Tribuna Expresso

Perfil

Futebol internacional

Atalanta: defender torna-te invencível, mas se queres ganhar, tens de atacar

O título não é nosso, é de Gian Piero Gasperini, treinador da inspiradora Atalanta que está em segundo lugar na Série A, é bem capaz de praticar o futebol mais prazeroso de se ver na Europa e que se arrisca a bater um recorde de golos com mais de 60 anos. Vai nos 93 marcados esta época, no campeonato italiano, e será uma das equipas a jogar o que resta da Liga dos Campeões, em Lisboa. Os jogos da Atalanta são, provavelmente, os que o analista Rui Malheiro mais vê e nos quais reconhece "muito de Johan Cruyff"

Diogo Pombo

Emilio Andreoli/Getty

Partilhar

Quando Andrea Agnelli nasceu já sortudo era, sem saber. Veio ao mundo em boas famílias, sendo a sorte e o bom aqui relativos a dinheiro, muitos zeros à direita de números que o terão acompanhado na vida. Já transbordava na família quando lhe nasceu o primeiro pêlo na barba, quando se casou, quando foi pai e por aí fora, porque antes já muitos frutuosos negócios os Agnelli tinham, em Turim, começando na Fiat e passando pela Juventus.

E quando, em março, diante de empresários, pessoas de negócios, dirigentes e outros endinheirados títulos reunidos em Londres, na “Football Business Summit”, perguntou retoricamente se era “correto” a Atalanta estar na Liga dos Campeões, argumentou que o clube “não tem historial internacional” e, “de repente”, ganhou “acesso direto à maior competição europeia de clubes” devido a “uma boa época”.

Portanto, o dono de um clube historicamente vencedor e titulado muito porque, desde os anos 40, conta com o dinheiro dos Agnelli para se injetar de meios, como os €100 milhões que lhe deram, há dois anos, Cristiano Ronaldo, criticou o direito de um modesto clube, que durante este período só contratou dois futebolistas (Muriel e Malinovskiy) por mais de €10 milhões, mas menos de €20 milhões, a participar na Champions.

A Atalanta é de Bergamo, uma cidade pequena de Itália, move menos adeptos, patrocinadores, interesse de marcas e contratos televisivos e já entenderam que o sol em torno do qual orbita este e o anterior parágrafo é monetário. O clube é humilde em tudo o que Agnelli deseja para os integrantes de uma suposta Superliga europeia. Mantendo a analogia espacial, se a Série A fosse Saturno e torneada por 20 anéis, a Atalanta seria o 13.º na escala de massa salarial, com os cerca de €36 milhões que vai gastar, esta época.

O que é, factualmente, uma pechincha.

Investir quase o mesmo que a Juventus dedica apenas para não falhar ao salário anual de Ronaldo (à volta dos €31 milhões) vale à Atalanta, de momento, os quartos-de-final da Liga dos Campeões e o 3.º lugar no campeonato italiano, no qual vão com 93 golos marcados em 33 jornadas.

Assim, a pechincharem alegremente contra as balizas dos outros nos cinco jogos que restam, vão por certo ser a equipa mais goleadora deste século em Itália (o Nápoles, em 2017, marcou 94 golos). E podem bem bater um recorde que dura há quase 70 anos, desde que alguma equipa - no caso, até foram três: AC Milan, Inter e Juventus - ultrapassou a marca dos 100 golos.

Foi em 1951, ainda a melhor pessoa que lhes entrou na vida futebolística não era viva.

Gian Piero Gasperini é o treinador da Atalanta há três anos. Grisalho integral no cabelo, é um tipo remoído pelas próprias ideias e obsessões, a quem já aconteceu, a meio da nota, despertar, acender a luz e pôr-se a apontar pensamentos no computador. “Sim, estou sempre a tentar arranjar soluções”, admitiria, ao “The Guardian”.

Ele é o técnico que não suporta a hipótese de ter uma equipa sua encolhida perto da área, à espera que a fortuna lhe sorria nos desleixos dos outros, apenas a fazer o que pode. Não, ele é comichoso com essa postura, “nunca vou acreditar no conceito de esperar pelo erro do adversário”, já disse e jurou, dando palavreado ao que já provara, durante muitos anos, no Génova, onde a Atalanta o foi buscar.

Soccrates Images

Como joga e ataca a Atalanta

O clube, então, tinha uma briga anual com a sola da bota italiana, era uma constante lutar para não descer de divisão, nem a reputação de ter das melhores formações e camadas jovens do país o livraram de sofrer no futebol adulto. Mas, chegado Gasperini, a equipa ficou logo em 4.º lugar em 2017. Um 7.º seguiu-se em 2018, a que se juntou o 3.º da época passada, a melhor classificação da história da Atalanta.

Nestes últimos quatro anos é a equipa que Rui Malheiro mais acompanhou, seja por trabalho ou por carinho, porque é lá que, todas as semanas, se vê a pegada, as ideias e a prática da forma de jogar de Gasperini. Ou “uma identidade, que é isso que a Atalanta tem”, resume à Tribuna Expresso o analista de futebol, frisando a “imprevisibilidade” como o traço geral que mais distingue a equipa.

Deles já se espera, sempre, que joguem em 3-4-1-2, a estrutura mais comum, ou a variante de 3-4-2-1. Nenhum inventou a roda e ambas seriam “fáceis de anular porque estás habituado a quatro anos de trabalho com um treinador a jogar da mesma forma”, mas, aí, surge a reinvenção do treinador.

Gasperini está “sempre a encontrar soluções novas”, elogia Rui Malheiro que, por exemplo, não se recorda de, na primeira época, se ver na Atalanta um dos centrais, às vezes até dois, a saírem com a bola, em condução, aventurando-se no espaço para atraírem um adversário e, com isso, convidarem a que se abram metros de relva algures nas suas costas e “com isso criar ainda maior superioridade no corredor da bola”.

O analista e, também, comentador da RTP considera “fantástica” a capacidade da Atalanta “para atacar nos três corredores”, esmiuçando-a: “O jogo interior é forte, claramente, mas são capazes, constantemente, de criar desequilíbrios por fora, associando ala, interior e avançado/médio ofensivo que cai sobre o flanco. Portanto, tens sempre três jogadores, mais um, do lado da bola”.

E esse mais um, estando em campo, costuma ser Papu Goméz.

O argentino, diminuto em tamanho e imensurável no futebol que leva dentro, é o dínamo criador da equipa, a inteligência de bola no pé que inventar desequilíbrios para outros os aproveitarem, perto da baliza, porque é um 10 ou segundo avançado, mas participa em todo o campo.

Está em qualquer fase de jogo, nos espaços entrelinhas que a equipa cria para o seu “jogador crucial”, a quem Rui Malheiro dedica uma pergunta: “Qual é a equipa no futebol mundial que é capaz de transformar o 10, ou segundo avançado, no jogador que vem fazer de terceiro jogador para fazer a saída na primeira fase de construção?”.

Daí, explica, que se vejam os centrais da Atalanta a procurar “atrair um médio adversário”. Ou como Papu Goméz também analisou, ao "El País", a Atalanta joga com três centrais que, estando a equipa em posse, são dois, porque "o que sai com a bola sempre acaba por atacar em busca da superioridade numérica".

Soccrates Images

E, depois, como defende

A Atalanta é constante fluxo de ataque, muitas vezes com oito, nove jogadores a aparecerem nos últimos 30 metros do campo, todos envolvidos na jogadas, toda a gente não estática, não dada a marcações e a baralhar tudo o que possam ser referências para a equipa adversária se defender.

Os dois médios centros - “jogadores de classe mais média” -, como o sempre auto-jocoso De Roon, ou Freuler, muito aparecem encostados às alas, a formarem os tais losangos para a equipa sair da pressão. Duván Zapata, por norma o avançado (posição que vai dividindo com Luis Muriel), nunca se fixa entre os centrais contrários e quase sempre espera por passes entre a frente do lateral e as costas de um central - ganhando a frente a um, mantendo-se no lado cego do outro e logo orientando o corpo para finalizar.

Depois há a calma mestre do pé esquerdo de Ilicic com bola, perto da área, e as receções e passes de Papu Goméz em todo o lado, orquestradores-mor dos ataques da Atalanta que já goleou em 15 dos 33 jogos da Série A: marcou três golos em sete, quatro em dois jogos, cinco também em dois e sete golos em três partidas. Na mais recente, fez meia dúzia (6-2) ao Brescia. Só ficou em branco em dois jogos, ambos em novembro.

Por tantos, sempre e ao mesmo tempo, a participar na investida à baliza, a Atalanta defende da maneira que é inegociável para Gasperini: “Tens que tentar roubar a bola para atacar”. Mesmo com ambos laterais projetados em todas as jogadas - é um deles, quase sempre, que está nas costas de Zapata, na área, na finalização dos ataques -, a equipa tem uma “reação fortíssima à perda da bola” fruto dos “muitos jogadores envolvidos no processo ofensivo”.

Quando não recupera a bola nos dois, três segundos após a perder, Rui Malheiro detalha que, mesmo não fazendo marcações ao homem, a Atalanta tem referências individuais das quais os jogadores, por vezes, até abusam: “Se um adversário aparece em determinado espaço, o jogador que lá estiver persegue-o, de vez em quando até de forma excessiva”.

Emilio Andreoli/Getty

É sobretudo sem bola, aliás, que o analista descortina coisas de Johan Cruyff nos princípios que Gasperini pôs os seus futebolistas a seguirem. “Todos os jogadores têm um espaço que ocupam, o que não implica que seja sempre o mesmo a ocupar esse espaço, tem é de estar alguém a ocupá-lo. Tem muito de Johan Cruyff. O Gasperini é muito colado ao que era ao futebol total do Rinus Michels, quer ao Ajax, quer à Holanda de 1974”, defendeu.

Tudo junto e maturado ao longo de quase quatro temporadas, nunca estagnando e evoluíndo a toda a hora, dizendo Gasperini a quem treina, pelas suas palavras, que “nunca perdem, ou ganham ou aprendem”, é em Bergamo, cidade-berço do coronavírus em Itália, onde morreram mais de 6 mil pessoas, que tem residido o futebol mais bonito, acutilante e entusiasmante de ser ver em Itália.

A Atalanta ainda não ganhou títulos com Gasperini, o treinador, de 62 anos, nunca sequer os ganhou na carreira, mas, sempre que jogam, ganha o futebol por o fazerem desta forma - brava, descomplexada, atacante e sem receios, a arriscarem pelo que podem conseguir em vez de temerem pelo que podem perder. “Há muito arrojo nisto e por isso Gasperini transforma qualquer jogador em melhor do que aquilo que é”, resume Rui Malheiro, deleitado pelo que vê e analisa deles, a cada semana.

E, para resumir a identidade da equipa modesta que vai a sete pontos da rica Juventus, na Série A, e que, com eliminatórias a um jogo, fica com a balança menos desequilibrada na Liga dos Campeões que virá disputar a Lisboa, com os seus jogadores cuja qualidade per capita é inferior à de quase todos os adversários da prova, Gasperini usa uma frase da “Arte da Guerra”, de Sun Tzu:

“‘Defender torna-te invencível, mas se queres ganhar, tens de atacar’. Isso resume o espírito e mentalidade que quero que a minha equipa tenha.”