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Um Sarrismo assim-assim, com uma ajuda do Ronaldismo do costume, fez da Juventus campeã

A Juventus só foi, a espaços, uma equipa de Maurizio Sarri, tendo solavancado mais do que se esperaria no estilo de jogo que o clube contratou ao ir buscar o treinador italiano e garantiu a conquista desse título pela nona época consecutiva - selou-a este domingo, com um triunfo diante da Sampdoria (2-0). Com um Cristiano Ronaldo a marcar quase tantos golos quanto os 35 anos que já tem, e que não o parecem estar a abrandar

Diogo Pombo

ISABELLA BONOTTO

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O esperado eram purpurinas estilísticas, grandes adornos em campo, o futebol a ser tela e todos na equipa com o seu pincel genial, a unirem traços esbeltos e embelezados pela irrequieta figura sentada no banco, aquele tipo de membros esguios mas de farta pança, nervoso por ter de mascar qualquer coisa a cada minuto para lhe distrair o desejo por cigarros e, porque é preciso, focá-lo apesar da distração que tem mesmo à frente.

Maurizio Sarri era, desde o início, um casamento desnaturado com a Juventus. Fazia sentido, mas não no sentido certo; era o cume da ordem natural de uma escalada, porventura não da montanha mais apropriada para ele escalar.

Chegava ao mais ditatorialmente vitorioso clube de Itália – endinheirado até às entranhas pela família que o sustenta, munindo-a sempre com a maior densidade talentosa da Série A e tendo os oito títulos seguidos em riste – o treinador que passara três anos em Nápoles a lutar romanticamente contra esta força. Porque de romanticismo se vestiu Sarri, há muito, mesmo que não por vontade própria, mas pela dos outros, de quem o foi acompanhando de fora.

Ele era o bancário, ávido tabagista, desistente da carreira engravatada por uma paixão de fato de treino, que começou nas catacumbas do futebol e foi subindo até ao Empoli, com o qual chegou à primeira divisão com 55 anos, careca, enrugado e envelhecido por fora, mas todo ele rejuvenescido por dentro para, durante as três épocas que se seguiriam com o Nápoles, dar à Série A o futebol mais atacante, goleador, e bonito de se ver enquanto os seus jogadores se divertiam em campo.

Os méritos levaram-no ao Chelsea, onde liderou pela primeira vez contra egos estrelados. As crispações com o seu temperamento, diz-se, complicado e ultra exigente, foram aparecendo para minar um estilo de jogo que solavancou ao longo da época, acabou com a conquista da Liga Europa, mas que não evitou o fim da aventura - e o aproveitamento da Juventus.

Factualmente, correu bem. A Juventus é este domingo campeã de Itália, depois de bater a Sampdoria (2-0), e assim vão nove títulos consecutivos, em Turim já parece ser a morada oficial do scudetto. Mas indo, no verão passado, buscar a ideia que apontava o treinador italiano como responsável por colocar equipas a jogar com bola o futebol mais dominador, as coisas não terão acontecido com o fogo de artifício que se esperaria.

Ganhou (para já) 26 dos 36 jogos feitos na Série A, apenas perdeu cinco, marcou mais golos em relação à época anterior - até a Opta registou que, pela primeira vez, a Juventus fez pelo menos dois em 11 partidas seguidas, um recorde - e portanto esta é uma equipa que será recordada por várias coisas, mas não propriamente pelo que produziu em equipa.

Claro está que teve um Cristiano Ronaldo a desafiar a idade, a magicar cada vez melhor a fórmula para se adaptar às decadências inevitáveis do corpo, centrando-as cada vez mais para se aprontar a fazer golos - são 31 na Série A e 35 esta época - sem as gastar em outras coisas longe da baliza adversária.

Nicolò Campo/Getty

Aí o campo era para Paulo Dybala, o argentino de pé esquerdo também goleador (11 marcados no campeonato) embora muito mais desembaraçador de problemas, oferecendo as suas receções e tabelas à equipa por dentro, no centro do campo, onde deixa sempre os outros de frente para a baliza ou dali parte para levar jogada perigosas até ao raio de ação do português – o íman que torna o perigo em coisa letal.

Mas esse processo, onde cabe o génio de Dybala, os passes certos de Pjanic ao lado dos de Bentacur, quando não eram De Ligt, ou Bonucci, a desmontarem a organização defensiva dos adversários com saídas de bola luxuosas para qualquer equipa ter nos defesas centrais, nunca foi, com constância, um processo reconhecidamente de Maurizio Sarri.

A equipa foi ganhando jogos, marcando golos, fazendo o que os nomes lhe competiam cumprir, mas com demasiadas fases em que era à força do talento individual, rasgos deste ou daquele, e não com base no jogo de passes verticais pelo centro.

Por demasiadas vezes não se viram na Juventus muitas opções simples para simplificar um jogo em que o mais difícil é jogá-lo dessa forma, mas que, a Sarri, já se associa que as equipas por ele treinadas o farão de forma natural. Como o tem feito, por exemplo, a Atalanta, onde está o plantel a quem o salário anual de Ronaldo quase chega para pagar a toda a gente. O mesmo plantel que mais ameaçou roubar a nona alegria seguida à Juventus com o futebol mais concretizador que se vê em Itália.

Foi mais tortuoso e não tão bonito quanto se esperava. O clube que conquista, quase por obrigação, a Série A a cada nova moeda inserida na máquina, perdeu a Supertaça de Itália em dezembro, contra a Lazio , e a Taça frente ao Nápoles, nos penáltis, em junho. A depender de jogos singulares, a equipa é falível. A confiar nos 38 partidas do campeonato, a qualidade que tem por cada par de pernas garante-lhe soluções para grande parte dos problemas que lhe causem.

A Juventus não é essa máquina passadora de futebol atacante, nem carbura uma linha defensiva alta com a pressão altíssima e intensa na posse de bola do adversário que se habituou a esperar em equipas treinadas por Maurizio Sarri. A transformação, aliás, não seria do dia para a noite, como até Giorgio Chiellini, o capitão, chegou a avisar: “É uma operação longa e complexa. A coisa mais importante na primeira parte da época é cometer erros enquanto se ganha”.

A equipa foi ganhando tentando ser diferente do que era, diferenciando-se à moda do novo treinador, mas foram-lhe acontecendo coisas muito anti-Juventus: após o confinamento, ganhou apenas cinco dos 10 jogos feitos até esta quinta-feira, contra o Sassuolo (3-3) chegou a desperdiçar uma vantagem de 0-2.

A Juventus ainda não se deu ao Sarrismo - o termo foi inserido na Enciclopédia Italiana da Ciência, em 2018 -, nem o executa por completo e constantemente, apenas mostrou flashes da pegada de quem os treina; ainda não joga com a identidade que o clube tanto quis, e ainda quererá, ir buscar, pois o contrato de Sarri vale por três épocas. E os golos de Ronaldo que muito mascaram não vão aparecer, com este volume, para sempre.