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Mircea Lucescu chegou ao Dínamo de Kiev, foi insultado pelos ultras e, quatro dias depois, decidiu ir embora

Esteve 12 anos no Shakhtar Donetsk, conquistou 22 títulos e dominou o futebol na Ucrânia, coisa que fez Mircea Lucescu ser insultado e ameaçado pelos ultras do Dínamo de Kiev, o maior rival, assim que assinou pelo clube, na quinta-feira passada. Quatro dias depois, anunciou a demissão através de um jornal romeno, alegadamente devido "ao ambiente de hostilidade" criado por grupos de ultras da equipa da capital ucraniana: "Não posso aceitar que os próprios adeptos se virem contra os interesses do clube"

Diogo Pombo

Anadolu Agency

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Não é que se confunda, é mais porque se entranha, tantos foram os jogos, os momentos altos, as conquistas, os craques e os anos que passou no Shakthar Donetsk. O entranhamento foi paulatino, mas forte, demarcado cada vez mais à medida que o clube ia colecionando os oito campeonatos ucranianos, as seis taças e sete Supertaças, deixando as migalhas para o outrora dono do pão Dínamo de Kiev, cujo domínio da farinha, água e sal do futebol na Ucrânia era ostensivo até, lá está, a pessoa em questão chegar a Donetsk.

De 2003 a 2016, o clube laranja e preto investiu muitos euros no futebol, apostou-os quase todos numa política de vascular o Brasil por jovens promessas e recrutá-las cedo para a Ucrânia, moldando-lhes o talento, maturando-os com tempo de jogo e vendendo-os quando já tinha conquistado coisas com eles para, ciclicamente, ir mantendo este padrão com Mircea Lucescu a treinar a equipa.

O Shakhtar foi-se tornando a equipa mais dominadora da Ucrânia, até conquistando a Liga Europa, em 2010, e vendendo muito caro os vários muito bons jogadores brasileiros - Fernandinho, Luiz Adriano, Jádson, Willian, Douglas Costa, Fred ou Bernard - que ia recrutando, para darem arte e malandrice ao ataque de uma equipa que se compunha na defesa com futebolistas ucranianos ou de mercados mais a leste. Com tanto sucesso (22 títulos), Lucescu colou o nome ao clube e entranhou, necessariamente, a carreira no Shakhtar.

Quando, na quinta-feira passada, o seu nome foi confirmado como novo treinador do Dínamo de Kiev, essa colagem despertou no ideário futebolístico, se não de toda, com certeza da grande maioria das pessoas. E muitos fizeram questão de demonstrar que não gostaram. Assim que a contratação foi oficializada pelo clube, uma imagem de Lucescu com um cachecol do Dínamo atado com um nó de forca começou a ser publicada em vários grupos de adeptos nas redes sociais.

A mudança era controversa, delicada e polémica, tendo até o clube, nos últimos dias, publicado no site oficial um par de entrevistas com jogadores da equipa acerca do assunto, talvez para tentar apaziguar as críticas dos adeptos. "Isto provocou muitas quezílias e opiniões diferentes, mas, se falarmos apenas de futebol, tenho a certeza que o Dínamo vai beneficiar com a contratação do Lucescu", defendeu o capitão Serhiy Sydorchuk.

Mas as tais quezílias foram demasiadas para o treinador.

Esta segunda-feira, quatro dias após ser oficializado, o "Gazeta Sporturilor", um jornal desportivo romeno, divulgou um comunicado enviado por Mircea Lucescu, no qual o treinador releva que decidiu "desistir de uma possível colaboração com o Dínamo de Kiev", porque "é impossível trabalhar num ambiente de hostilidade, especialmente vindo de grupos de adeptos ultras". Diz o treinador, de 74 anos, que a sua chegada ao Dínamo "não tem nada a ver com o contrato" e o dinheiro era a "última preocupação".

Lucescu explicou que aceitou o convite do clube por querer "provocar entusiasmo e motivação", a ideia era "fazer a equipa regressar ao nível" que a sua "tradição e história" impõem, para "eletrificar as bancadas" e os adeptos. O treinador, de 74 anos, "queria a competição como era há uns anos", competitiva - mas "não [pode] aceitar que os próprios adeptos ajam contra os interesses do clube".

E deixou, também, uma garantia que servirá de contextualização: "Não sou um cobarde. A prova de que aceito desafios desportivos são as minhas transições do Galatasaray para o Besiktas [rivais na Turquia] ou do Dínamo de Bucarest para o Rapid [Roménia], ambos com grande rivalidade entre os adeptos, mas que me acolheram de braços abertos e com quem consegui ganhar títulos nesses países".

O anúncio, para já, não foi confirmado pelo Dínamo de Kiev.