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Premier League: o futebol com o melhor ambiente está de volta. Só que sem o ambiente e com um campeão previsível

Foram 99 dias de quarentena para a Premier League, o mais endinheirado dos campeonatos europeus que regressa, esta quarta-feira, à competição sem o público que a torna tão especial e emotiva. O Liverpool pode, finalmente, retomar o caminho para o inevitável título com os seus 25 pontos avanço com nove jornadas em falta, mas a previsibilidade dessa conquista desviará as atenções para outras agruras: como será o United com Paul Pogba e Bruno Fernandes? Ou a continuação do ressuscitamento do Arsenal com mais tempo de Arteta? E o Tottenham, que já parecia estar combalido com Mourinho?

Diogo Pombo

Michael Regan - UEFA

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Poderá ser da gravidade e da sua força, mais impiedosa naquelas terras, mais pesada sobre o peso dos corpos, a fazer cair das árvores algo especial. Esse algo tornará os ingleses mais dados a vocalizarem essas reações, um bom bocado mais emotivos e, de caras, mais espampanantes a não aguardarem pelo golo para libertarem todos os demónios do corpo.

Os ingleses vergastam as mãos com palmas por um carrinho bem feito. Pela bola passada a 40 metros que passa entre três adversários e fica mansamente à frente de quem é suposto. Pelo jogador que se mutila ao correr para trás e defender: vão ao estádio e é raro ouvir-lhes um assobio, o mundano som do desgosto.

Ou, talvez, estejam demasiado ocupados a desfrutar das coisas boas de um jogo, doseando o êxtase por esses momentos nos quais rejubilam inflacionariamente. O golo é uma peça do puzzle e não o puzzle em si, e também por isso gritam ‘yeah’ quando a bola entra em vez de ‘goal’; faz parte da engrenagem do futebol e faz acreditar o jogador que diz sonhar com, um dia, jogar em Inglaterra - é credível, não parece ser só mais uma variante do conceito de sonho. Ali, o ambiente é especial.

Mas, 99 dias depois, não haverá ingleses para injetarem nos estádios o que mais se elogia no futebol inglês.

A Premier League que não é sempre, nem sempre foi, o campeonato onde se joga melhor, mas é onde se parece vivê-lo com mais força, regressa esta quarta-feira à competição. O primeiro jogo, após ser trancada pela pandemia e o 289.º desta época, será o Aston Villa-Sheffield United (18h, Sport TV1), que pode servir de exemplo para o quão espetacular pode ser a liga inglesa.

A partida que dará as boas-vindas será entre duas equipas que subiram, no verão, à Premier League, mas só uma aparenta ter vindo do andar debaixo do futebol do país. O Aston Villa está em penúltimo, a ranger os dentes e as figas para se livrar de voltar para onde veio, a reboque do capitão Jack Grealish, um tipo de jogador a quem se gaba a devoção porque, na flor da idade, tem qualidade para tocar a bola em equipas que jogam para ganhar títulos e o catapultariam, de vez, para a seleção inglesa, mas mantém-se no clube da terra, a sofrer por osmose com um plantel desequilibrado.

O Sheffield United vai em sétimo lugar, a cinco pontos de do brilharete de entrar nos lugares de Liga dos Campeões, agradável surpresa de uma temporada em que trouxe do Championship a ousadia de ter os centrais a trocarem de posição com os laterais, na metade do campo adversária, numa equipa que tem a capitão um anafado avançado, Billy Sharp é o seu nome, com 34 anos e mais de 100 golos na segunda divisão, mas que, até esta época, só aparecera em duas partidas da Premier League.

Tom Flathers

Por maior que seja o contraste e o significado que há por trás, este não será o jogo a atrair pessoas para o sofá e a televisão mais próximas no dia do regresso. Em Manchester, o City, segundo classificado, receberá o Arsenal (20h15, Sport TV2), que está em nono lugar, e uma partida já grande como está será engrandecida pelo peso do que estará em campo: os 22 jogadores que não se cumprimentarão, abraçarão ou alinharão antes para a fotografia, por proibição do protocolo.

A equipa de Pep Guardiola tem um crédito de apenas seis pontos para evitar o que apenas será adiável, nunca evitável. Se, por acaso, perder com o Arsenal, dará a hipótese ao Liverpool de, 30 anos depois, ser campeão inglês logo na primeira semana pós-quarentena e num lugar que antagoniza, mas não desdenharia - em Goodison Park, casa do Everton (domingo, 19h, Sport TV2), o rival da cidade.

A batalha legal do City contra a UEFA, tentando recorrer da punição de dois anos sem competições europeias por fugir à seringa do fair-play financeiro, é um suspense no qual depende, no fundo, o futuro próximo de todo um clube, e por arrasto de uma equipa.

Pep Guardiola, De Bruyne, Agüero, Bernardo Silva e companhia poderão ter na Premier League a melhor forma de se reanimarem para um assalto mais urgente à Liga dos Campeões, que ainda não sabemos onde, nem como, será retomada, sabendo que uma das possíveis consequências de 24 meses sem provas da UEFA pode ser o desmantelamento da equipa mais dominadora da década em Inglaterra.

O adversário Arsenal estava em plena reanimação antes da paragem, ia nas seis vitórias em oito jogos com o ex-adjunto que fugiu da sombra do catalão para arriscar o conserto de um gigante pela valorização da bola, uma construção apoiada de trás e jogo posicional assente em passes curtos. Mikel Arteta teve cerca de um mês para lidar com a equipa em treino, terá agora jogos para comprovar o trabalho em competição.

Tottenham Hotspur FC

Entre mestre e antigo aprendiz, na colisão de jogo posicional maturado com o estilo passador a ser iniciado, dependerá muita da emoção deste retorno da Premier League que, na sexta-feira, também será um ponto de encontro para abraços figurativos.

Mourinho

O volátil Tottenham de José Mourinho (8.º), que violou as regras da quarentena com o português ao barulho, num parque de Londres, a treinar jogadores, vai receber, com a equipa cujos pedaços foi contratado para colar, o Manchester United (5.º), que deixou um pouco em cacos quando foi despedido (dezembro de 2018) – mas que parecia estar a embalar-se com nova pujança ordeira e goleadora assim que Bruno Fernandes lá chegou, em janeiro.

E este poderá ser o primeiro jogo (sexta-feira, 20h15, Sport TV2) em que o português coincide com o há muito ausente Paul Pogba, virado, aos poucos, não um patinho feio do United, mas um pato afastado do lago - por uma lesão no pé mais grave que o esperado - e polémico - no verão, chegou a dizer que pretendia “um novo desafio”.

Agora, interrompidos que estão os tempos gastadores dos clubes, com os cofres emagrecidos pela pandemia - e ele, silenciosamente em forma-, esta é uma oportunidade para aferirmos se a bola sorrirá mais com os pés do português e do francês na mesma equipa, para a qual o melhor reforço não foi um, nem o outro. É, sim, Marcus Rashford, também já recuperado de lesão e avançado que goleou, pelo exemplo, fora de campo, quando politizou o peso que o futebol lhe deu à voz e fez o governo inglês retomar um programa de ajuda alimentar às populações mais pobres do país.

Depois, nos restantes tiros da arma matadora de saudades, o aportuguesado Wolves visita o aflito West Ham (sábado, 17h30, Sport TV1) na sua batalha pela Europa, e o Leicester, que ainda coabita entre as equipas com destino reservado para a Liga dos Campeões, vai jogar a Watford (sábado, 12h30, Sport TV1). Será, também, mais um jogo para Jamie Vardy engordar os golos que o têm na liderança dos marcadores (19) e o podem tornar no mais velho melhor goleador da Premier League desde 1949.

Tem 33 anos e uma vida já cheia de emoções, pois todos nos lembraremos da rocambolesca história dele e do Leicester, em 2016, quando muitos e inesperados gritos se terão ouvido durante a Premier League mais inesperada do século. Esta segunda edição desta época de imprevisível já pouco terá. De tradicional ambiente futebolístico inglês nos estádios, muito menos.

Mas, enfim, é o futebol que há e é bem melhor do que nada.