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'Més que un club', 'més' que uma confusão

O declínio do Barcelona é cada vez mais evidente e não se cinge ao que se passa em campo, bem pelo contrário: o desnorte diretivo afeta cada vez mais o rendimento desportivo e já nem Messi serve para salvar uma equipa desconjuntada e um título que parece já ter escapado para o rival de Madrid

Mariana Cabral

David Ramos

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Quando, à meia-hora do Barcelona-Atlético de Madrid, o árbitro interrompeu o jogo para os jogadores beberem água, a vida, aparentemente, ainda não corria assim tão mal para os catalães. É certo que o 1-1 não interessava na luta pelo título, mas a entrada em campo, particularmente a do jovem Riqui Puig que, aos 169 centímetros dos seus 20 anos, baila entre uma espécie de sósia de Xavi imbuído com laivos de Iniesta e pozinhos de Messi, deixava o ambiente esperançoso.

Pelo menos até os jogadores começarem a beber água.

Não, desta vez ninguém fez cara feia ao (demasiado?) expressivo Eder Sarabia, nem pareceu estar, como se diz em bom futebolês, com azia. Mas estavam, ao contrário do que acontecia no banco oposto, cada um para seu lado.

A imagem é, afinal, exemplificativa daquilo que é o Barcelona hoje em dia: um por todos - habitualmente Messi, com uma (ou duas) mãozinhas de Ter Stegen - e todos por si próprios, começando por uma direção que tem somado disparates nas decisões e demissões nos gabinetes, passando por um plantel curtíssimo com uma série de jogadores que já não vão para novos e acabando num treinador que não foi nem a primeira nem a segunda escolha para o cargo, depois da saída de Ernesto Valverde.

Com cinco jornadas ainda por disputar, dificilmente o Barcelona conseguirá ser novamente campeão: o Real Madrid tem um ponto de vantagem e ainda recebe esta noite (21h, Eleven) o Getafe. Depois do empate com o Atlético de Madrid (2-2), Busquets já falava em lutar "enquanto fosse matematicamente possível", que todos reconhecemos como o cliché que é repetido pelos perseguidores quando já não há nada a fazer.

David Ramos

A gestão de Josep Maria Bartomeu, presidente desde 2014, quando Sandro Rosell abandonou o cargo, nunca foi propriamente brilhante: foi implicado no caso de corrupção sobre a compra de Neymar ao Santos; foi acusado por vários ex-jogadores, como Puyol, de desvirtuar a formação do clube; e teve de assumir o 'Barçagate', a revelação de que contratou uma empresa que se dedicava, nas redes sociais, a criar contas falsas para proteger a imagem do presidente e atacar outros dirigentes, e até jogadores, do próprio clube - o caso acabou com seis demissões na direção e um deles, Emili Rousaud, disse mesmo que havia corrupção dentro do Barcelona.

Desportivamente, a gerência também não foi melhor: Neymar ia ser o substituto de Messi mas acabou a ser vendido ao PSG - depois já o queriam de volta, mas não havia dinheiro; a contratação mais cara, Philippe Coutinho, não teve sucesso e acabou emprestado ao Bayern de Munique; o segundo mais caro, Ousmane Dembélé, passa a vida no posto médico; e o terceiro mais caro, Antoine Griezmann, bom, entrou em campo frente à sua ex-equipa, o Atlético, em cima do apito final.

E isto num plantel curtíssimo, cujos únicos verdadeiros reforços são Riqui Puig e Ansu Fati - Martin Braithwaite também reforçou a equipa em fevereiro, mas apenas pela sucessão de lesões na frente de ataque, já que dificilmente se veria o dinamarquês no Camp Nou de outra forma.

Para compor a salganhada, antes de fechar o exercício financeiro da época - a 30 de junho, portanto -, a direção despachou Arthur, 23 anos, para a Juventus, a troco de €72 milhões e de Miralem Pjanic, 30 anos.

Planos para o futuro, ou para um pós Messi (que marcou o golo 700 frente ao Atlético), 33 anos, Piqué, 33 anos, Suárez, 33 anos, e Busquets, 31 anos? Nenhum, aparentemente.

O que nos leva a Quique Sétien.

David Ramos

Os 18 jogos que o treinador de 61 anos já leva em Barcelona têm todas as condicionantes prévias já referidas, o que não facilitaria o trabalho de ninguém, mas a entrada de Setién enquanto terceira ou quarta escolha da direção - Koeman e Pochettino terão rejeitado as sondagens que receberam - também não ajudou a aumentar a influência no balneário.

Quando Ernesto Valverde saiu, em janeiro, o diretor desportivo Eric Abidal culpou os jogadores, com Messi a insurgir-se publicamente contra as palavras do ex-colega, contrariando-as. Agora, parece mesmo haver problemas com a equipa técnica, particularmente com o adjunto Eder Sarabia, cuja postura explosiva no clássico frente ao Real Madrid já tinha sido criticada, antes da suposta zanga com os jogadores no balneário após o jogo com o Celta de Vigo.

Mais: Setién disse que não se iria "desculpar" por não ter colocado Griezmann em campo mais cedo frente ao Atlético (explicou que não quis "desestabilizar" a equipa) e o pai do internacional francês adicionou a sua voz ao coro de críticas pela decisão. "Para pedir desculpa há que ter a chave do camião e este não é o caso dele, porque ele é um simples passageiro", disse Alain Griezmann.

"Não tenho problema em admitir que esta é uma situação nova para mim e estou num daqueles momentos em que se descobrem muitas coisas. Passo a passo fazemos o que queremos fazer. Todos temos de dar um pouco de nós, incluindo os jogadores, para o bem da equipa", admitiu esta semana Setién.

"Isto é uma equipa e temos de agir como uma".