Itália, para lá de se ser italiano (ou mais que isso), é-se napolitano, romano, siciliano ou calabrês.

E, portanto, nada melhor que um Juventus - Nápoles para entregar o primeiro grande troféu pós-pandemia no futebol europeu, a Taça de Itália, esta quarta-feira, a meio caminho, em Roma. Com Cristiano Ronaldo ao barulho, à procura de um dos poucos títulos que lhe falta: o 30.º da carreira. Uma final entre dois clubes, desportivamente as forças mais regulares da Serie A na última década, mas também entre duas formas de vida, dois lugares muito diferentes enfiados no mesmo país.

A rica e o pobre

A Juventus é há muito o símbolo da Itália rica, nos cofres e no palmarés: a equipa da palaciana Turim tem 35 scudetti em nome próprio, quase o mesmo que Inter (18) e AC Milan (18) juntos, incluído os últimos oito. Já o Nápoles, do decrépito Sao Paolo, das ruas esconsas e estreitas, é a única equipa da Serie A abaixo de Roma que festejou títulos nacionais em Itália. Foram dois, em 1986/87 e 1989/90, quando um óvni argentino chamado Diego Armando Maradona aterrou na capital do sul. Nesses finais dos anos 80, a rivalidade entre Juventus e Nápoles assanhou-se, com Platini de um lado, Maradona de outro.

A ressaca seria, no entanto, dolorosa para os napolitanos: após a saída de Maradona, em 1991, o clube entrou em crise financeira e de resultados, caiu para a Serie B em 1998, declarou falência em 2004 e só com a chegada de Aurelio De Laurentiis, ainda hoje presidente, se reergueu. Da terceira divisão até ao regresso à Serie A, em 2007, foi um saltinho e desde aí que o Nápoles se meteu de novo entre os gigantes - desde 2010 que a pior classificação da equipa é um 5.º lugar.

Maradona e Platini, as caras da rivalidade Nápoles-Juventus nos anos 80

Maradona e Platini, as caras da rivalidade Nápoles-Juventus nos anos 80

Alessandro Sabattini/Getty

E com isso renasceu a rivalidade, extremada com a saída de Gonzalo Higuaín do Nápoles para a Juve em 2016 por 90 milhões de euros e, esta temporada, com a chegada a Turim de Maurizio Sarri, o antigo bancário, filho da terra, adepto que entre 2015 e 2018 colocou o Nápoles a jogar o futebol mais atraente da Europa. Em três temporadas no Nápoles, Sarri levou a equipa duas vezes ao 2.º lugar, lutando até ao fim contra a Juventus na última época que passou no Sao Paolo. Depois saiu para o Chelsea. Para logo no ano seguinte voltar a Itália, não ao clube do coração, mas à rival Juventus.

A ida de Sarri para a Juventus, escusado será dizer, não caiu particularmente bem no sangue quente das gentes de Nápoles, demasiado fartas de perder para a equipa do norte. Esta quarta-feira, no Olímpico de Roma, uma vitória do Nápoles seria, portanto, uma dupla vingança. Porque para lá do despeito que foi ver Sarri, um dos últimos românticos do futebol, seguir para o norte capitalista, o treinador continuaria à míngua de títulos em Itália, uma das críticas recorrentes a Sarri.

Um feito ao alcance de Cristiano

O regresso de Cristiano Ronaldo aos relvados, na última sexta-feira, foi mau. E depois foi bom.

Expliquemos.

Apesar dos avisos dos colegas de que o português estaria em tão boa ou ainda melhor forma face ao momento pré-pandemia, Cristiano Ronaldo entrou na 2.ª mão da meia-final da Taça de Itália, frente ao AC Milan, praticamente a falhar uma grande penalidade. O resto do jogo também não lhe correu particularmente de feição. Ainda assim, o nulo bastou para a Juventus passar à final, graças ao 1-1 em San Siro na 1.ª mão.

Cristiano está assim a um jogo de distância de vencer um troféu que lhe falta, a Taça de Itália, o que lhe daria um tri-triplete: de Inglaterra e Espanha já traz campeonato, supertaça e taça, em Itália já venceu campeonato e supertaça, falta a Coppa. Uma vitória na final da Taça, num Olímpico vazio de almas, poderia dar ainda o mote para uma temporada em que a Juventus não tem sido propriamente regular (o Sarriball teima em não engrenar), mas onde ainda pode ganhar tudo: continua na Liga dos Campeões e está à frente na Serie A com um ponto de vantagem para a Lazio.

O português deverá jogar a ponta de lança, tal como aconteceu com o Milan. Uma posição em que o Nápoles poderá ter um problema: de acordo com a imprensa italiana, o mexicano Hirving Lozano, a mais cara contratação da história do Nápoles (chegou esta época do PSV por 42 milhões de euros), foi expulso do treino de segunda-feira por Gennaro Gattuso, o temperamental treinador do clube, também ele um homem do sul, da Calábria, que não terá gostado da falta de empenho do avançado. “Não permito que ninguém arruine o meu treino. Quando assobio, é para dar tudo”, disse Rino Gattuso à RAI.

Quanto a alavancagens estatísticas, esta temporada está tudo empatado: a Juventus venceu na 1.ª volta para o campeonato, num emocionante 4-3 em Turim, com direito a auto-golo a favor dos da casa já para lá dos 90' e na 2.ª volta venceu o Nápoles no Sao Paolo, por 2-1. O desempate vale título.

Mas já se falarmos de finais da Taça de Itália, o Nápoles é bem capaz de ter a vantagem emocional de ter estragado o jogo de despedida de Alessandro del Piero pela Juventus, ao vencer por 2-0 em 2011/2012, a única vez que as duas equipas se encontraram na final até hoje.