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15 anos e 219 dias: o novo Messi chama-se Luka Romero e é o mais jovem de sempre a estrear-se na La Liga

Nascido no México mas de família argentina, o médio atacante há muito que é visto como um futuro craque. Agora fez a sua estreia na Liga espanhola, batendo um recorde de precocidade com mais de 80 anos. Os treinadores dizem que tem técnica, sentido tático, velocidade e atrevimento. Um pouco como Lionel Messi

Lídia Paralta Gomes

Pressinphoto/Getty

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O relógio marcava 81 minutos e o Maiorca já perdia por 2-0 no Estádio Alfredo di Stéfano, frente ao Real Madrid, quando a câmara apanhou o momento: um miúdo, cabelo mais curto à frente e longo atrás, de sorriso nos lábios, e Vicente Moreno, treinador da equipa das Baleares, a segredar-lhe algo ao ouvido, com a mão no peito do garoto.

"O coração dele não estava a cem ou a mil. Estava a 3 mil à hora", diria no final do jogo o treinador sobre aquela imagem. O coração dentro daquele peito ainda juvenil é de Luka Romero e tinha boas razões para estar mais acelerado: afinal, não é todos os dias que um rapaz de 15 anos e 219 dias se estreia na Liga espanhola.

Não é todos os dias, não. Na verdade nunca tinha acontecido.

Romero, um médio ofensivo de quem há muito se fala do talento, é mesmo o mais jovem de sempre a jogar na La Liga, batendo um recorde de 81 anos, quando Francisco Rodríguez, mais conhecido por Sansón, se estreou pelo Celta de Vigo na temporada 1939/40 com 15 anos e 255 dias. E isso, obviamente, justifica o coração saltitante que o treinador quis acalmar. "Quando percebi como estava a palpitar o coração dele, simplesmente quis serená-lo e dizer-lhe que aproveitasse o momento, porque merecia", sublinhou Vicente Moreno, que precisou de uma autorização especial da Liga espanhola para chamar Luka aos treinos da equipa principal no pós-pandemia, já que o miúdo ainda não tem contrato profissional - só o poderá fazer quando completar 16 anos, em novembro.

Aos 15 anos, muita coisa pode acontecer, mas há muito tempo que uma estreia de um adolescente não criava tamanha expectativa. Isto porque há muito que Luka Romero é apelidado de "novo Messi", ele que aos 10 anos já enchia páginas de jornais nas Ilhas Baleares, pelas evidentes semelhanças de jogo e na estrutura física com o argentino do Barcelona. E também pelo peculiar trajeto: filho de argentinos, Romero nasceu em Durango, no México, a 18 de novembro de 2004, numa altura em que o pai, Diego, era futebolista na equipa da cidade.

Quando Luka tinha apenas dois anos, a família mudou-se para Espanha, onde Diego jogou em clubes das divisões inferiores. Quando o pai se mudou para o Formentera, o miúdo seguiu-lhe os passos, tendo jogado também nas escolas do Saint Jordi, de Ibiza. Tentou pelo meio a sua sorte em La Masia, mas Luka era então um menino de apenas sete anos e a academia do Barcelona não permite crianças com menos de 10 anos sozinhas na sua residência - e a família Romero não queria deixar as Baleares.

Foi então que assinou com o Maiorca e é no mais importante clube destas ilhas do Mediterrâneo que tem brilhado nos últimos anos. Nos cinco minutos em que esteve em campo, Romero não conseguiu mostrar muito, mas os seus antigos treinadores nas camadas jovens falam de um fora de série, com qualidade técnica de excelência, com a capacidade de levar a bola colada ao pé em sprint para onde bem lhe aprouver, características às quais junta uma grande capacidade para ler o jogo, inteligência tática e o atrevimento necessário para arriscar.

Em declarações ao jornal "El Periódico", o adjunto de Vicente Moreno, Dani Pendín, traçou o perfil de Luka. "É canhoto, que já é algo diferente, como Messi. É rápido, muito rápido; é sagaz, habilidoso, muito competitivo. Tem tudo para se tornar num grande número 10". Mas deixou também um aviso: "Só tem 15 anos, por isso, veremos".

Diego Romero ainda joga nos campeonatos regionais das Baleares e garante que o filho, apesar da juventude, "tem os pés bem assentes na terra".

"Tanto no clube como na família estamos a trabalhar para que não se desvie", disse em declarações à Rádio Marca logo após o jogo com o Real Madrid. Já à agência EFE, o pai de Luka pediu parcimónia na hora de comparar o filho com Messi: "Não gosto dessas comparações. É trazer uma pressão descomunal a um rapaz de 15 anos. Ele é o Luka e tem o Messi, um futebolista único, consagrado, histórico, como um espelho para aprender. Como pai fico feliz, mas é melhor deixar passar todo este ruído. Mesmo tão novinho, ele luta e sacrifica-se muito pelo sonho de ser futebolista".

O futuro

Com o Maiorca a lutar pela permanência na primeira divisão espanhola, o clube fica agora numa encruzilhada: por um lado, colocar nos ombros de um menino de 15 anos a responsabilidade de ajudar a equipa a não descer pode não ser o melhor caminho; por outro, o clube quer valorizar o jogador, impedindo que saia por trocados, como aconteceu com Marco Asensio, que em 2014 trocou o Maiorca pelo Real Madrid por menos de 4 milhões de euros.

Outra guerra que poderá envolver Romero é a guerra das seleções. Nascido no México, de família argentina e a viver desde muito novo em Espanha, o médio atacante pode jogar por qualquer uma destas três nações. Para já, parece mais inclinado a escolher o sangue.

"Toda a minha família é argentina e o meu sonho é jogar pela Argentina", frisou numa entrevista à federação do país em 2018. Um ano depois, foi um dos eleitos da Argentina para o campeonato sul-americano sub-15, no Paraguai, tendo ajudado a seleção a chegar à final. Mas até chegar à idade sénior, tudo pode mudar.