Tribuna Expresso

Perfil

Futebol internacional

Temos seriamente de falar sobre Bruno Fernandes

O médio foi, pela segunda vez, o melhor futebolista do mês da Premier League e imitou gente como Cristiano Ronaldo, Dennis Bergkamp e Robbie Fowler. E se o maior mérito de Bruno Fernandes não for apenas os golos e as assistências?

Hugo Tavares da Silva

PETER POWELL

Partilhar

Não consta que a rainha esteja com medo de perder a coroa, mas, até para não ferir suscetibilidades, digamos que Manchester tem um novo patrão. Na terra de Bobby, George, Éric e Cristiano, há um novo mandachuva. E o dicionário, sobre essa curiosa palavra, diz que se trata de alguém “importante”, que “tem poder para dar ordens a outras pessoas do mesmo grupo". E é isso que Bruno Fernandes faz, sem falar, mostrando o que é mentalidade, o que é compreender um grupo e puxá-lo para cima, o que é liderar pela coragem. Com a bola.

Bruno Fernandes, de 25 anos, foi eleito, pela segunda vez consecutiva, o melhor futebolista do mês da Premier League. Curto e grosso, resume-se a isto: um jogador do Manchester United não fazia algo do género desde novembro e dezembro de 2006. O senhor que o fez foi Cristiano Ronaldo, o sucessor de George Best e David Beckham. Se alargarmos esta história ao treinador do mês, pois bem, outro português: Nuno Espírito Santo, do Wolves, foi eleito o melhor em junho. Os lobos estão em sexto lugar, a seis pontos do United de Solskjær e a sete do Leicester, o primeiro em vaga de Liga dos Campeões.

Mas voltemos a Bruno Fernandes, o número 18 dos red devils que seguramente terá um número mais sedutor na próxima época. E tudo o que lhe está a acontecer não pode ser surpresa para ninguém, pelo trajeto improvável e ambicioso que começou no Novara, terra de hóquei, e que culminou numa época gloriosa no Sporting Clube de Portugal, onde superou Frank Lampard e se converteu no médio mais goleador da história do futebol, com 32 golos. Para equilibrar esta espécie de conto de fadas, Pizzi celebrou na quinta-feira, contra o Famalicão, o 29.º golo da época: estará a coroa de Bruno em perigo?

Recuperemos, à boleia de um perfil do futebolista do United escrito na Tribuna Expresso, as palavras de quem o conhece: “O Bruno é um rapaz normal, divertido e muito acessível”, começou por dizer Mário, um amigo de infância com quem jogou vários anos no Boavista. “É muito ligado à família e amigos. É atento às pessoas que o rodeiam. É sincero, muito frontal. Tem uma personalidade forte, é muito trabalhador e determinado.”

Encaixa no que vemos em campo.

Quando dividia a formação entre Boavista e Pasteleira, encontrou no clube do Bessa um treinador chamado Abílio Novais, um ex-futebolista que na galhofa revelou o seguinte: “Não lhe ensinei muita coisa, que ele já sabia muito, pá. Era um miúdo extraordinário. Tinha muita vontade. Gostava de aprender, de ir treinar. Ia com alegria e paixão”. Outra vez: é tudo o que vemos em Old Trafford. O homem que venceu um campeonato em 89/90 pelo FC Porto e, já agora, pai de João Novais continuou: “Ia treinar às 14h. Estava lá no estádio com um guarda-redes e o meu adjunto, o Petronilho. ‘Fogo, mister, treina mais do que sei lá o quê’, dizia-me o Petronilho. Tinha paixão pelo jogo, uma enorme vontade para chegar a profissional. Sempre foi exemplar e uma excelente pessoa”.

Pool

Como as dores de crescimento são previsíveis na formação e as necessárias pequenas derrotas pessoais contribuem para o caráter, Abílio Novais contou-nos ainda um episódio que ajuda a definir Bruno. “Uma vez meti-o a chorar”, soltou então uma gargalhada. “Foi um jogo qualquer, talvez com o Varzim, aqui no Bessa. Era daqueles dias em que ele não passava a bola a ninguém. Gostava de fazer tudo. Estava com isca, como a gente diz. Eu estava suspenso, a ver o jogo no camarote. A palestra, ao intervalo, foi só para ele. Aquelas coisas que um treinador diz: ‘Vais já com o … [deteve-se]. Quase 10 minutos. Ele começou a chorar e eu disse-lhe ‘agora vai lá para dentro e vê se começas a jogar direitinho com os teus colegas’. Fez uma segunda parte excecional”.

De acordo com a Sky Sports, Bruno Fernandes esteve, desde 1 de fevereiro, envolvido em 13 golos da nova equipa. Ninguém o supera. Em junho, pós-confinamento e após a pausa angustiante, o português juntou a exibições importantes a golos ao Brighton (2) e ao Tottenham, de José Mourinho. A concorrência para craque de junho era composta por Anthony Martial, colega no United, Raúl Jiménez (Wolves), Conor Coady (Wolves) e Allain Saint-Maximin (Newcastle). Para além da distinção em dose dupla, chega uma terceira: ganhou o golo do mês com o lance em baixo, diante do Brighton & Hove Albion.

Estes dois meses (fevereiro e junho), coroados como o melhor numa liga com jogadores extraordinários, permitiram a Bruno Fernandes juntar-se a nomes como Mohamed Salah, Jamie Vary, Harry Kane, Cristiano Ronaldo, Dennis Bergkamp e Robbie Fowler, que fizeram o mesmo.

O rapaz que em tempos idos, na Udinese, tirou do sério Antonio di Natale - “irrita-me porque é jovem e é o que tem mais qualidade entre todos nós, tem uns pés incríveis, mas acomoda-se” - já ganhou o coração dos que destilam amor pelo Manchester United. E não só: ver Paul Pogba em sintonia com ele, cúmplices, nas festas dos golos, nos sorrisos, nas jogadas, no aparente ego esvaziado e diluído para uma causa maior, pode ser o maior sinal de todos para um regresso do United para o qual se suspira há demasiado tempo.

Futebolista do mês da Premier League 2019/20

Agosto: Teemu Pukki (Norwich)
Setembro: Pierre-Emerick Aubameyang (Arsenal)
Outubro: Jamie Vardy (Leicester)
Novembro: Sadio Mane (Liverpool)
Dezembro: Trent Alexander-Arnold (Liverpool)
Janeiro: Sergio Aguero (Manchester City)
Fevereiro: Bruno Fernandes (Manchester United)
Junho: Bruno Fernandes (Manchester United)