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A liga espanhola à la Madrid

Podia ser Hala Madrid, como festejam eles e não festejarão agora os adeptos, a quem a pandemia fecha as ruas, mas o título de campeão espanhol é do Real muito porque um certo treinador francês voltou o verão passado ao clube e vendo todos nós como, mas não sabendo bem como, voltou a atinar um grupo de jogadores para alguns se apresentarem, de novo, a um nível muito bom e, sem nunca serem geniais, ultrapassarem um Barcelona moribundo

Diogo Pombo

GABRIEL BOUYS/Getty

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Olhando para ele, apenas mirando-o de fora, é um tipo indecifrável. Já o era em campo, a magicar percetíveis embora incompreensíveis coisas com a bola, às vezes alquimias inalcançáveis para quem fosse o outro jogador nomeado como capaz de executar o mesmo. Decifrar como, e porque raio, se lembrava ele de fazer aquela receção orientada, aquele passe sem olhar, o drible simulatório para enganar outra pobre alma, era um berbicacho.

Mas, há 14 anos, Zinedine Zidane chorou, era a prova de ser humano de emoções, ei-lo de braço no ar a agradecer as palmas, olhos empapados pelo motivo dos aplausos: a sua despedida do Real Madrid e prenúncio de final de carreira, que chegaria dali a quase dois meses, em 2006, fechado com ira, outra descarada e decifrável emoção tão humana que embateu com a sua careca no peito de Marco Materazzi.

Os dois momentos mais humanizantes de Zidane foram os últimos que, em respetivo, mostrou na carreira de jogador de clube e de seleção. Tinha 34 anos. Foi à vida dele, polvilhou-nos a alegria com a ocasional aparição em jogos de solidariedade para lhe decifrarmos que ainda estava aí para as curvas e, quase sem darmos por isso, tornou-se treinador.

Um treinador restaurador, para ele próprio, da aura de indecifrável que, mais uma vez, se reforça agora com a conquista de mais uma liga espanhola com o Real Madrid do qual foragiu elegantemente, há dois verões, alegando que o clube necessitava "de outro discurso, outro método" e era “o momento certo, para o bem de todos”.

Não o foi.

O universal clube dos galáticos jogadores conquistara três Ligas dos Campeões seguidas com Zidane e moribundo se tornou sem ele, o magicador de algo para levar jogadores-estrela pagos que nem realeza e ganhadores de tudo a continuarem a ganhar. Quando se foi embora, com ele levou a cola que fazia Karim Benzema, Isco, Carvajal, Sergio Ramos ou Luka Modric a jogarem nos píncaros do seu nível futebolístico.

Os dois últimos estão, agora, também com 34 anos.

Eurasia Sport Images

Do espanhol, um dia antes de o Real garantir este título, apareceu nas redes sociais uma foto em pose gladiadora, adornado apenas com calão, meias e chuteiras, todo ele vincado no corpo por músculos definidos que o definem tanto quanto os cortes, corridas para abafar a profundidade, desarmes e golos que ajudaram a manter a equipa no topo da liga espanhola.

Do croata, talvez o mais agoniado dos futebolistas durante a época passada, que arrastou um fantasma seu de Natais passados com exibições que lhe apontaram todos os maus-dedos de estar velho, ultrapassado e acomodado, voltaram a ver-se jogos do médio opressor de jogo, sempre a ligar passes e tabelas de área a área, ordenando a equipa pela bola quando não lhe basta ter o acerto do estático Toni Kroos a passá-la.

Ambos, e sobretudo Modric, reencontraram a forma galática (por bons motivos) de outrora e engatilharam o Real Madrid no retorno à competição no pós-confinamento: nove vitórias, única equipa a vencer todos os jogos, a não sofrer golos em seis e, à terceira dessas vitórias, ultrapassar o Barcelona adúltero a si próprio, não só ultra dependente de Lionel Messi, mas, pior ainda, demasiado inexistente em todas as fatias de jogo para o argentino ser capaz de herculeamente os resgatar.

A murchidão do Barça que toda a gente decifra, às claras, contrapõe a sua cadência à recuperação que o Real Madrid fez da que o afetou a temporada passada e, em certa medida, ainda esta, quando uma pandemia ainda não tinha carregado no botão de reiniciar.

Soccrates Images

Do confinamento irrompeu uma equipa a querer ficar para lá do horário de fecho dos treinos, “com os jogadores a quererem fazer muitas coisas”, disse Zidane, dizendo que isto diz tudo sobre eles, o conjunto de futebolistas cujo esteio tem sobretudo trintões, ou lá perto, tipos a quem se julgava estar a ver uma falência semelhante à que atormenta os rivais do Barcelonas, mas que, afinal, têm manifestado versões muito boas, se não as melhores, de si mesmos.

O mais evidente dos casos é a soltura de Karim Benzema, avançado só no quadro tático pregado à parede do balneário. O francês tem redefinido a posição com o que tem jogado: jamais estático, sempre a fugir a marcações, a espalhar o seu mapa de ação por todo o campo para se dar ao jogo e fazer jogar os outros. Aos 32 anos, é o jogador-dínamo que dá soluções de passe e de invenção de jogadas em todo o lado. Foi o melhor do Real Madrid esta época.

Ele já fora dos poucos a manterem-se geniais a época passada e tem continuado a acrescentar a essa genialidade, agora vista, também, porque já lá não mora Cristiano Ronaldo e a Benzema já não se requer que jogue de acordo com qualidades alheias - sim que abuse das suas. “Há muitos anos que tem um rendimento muito bom. Para mim, os meus jogadores são os melhores”, avaliou o diplomata Zidane, ou, ei-lo novamente, o indecifrável Zidane.

À sua maneira serena, pacata e pouco ruidosa, o francês conseguiu reabilitar o Real Madrid, o seu toque não dourou tudo, nem todos, mas melhorou uma equipa que era mais criticada do que elogiada, até pôs Thibaut Courtois, por fim o guarda-redes parador de ameaças e provedor de pontos, como alvo dos bem dizeres.

O Real Madrid é campeão espanhol, é-o pela segunda vez com o treinador francês, é uma conquista com tanto dos jogadores quanto do francês. É um título à la Zidane.