Tribuna Expresso

Perfil

Futebol internacional

14 anos depois, ingleses lembram o piscar de olho de Cristiano Ronaldo após a expulsão de Wayne Rooney

O gesto do português nunca foi esquecido pelos adeptos e pela imprensa inglesa. Foi num Portugal-Inglaterra do Mundial 2006 que Rooney foi expulso por pisar Ricardo Carvalho, depois de Ronaldo protestar com o árbitro. Mas o pior veio a seguir, quando as câmaras apanharam o madeirense a piscar o olho para o banco da seleção portuguesa

Carlos Luís Ramalhão

Mike Egerton - EMPICS

Partilhar

O jornal inglês “Daily Mail” recuou hoje até ao dia 1 de julho de 2006 para lembrar um gesto de Cristiano Ronaldo que quase o levou à forca num país onde estas ousadias raramente são perdoadas. Aparentemente, esta foi perdoada mas não esquecida. Aquele piscar de olho do jovem português que brilhava no Manchester United, depois de ter feito com que o companheiro de clube e adversário de seleção, Wayne Rooney, fosse expulso, ficou na memória em loop e com zoom.

Os ingleses lembram uma seleção cheia de talento – Wayne Rooney, David Beckham, Steven Gerrard, Frank Lampard, Rio Ferdinand, John Terry, Ashley Cole, etc. – comandada por Sven-Goran Eriksson. Mais uma vez, os peitos pálidos dos adeptos tinham-se enchido de força para apoiar a equipa que sonhava com a reedição do Mundial de 66. Portugal acabaria por impedir a caminhada de Inglaterra nos penaltis.

No entanto, desse dia, não é das grandes penalidades que os ingleses mais se lembram. Dois dos melhores jogadores do mundo, que atuavam no mesmo clube, o dominador Manchester United, protagonizaram o episódio que os portugueses esqueceram facilmente e que os britânicos foram buscar ao baú das lembranças azedas.

Wayne Rooney estava em baixo de forma, vinha de um jogo pouco conseguido e a sua paciência estava quase esgotada. Tinha pela frente Ricardo Carvalho, o que não ajudava. O “Daily Mail” lembra que Rooney pisou o defesa português “na mais sensível das partes” enquanto este estava no chão.

Mesmo ali ao lado, um Ronaldo com cara de criança protestava com todas as forças, pressionando o árbitro Marcelo Elizondo. Furioso, Rooney empurrou o companheiro de equipa. O juiz não demorou a expulsar o inglês, que se juntou ao pequeno grupo de jogadores da sua seleção a terem visto o cartão vermelho em fases finais de campeonatos do mundo. Apenas Ray Wilkins, em 1986, e David Beckham, em 1998, tinham conseguido esse feito.

Enquanto Rooney se encaminhava para os balneários, “humilhado e desesperado”, as câmaras apanharam Ronaldo a piscar o olho para o banco português. A partir daí, o pisão de Wayne Rooney a Ricardo Carvalho desapareceu do mapa e foi encontrado o bode expiatório perfeito para mais um falhanço desportivo.

“Os fogos da frustração e da injustiça – Inglaterra foi a melhor equipa nesse dia e seria capaz de muito mais – foram atiçados pela admissão arrogante de culpa de Ronaldo,” escreve o “Daily Mail”. “Ele tinha convencido o árbitro de que Rooney tinha de ir, roubando Inglaterra da sua estrela. Não tinha sido apenas isso; tinha traído o seu companheiro de clube,” prossegue o jornal, acrescentando que “na verdade, Rooney mereceu o cartão vermelho”.

Para “piorar” as coisas, foi Cristiano a marcar o penalti decisivo, que haveria de mandar Inglaterra para casa. O piscar de olho doeu ainda mais e no dia seguinte as manchetes crucificavam o jovem madeirense, chamando-lhe “winker”, um trocadilho entre “wink”, que significa “piscar o olho” e uma outra palavra que significa “idiota” na melhor das hipóteses.

Desde então, Ronaldo admitiu que teve medo de voltar a Inglaterra, o país onde vivia e trabalhava. Em entrevista à “Goalhanger”, o português disse: “Os média criaram um grande drama que nunca existiu. Quando eu regressei a Inglaterra, tinha algum medo, não por causa de Rooney, mas por causa dos adeptos ingleses”.

E falando da piscadela, Ronaldo afirmou: “Fizeram uma grande história do facto de eu ter piscado o olho mas isso não aconteceu por causa do Rooney, era uma outra situação”. Entretanto, correu muita água – e muita tinta – e os jogadores reataram uma amizade que tinha começado pouco antes do episódio. “É passado, tive uma conversa com Rooney quando regressei a Manchester. Ainda hoje somos amigos, falámos sobre isso e ele percebe o meu ponto de vista,” disse Ronaldo.

O próprio Wayne Rooney admitiu: “Eu sabia que era cartão vermelho”. “Vi o resto do jogo no balneário, numa televisão pequena,” lembrou o inglês que viria a tornar-se o melhor marcador de sempre do Manchester United, enquanto Inglaterra continuou – e continua – à espera de um novo Mundial de 66 como Portugal de D. Sebastião.