Tribuna Expresso

Perfil

Futebol internacional

O treinador Unzué tem esclerose lateral amiotrófica: "Duvido que um projeto desportivo me desse mais satisfação do que este desafio"

Foi treinador de guarda-redes do Barcelona e depois adjunto de Luís Enrique, antes de se aventurar sozinho no Celta de Vigo e no Girona. Estava ausente desde outubro, em parte, devido ao que revelou esta quinta-feira: Juan Carlos Unzué tem esclerose lateral amiotrófica há quase um ano. "Posso assegurar-vos que estou bem e forte mentalmente para conviver com esta doença difícil", disse

Diogo Pombo

Octávio Passos/Getty

Partilhar

Juan Carlos Unzué entrou na sala de imprensa num dos auditórios do Camp Nou, em Barcelona. Parou, por momentos, onde estava Luis Enrique, abraçaram-se e conversaram um pouco, ambos de máscara. Fez o mesmo com vários outros presentes, amigos, conhecidos, jogadores de treinou, fotógrafos e com Josep Maria Bartomeu, presidente do Barcelona que foi o primeiro a tomar a palavra, para introduzir o antigo guarda-redes (1988-90) e treinador-adjunto do clube (2014-16) do clube.

A palavra dele foi durante uma meia hora. Ao início, tocando nas folhas de papel que tem à frente, notaram-se, na posição dos dedos, na forma como se mexem, na retidão dos ossos, as marcas do que há quase um ano lhe foi diagnosticado e esta quinta-feira revela publicamente. Juan Carlos Unzué tem esclerose lateral amiotrófica, talvez mais conhecida pelas siglas ELA. É a doença, anos atrás, pela qual muita gente se encadeou no desafio de deitar um balde cheio de água e gelo em cima do corpo. Agora é a doença com a qual, aos 53 anos, o espanhol tem de conviver.

Diz que já o limite nos braços, nas mãos e nas pernas "de forma assimétrica". Relembra o facto de não existir cura e praticamente não haver tratamentos, exceto "umas pastilhas" que está a tomar que "retardam os efeitos da doença na maioria dos pacientes". Garante está bem e "forte mentalmente para conviver com esta doença difícil" e assegura sentir-se "um privilegiado pelo que a vida" lhe deu "durante todo este tempo", que não sabe quanto mais durará.

Unzué está feliz, sublinha-o, porque escolheu dar a voz, a cara e a atenção à ELA e a ajudar outros que a tenham, ao ter-se apercebido do quão pouca atenção merece em Espanha e poucos meios de tratamento tem no país. "Tenho a sensação de que o desafio que hoje começo me vai dar muita satistação. Tenho dúvidas de que qualquer outro projeto desportivo me pudesse dar, agora mesmo, mais satisfação", explicou,

O espanhol, nascido em Pamplona, vai dedicar-se à Fundação Luzón, com sede em Madrid, que trabalha em prol de doentes com esclerose lateral amiotrófica. Continuando, Juan Carlos Unzué trilhou o caminho que tem pela frente: "A partir de agora, o meu objetivo não vai ser treinar equipas de futebol. Vou assinar por uma equipa modesta e muito comprometida. Terei muitos companheiros e companheiras: somos cerca de 4.000 em Espanha e o mercado de transferências tem muito movimento, todos os dias acrescentamos caras novas à equipa, mas também perdemos".

Será o jogo de uma vida para Juan Carlos Unzué.