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Futebol Clube Sem Messi

Vários meios de comunicação espanhóis deram conta, esta terça-feira, que o craque argentino, com toda uma carreira feita no Barcelona, enviou um fax a informar o clube que pretende sair e vai acionar uma cláusula no contrato que lhe permite decidir, unilateralmente, ir embora ao final de cada temporada. O Barcelona já o confirmou, à "Associated Press". Virá aí uma cirurgia profunda, custosa e dolorosa para separar duas partes que não há muito pareciam ser siamesas

Diogo Pombo

MANU FERNANDEZ/Getty

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Há anos, e já são uns valentes anos, um treinador não tão calvo como hoje, acabado de ver os seus a serem subjugadores como, este século, talvez ninguém tenha sido numa final da Liga dos Campeões, palavreou um conselho, uma espécie de recado, a quem mandava no clube.

Disse Pep Guardiola, não, pediu Pep Guardiola, que Lionel Messi era "único e irrepetível". Depois, sim, disse esperar que "o clube lhe dê os jogadores adequados para o rodearem" por ser o argentino quem "lhes dá o salto de qualidade", não se alongando na explicação porque isso era já retórica à época, em 2011, e é o cúmulo e o cume das redundâncias hoje em dia. O Barcelona tinha conquistado a segunda Liga dos Campeões em dois anos e o treinador cruzava a mais esperançosa das figas para o futuro.

"Esperemos que o Leo não se aborreça". Mas chegou o dia em que Messi se aborreceu.

Dias como este já houve alguns, dias com umas quantas costelas de rumores sobre a suposta vontade de o mais que tudo do Barcelona querer mais ter uma aventura nova, algures que não ali. Esses dias acabaram, sempre, com renovações de contrato, Messi a sorrir, um salário a engordar e ninguém a questionar o alargamento dessa cintura pelo quão esguia e fulcral, por tão genial e imprescindível ser, a própria da cintura do argentino, em campo e com a bola, a ser cada vez mais superior a toda a gente no futebol. E ao contexto cada vez mais decadente que o rodeava.

Enquanto Messi se foi repercutindo em centenas de golos, em milhentos pormenores extra-humanos em jogo, nas incontáveis vezes em que rebocou o Barcelona para fora de problemas na relva, o Barcelona-clube decaiu, mirrou e não tratou da sua decadência com outra forma que não confiar em Messi, contar que a junção entre o seu talento e a sua capacidade a ganhar idade fosse o trunfo solucionador de tudo. Bastave tê-lo feliz, contente e em forma que se arranjaria maneira para o resto.

Mas, se as feições do argentino não o tivessem já aparentado no 8-2 da semana passada, em Lisboa, no 4-0 em Liverpool, o ano passado, e no 3-0 em Roma, há dois anos, o triplete de humilhações na Liga dos Campeões quando o Barcelona existe para jogar por triplas de troféus, um ato de Messi parece ter feito deste dia, o dia.

Foram vários os jornais e jornalistas espanhóis e argentinos que, esta terça-feira, começaram a dar conta de um burofax do passado (que mais não é do que uma carta registada) enviado pelo argentino do presente à direção do Barcelona, informando-os do futuro, de que vai acionar a cláusula no seu contrato que lhe permite decidir sair do clube, unilateralmente, no final da época. Parecia outro dia de rumores.

Mas a "Associated Press" perguntou ao Barcelona se era verdade, o clube confirmou-lhe a veracidade e a verdadeira história é a que, em tempos, pareceu ser impossível - Lionel Messi quer ir embora. Também Carles Puyol, outrora seu capitão, deu a sua confirmação subliminar. "Respeito e admiração, Leo. Todo o meu apoio, amigo", escreveu o antigo defesa. Luis Suárez, avançado que está de saída por empurrão de Ronald Koeman, o novo treinador (ele, Rakitic, Vidal e Umiti, diz-se), aplaudiu a mensagem.

A lenda viva e caminhante no futebol quer, aos 33 anos, sair do Barcelona que é o que é hoje por causa dele, o argentino que também se tornou quem é devido ao clube.

Nesta aparentemente siamesa relação para todo o sempre surgiu um futebol ganhador de três Champions, seis Bolas de Ouro e muitas outras coisas, entre 731 jogos e 634 golos, que tornam sortudas todas gerações atuais de humanos que assistiram à construção de Lionel Messi. E, pelos vistos, assistirão a um Lionel Messi nunca visto, a jogar por um outro clube, talvez noutro país, por certo a ter a aventura que se julgaria ficar para uma outra vida.

Messi aborreceu-se do clube que tanto o entreteve e onde ele muito entretenimento deu ao futebol. O Futebol Clube de Barcelona pode estar prestes a ficar um clube de futebol sem Messi. Prestes a ter não ter o privilégio que parecia ser seu durante o tempo que durasse o argentino enquanto jogador.

Disse Guardiola que ele é "único e irrepetível", mas Lionel Messi deu o passo para ir repetir o talento para outro sítio qualquer.

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    Com promessas de revolução, a direção do Barça oficializou a contratação de Ronald Koeman, o até agora selecionador holandês, que foi o herói de Wembley, um dos discípulos de Johan Cruyff e que jogou no clube entre 89 e 95. A ideia é renovar o plantel e apagar a imagem que ficou depois daquele 8-2 do Bayern Munique, que valeu o despedimento de Quique Setién. Mas, afinal, como chegámos aqui?

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    O Bayern atropelou, envergonhou, humilhou e goleou (8-2) uma equipa a que, em tempos, chamaríamos Barça. Mas nunca a poderíamos chamar assim, a (não) jogar desta forma, sem nada de uma genética reconhecida ao clube, onde até Messi foi completamente engolido pelos alemães, que se não são a melhor equipa da Liga dos Campeões, pelo menos pareceram sê-lo durante o tempo que jogaram - ou treinaram, como às tantas também chegou a parecer - no enterro de uma era no Barcelona. E a pior crítica que se pode escrever é que poderia ter sofrido muito mais golos