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Lembra-se do que aconteceu na final da UEFA de 98? “Sou Ronaldo, muito prazer em conhecer, eu sou fenómeno Ronaldo Nazário dos Santos”

Vinte e dois anos depois da malandrice de Ronaldo a Marchegiani, o Inter de Milão regressa a uma final da Taça UEFA ou Liga Europa. O Sevilha, que venceu a prova cinco vezes desde 2006, é o rival desta noite (SIC, 20h)

Hugo Tavares da Silva

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Samba para aqui, samba para lá, gol de todas as maneiras. Foi assim por todo o lado: na rua, na escola, na barriga da mãe, sabe-se lá, e depois no Cruzeiro, PSV e Barcelona. Até que, matando de coração os culés, aterrou no Giuseppe Meazza, em Milão, para explicar o que é poesia em andamento num campo de futebol italiano. Foi talvez a mais ruidosa contratação depois de Diego Maradona, nos anos 80.

O avançado brasileiro voava. O drible é ainda hoje motivo de suspiros e viagens ao YouTube, com exceção para os desalmados que lhe chamam “gordo”, claro. Ronaldo vestia a camisola 10 e corria como ninguém, suportando naqueles joelhos uma força e agilidade raras. Nem vale a pena perder tempo a falar de técnica, certo?

Ao plantel do Inter, orientado por Luigi Simoni, não faltava qualidade. Pagliuca, Zanetti, Bergomi, Winter, Nicola Berti, Djorkaeff, Kanu e Recoba, etc. Mas Ronaldo era Ronaldo por onde passava e os olhos não sabiam namorar outro como faziam com ele.

Gianni GIANSANTI

Despachados Neuchâtel Xamax, Lyon, Estrasburgo, Schalke 04 e Spartak Moscovo, a Taça UEFA de 97/98 ia discutir-se no Parque dos Príncipes, em Paris. Era a primeira edição que seria resolvida apenas com um jogo, com a Serie A ainda a decorrer. “R9” terminaria o campeonato com 25 golos em época de estreia contra as duras e temíveis defesas italianas, apenas superado por Olivier Bierhoff, da Udinese, que acabaria em terceiro lugar. A conquista do scudetto ficou complicada depois de um famoso Juve-Inter, por isso a Taça UEFA, diante da poderosa Lazio de Sven-Göran Eriksson, ganhou o estatuto de sonho em forma de vingança.

“O Inter jogou esta final num 6 de maio, nem preciso de ir procurar”, atira Tancredi Palmeri, jornalista italiano que está por Lisboa, a cobrir a final-8 da Liga dos Campeões para diferentes meios. “Foi 10 dias depois do famoso escândalo Juventus-Inter, em que não se marcou um penálti incrível a Ronaldo e prejudicou toda a luta pelo scudetto. Foi um desses episódios que foi lembrado no calciopoli”, recorda, em referência a mais um escândalo de manipulação de resultados na liga italiana. “A UEFA foi uma maneira do Inter se vingar e finalmente colocar a coroa numa época espetacular de Ronaldo e da equipa atrás dele.”

E assim foi. “Foi uma Taça UEFA espetacular para o Inter, que não ganhou todos os jogos 5-0 ou 4-0, teve até de virar o resultado duas vezes. Teve de ganhar, sobre a neve, em Moscovo e fê-lo com um golo incrível de Ronaldo. Foi a ocasião para uma vingança”, explica.

E continua: “Esse Inter-Lazio da final foi um jogo particularmente cheio de estrelas. Não era uma casualidade ter duas equipas italianas na final. Era a quarta final italiana que acontecia. Havia Ronaldo de um lado, Mancini e Nedved do outro. Em dois anos a Lazio ganhou scudetto, Taça das Taças e Supertaça Europeia. Viveu-se, em Itália, um brilho particular em todas as finais da Taça UEFA, mas, para além disso, havia a história de 6 de maio que falei…”

De acordo com o jornalista italiano, a partida até foi equilibrada nos primeiros 20 minutos, “depois foi um concerto de solistas do Inter”. Os golos de Zanetti e Iván Zamorano “foram espetaculares”, até ao último golo de Ronaldo, “inútil”, diz Tancredi. Mas a beleza nunca é inútil. “Foi uma tentativa de armadilha do fora de jogo por parte da Lazio, mas falhou e Ronaldo ficou com 40 metros para correr à frente a Marchegiani. Quando chegou à frente dele, fez-lhe umas simulações, acabou com Marchegiani para um lado e Ronaldo para outro. Isto ficou como provavelmente o golo mais icónico de Ronaldo no Inter, num jogo que foi totalmente dominado contra um rival que era uma super equipa nesse momento.”

Apesar da alegria, da coroa e da glória, o falhanço no scudetto foi sempre um “amargo de boca”, pois “achavam que deviam ter ganho aquela liga”. Afinal, “era um Inter para mais”.

Vinte e dois anos depois, o Inter - que ganhara a competição em 91 e 94 vs. Roma e Casino Salzburgo - regressa a uma final da Liga Europa (ou Taça UEFA) esta noite. O rival é o Sevilha de Julen Lopetegui, que, desde 2006, conquistou cinco edições desta prova.