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O especial Liverpool é campeão inglês, 30 anos depois

Desde 1990 que o Liverpool não ganhava a Premier League e este seria um título sempre especial, que ainda mais único se tornou pela paragem imposta pela pandemia, pelos adeptos que já não podem estar nos estádios e, agora, por a conquista ter sido garantida por uma derrota (2-1) do Manchester City, o maior adversário do Liverpool nos últimos anos, em casa do Chelsea

Diogo Pombo

Shaun Botterill/Getty

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2-1, o Manchester City perde, o Chelsea ganha, matematicamente se torna impossível que o maior rival das épocas mais recentes, que o adversário que lhes roubou esta alegria, faz agora um ano, e por um ponto, não tenha mais pontos de sobra para impedir os jogadores do Liverpool de, algures entre sofás, televisões, cervejas, champanhes e casas separadas pelas regras do confinamento, estarem neste momento a celebrar um muito especial título de campeões ingleses, 30 anos depois dos seus antepassados no clube o terem feito pela última vez.

Especial seria sempre, tão regrado e sem adeptos que está no estádio, e tão interrompida que foi por um bicho microscópico e virulento que suspendeu a vida no mundo e por arrasto a Premier League, que sem futebol ficou durante dois meses, entregue até a rumores de esta época poder ser considerada nula, sem efeito, quando nos últimos 30 anos nunca tão perto se vira o efeito conquistador a vir, tão avassalador, tão superior, da parte vermelha de Liverpool.

Quando se decidiu suspender a liga inglesa, vamos proteger-nos contra a covid-19 e logo se vê, o Liverpool estava embaladíssimo para o título. Os 25 pontos de vantagem que tinha na liderança tornavam a questão temporal, já não hipotética.

A equipa treinada por um alemão rockeiro, simpático e transparente, e necessariamente revivalista, tinha-os posto cada vez mais próximos de serem campeões de Inglaterra, coisa que não o eram desde 1990 e durante décadas o foram, mais vezes do que qualquer outra equipa, estado de alma que foi uma das primeiras coisas a ser desejada por Jürgen Klopp, em 2015, quando chegou ao clube: "Temos de tornar os incrédulos em crentes".

O interregno com barbas de conquistas fê-los serem ultrapassados pelo Manchester United e assombrados por um certo trauma, passado de geração em geração de equipas, acrescido por certos episódios, sendo o maior deles a escorregadela de Steven Gerrard, em 2014, o capitão de muitos e piores conjuntos antes deste.

O lutador por um título do qual se chegou a aproximar por um par de vezes (também em 2009) mas sempre parecendo ser um lutador a combater no escalão de peso acima - ingloriamente a carregar os outros e a puxá-los para um sobre rendimento coletivo no qual, factualmente, ele seria o único a, de caras, ter lugar na equipa atual.

Esta equipa tridimensionalmente genial e mortífera a atacar uma baliza, porque Klopp logrou atinar Salah, Mané e Firmino e mantê-los atinados uns com os outros para se irem assistindo mutuamente e marcando golos, para dentro da baliza atirarem bolas roubadas pela pressão intensa de toda uma equipa ou vindas de longe, teleguiadas por Trent Alexander-Arnold ou Andy Robertson, os prováveis melhores laterais do mundo no momento e de facto melhor dupla de homens a ocuparem-se da esquerda e da direita da defesa de uma mesma equipa.

Eles integram uma equipa especial num mais do que especial título inglês, que 30 anos depois é do Liverpool e que a história guardará como o campeão inglês daquela vez em que tudo quanto é desporto parou, por momentos, devido a uma pandemia que matou milhões de pessoas no mundo.

Mas este Liverpool seria sempre especial, sempre guardado como uma das melhores equipas deste século, que após uma Liga dos Campeões conquistada e outra perdida foi capaz, finalmente, de recuperar o título pelo qual uma cidade ansiava há muito.

Recuperou-o com 86 pontos conquistados de 93 possíveis, uma equipa a divertir-se no seu estado supra-sumo que, para já, só perdeu um jogo no campeonato (e apenas em fevereiro) e, agora aliviada de um obeso peso de três décadas, embalada está para somar mais do que os 97 com que terminou a última Premier League, talvez até superar os 100 com que o Manchester City terminou, em 2018.

Tão malfeitora que a equipa de Pep Guardiola lhes foi na época passada e tão benfeitora sem intenção que acabou por ser agora, a oferecer-lhes um título com o Liverpool em casa e, repetindo, mais especial fica - a falta de tantos excelentes jogadores em simultâneo com um excelso treinador deu-lhes os 30 anos de espera, a pandemia tirou-lhes os adeptos do estádio, o City roubou-lhes a oportunidade de assegurarem a conquista juntos, no campo.

Tudo congeminou para dar ao Liverpool campeão europeu, e do mundo, um título mais do que especial. O de campeão de Inglaterra.

  • [vídeo] A festa socialmente pouco distante dos adeptos do Liverpool

    Futebol internacional

    Os adeptos do Liverpool estão a festejar o título nas ruas da cidade e, se no início da noite o campeonato foi celebrado nos carros e com a devida distância de segurança, mais tarde os adeptos acabaram por se juntar nas imediações do estádio Anfield Road. O mayor de Liverpool tinha pedido que os adeptos festejassem em casa mas, apesar das restrições devido à pandemia, muitos foram fazer a festa do primeiro tiítulo - ao final de 30 anos - em Anfield Road