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Pelé não insistia em jogar, mas o rei ganhou a coroa há 50 anos

O único jogador a conquistar três Mundiais ganhou o seu último há meio século. Pelé tinha 29 anos, até se tinha retirado da seleção brasileira, mas decidiu voltar e fez apenas um pedido ao selecionador: "Não insisto em jogar, faz o que achares correto. Só te peço uma coisa: sê franco comigo", escreveu, na sua autobiografia. A franqueza fez dele o centro de uma seleção que se sobrepôs a toda a gente e o corou como o expoente da realeza do futebol

Diogo Pombo com Lusa

Alessandro Sabattini/Getty

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O contexto

Já não era o imberbe magricela de 1958, cuja genialidade moleque foi eclipsada pelas pernas entortadas de Garrincha. Tão pouco o azarado corpo a transbordar de técnica que se lesionou ao segundo jogo de 1962 e campeão foi, embora secundário, presente mas inativo. Tornou-se campeão mundial, tinha a carreira, já então, movida a pinças que lhe multiplicavam as pernas em jogos e digressões com o Santos para mostrar ao mundo o quão poeta da bola ele era.

Viria o Mundial de 1966, malogrado que foi para o Brasil, derrotado por Portugal que apontou especialmente às pernas de Pelé, "massacradas pelas congéneres de Morais", como o brasileiro recordou na sua autobiografia, triste por "descobrir que a violência e a falta de desportivismo eram tão desanimadoras como as fracas arbitragens". Desiludiu-se com o futebol, tristonho ficou e retirar-se-ia da seleção durante dois anos.

Mas, então, aproximou-se 1970 e os 29 anos do providenciador-mor de golos e mestria no Santos retornou à equipa, redundante é lembrar que foi convocado para o Campeonato do Mundo e apenas diz ter feito um pedido a Mário Zagallo, o selecionador com quem jogara no primeiro Mundial que conquistou: "Quero que compreendas que não insisto em jogar. Se existe outro jogador que jogue melhor na minha posição, não tenhas problemas, faz apenas o que achares correto. Mas só te peço uma coisa: sê franco comigo".

E, com toda a franqueza, lá foi Pelé, não tão explosivo, nem mexido, ou irrequieto como dantes, para ser o sol à volta do qual tudo gravitava na equipa com as órbitas de Tostão, Jairzinho, Rivellino e Carlos Alberto Torres, um compêndio de boniteza futebolística em movimento que acabaria por ganhar à Itália na final, onde congeminaram um golo que resumiu a simplicidade técnica daquela seleção brasileira.

Pelé ganharia o seu terceiro Mundial, único entre humanos a consegui-lo, ainda nem trintão era e coroado ficava com o título de rei, dono e senhor de honras que hoje, aos 79 anos, o têm como máximo exemplo do esplendor das conquistas futebolísticas e distribuidor de feitos para outros jogadores, só por estarem associados a ele - na edição de 1970, por exemplo, Gordon Banks, guarda-redes inglês, ficou com o que se batizou como defesa do século nas luvas quando logrou parar uma bola cabeceada pela fúria de Pelé.

O brasileiro Edson Arantes do Nascimento, vulgo genial Pelé, consagrou-se como rei do futebol há 50 anos, em 1970, na Cidade do México, ao entrou para a história como o único tricampeão mundial.

A cronologia

Em 21 de junho, no Estádio Azteca, Pelé, único entre os eleitos de Mário Zagallo para o Mundial de 1970 que tinha participado nos triunfos de 1958 e 1962, chegou ao ‘tri’ após triunfo sobre a Itália, por 4-1, na final da nona edição do Campeonato do Mundo.

O ‘10’, então um ‘veterano’ de 29 anos, deu o exemplo, ao inaugurar o marcador aos 18 minutos, com um cabeceamento que entrou junto ao poste esquerdo de Enrico Albertosi, para o seu 12.º e último golo em Mundiais, ao 14.º jogo.

Depois de Roberto Boninsegna empatar, aos 37 minutos, o Brasil selaria o ‘tri’ na segunda parte, com tentos de Gerson, aos 66, Jairzinho, que marcou em todos os jogos, aos 71, e Carlos Alberto, aos 86, os dois últimos assistidos pelo ‘rei’.

Com um tento e dois passes para golo, Pelé fechou com ‘chave de ouro’ a sua carreira em Mundiais, alcançando um ‘tri’ então inédito e que, depois disso, também não foi replicado, em mais 12 edições da prova (1974 a 2018).

O ‘rei’ escreveu em 1970 uma página ímpar na mais bela de todas as competições do futebol, depois de já ter brilhado intensamente em 1958, então ainda um ‘garoto’, e de ter passado ao ‘lado’ das edições de 1962 e 1966, por culpa das lesões.

A história de Pelé nos Mundiais começou quando o jogador ‘canarinho’ ainda dava os primeiros passos no futebol, já que foi convocado por Vicente Feola para a edição de 1958 quando tinha apenas 17 anos e pouco mais de uma época cumprida no Santos.

O jogador nascido em Três Corações, no estado de Minas Gerais, em 23 de outubro de 1940, estreara-se pelo ‘peixe’ em 7 de setembro de 1956, ano em que só disputou dois particulares, para, em 1957, começar a ‘explodir’, com 43 golos em 40 jogos oficiais.

Dois dos tentos foram na seleção, nos dois primeiros jogos, com a Argentina, e Feola convocou-o para o Mundial, no qual se estreou ao terceiro jogo (2-0 à União Soviética), após ser suplente com Áustria (3-0) e Inglaterra (0-0).

O primeiro momento de glória aconteceu ao segundo jogo, em 19 junho, ao marcar de forma brilhante – dominou de peito de costas para a baliza, rodou sobre um defesa e rematou com classe de pé direito – o golo que permitiu ao Brasil vencer o País de Gales (1-0) e qualificar-se para as meias-finais.

Motivado, embalado, a viver um ‘sonho’, Pelé ‘agigantou-se’ nas meias-finais e na final, primeiro com um ‘hat-trick’ à França (5-2) e, depois, com um ‘bis’ na final perante a anfitriã Suécia (5-2), incluindo mais um golo ‘mágico’, em que fez passar a bola por cima de um defesa antes de bater Kalle Svensson.

O ‘miúdo’ saiu em ombros do Rosunda Stadium, em Solna, e só não foi o melhor marcador do Mundial porque um ‘tal’ Just Fontaine marcou 13 golos pela França, um recorde que ainda persiste. Pelé acabaria 1958 com 75 tentos, em 53 jogos oficiais.

Quatro anos volvidos, a segunda aventura de Pelé em Mundiais, ainda um jovem, com 21 anos, começou da melhor forma, com um golo no 2-0 ao México, mas acabou prematuramente, face à lesão sofrido ao segundo jogo, frente à Checoslováquia (0-0).

O ‘rei’ não mais jogou, mas, com uma equipa de grande categoria, incluindo Garrincha, Vavá ou Didi, o Brasil revalidou o cetro no Chile, numa final que foi um reencontro com os checoslovacos, agora batidos por 3-1 – marcaram Amarildo, Zito e Vavá.

Se a segunda participação de Pelé na competição ficou marcada pelas lesões, o cenário foi idêntico na terceira, no Mundial de 1966, que, curiosamente, também começou com o ‘10’ a faturar, num triunfo por 2-0 sobre a Bulgária.

Depois, foi poupado frente à Hungria e o Brasil perdeu, por 3-1, tendo de jogar o apuramento frente a Portugal. Pelé voltou, mas, com problemas físicos e ‘massacrado’ por Morais, não evitou a eliminação, selada por Simões e um ‘bis’ de Eusébio.

No calor da eliminação, chegou a dizer que não voltaria a disputar um Mundial, mas lá esteve, aos 29 anos, em 1970, para, com a sua experiência, ajudar o Brasil a chegar ao ‘tri’.

Num percurso imaculado, Pelé marcou três golos na fase de grupos, uma à Checoslováquia e dois à Roménia, e, pelo meio, assistiu face à Inglaterra (1-0), o que repetiu frente a Peru (4-2, nos quartos de final) e Uruguai (3-1, nas meias-finais).

A rematar, face à Itália, marcou um golo e ofereceu dois, sendo decisivo na final: em resumo, três títulos, 14 jogos, 12 golos marcados, 12 vitórias, um empate e apenas uma derrota, a sofrida face aos ‘magriços’, no ‘célebre’ jogo de Liverpool.