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A última e mais específica peça da mecânica da máquina do Liverpool falhou e o Arsenal ganhou

A dois minutos de terminarem os descontos dos 90' da Supertaça de Inglaterra, com o jogo em 1-1, entrou um jogador no Liverpool apenas para, dedutivamente, bater um dos penáltis para decidir a final. Foi ele o único a falhar e, em parte, a fazer com que o Arsenal conquistasse o troféu depois se superiorizar na primeira parte e ser encostado pelos acertos de Jürgen Klopp na segunda

Diogo Pombo

ANDREW COULDRIDGE/Getty

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Dois minutos, nem isso, faltam para acabar o primeiro dos jogos desta época, feitos 30 e poucos dias do fim da anterior, e os 20 anos de Rhian Brewster são a companhia do quarto árbitro, preparado está ele para entrar, a cara fechada pela tensão, pronto e equipado e contrariado parece estar, mas as aparências são ilusórias e certamente estão a iludir, porque o inglês vai entrar na final da Super Taça de Inglaterra quase apenas para cumprir um propósito. Só pode.

É a última peça a ser mexida e com uma clara função.

Ser uma máquina, mecanicamente falando, sem modernices eletrónicas a meterem o bedelho entre peças, encaixes, parafusos ou correias, implica que cada elemento execute a sua função para que o todo funcione, pensem no carro com a ignição onde entra a chave que se roda para as partes colocarem tudo em funcionamento, agora visualizem um carrito com cilindrada pequena, cavalos reduzidos ao lado de um carrão com rugido no motor, milhares de centímetro cúbicos e cavalares centenas e transportem isso para "uma máquina de resultados".

Foi expressão que o simpático Jürgen Klopp colou ao sucesso do Liverpool, na época passada, dizendo que assim terá ser esta época, ei-la num ápice já a começar, para continuar a jogar à Liverpool, como este Liverpool, a quem a analogia é feliz e assenta porque o Liverpool atual foi maquinado pelo treinador alemão, ao ponto de desde o início deste jogo se esperar de Mané, Firmino e Salah a vertigem de ataques à profundidade nas costas dos outros, de Robertson e Alexander-Arnold um serviço rasteiro ou aéreo para deixar a bola nesses tais três e dos defesas e médios a orquestração de uma pressão e contra-pressão intensa, a todo o campo.

Quereria Klopp que esta engrenagem fosse transladada já para a final da Supertaça de Inglaterra e que o Liverpool, ainda todo rompante e acelerado, rolasse a sua máquina para aplanar o Arsenal, como o tentou fazer durante a primeira parte, andava Firmino a fugir dos centrais para tabelas, passeava Salah à espera que outros trabalhassem bolas para ele, tentava Mané partir com dribles adversários que lhe o rodeavam em superioridades numéricas e só com bolas que parava conseguia a equipa ameaçar com a presença de Van Dijk.

A bola, o território e os ataques eram absorvidos pelo Liverpool, o tempo e os metros de campo e as jogadas fabricadas perto da área eram deles em maior número, mas o Arsenal e a sua máquina, para a qual Mikel Arteta vai, aos poucos, afinando as melhores peças e habituando-as à sua forma de montagem, jogavam com a esperteza de um plano: o de saltar à pressão apenas a partir da linha do meio-campo, o de manter a última linha no limite da grande área, o de juntar o bloco e os jogadores para tapar o quintal onde o Liverpool tanto gosta de atacar com os seus três diabólicos. O Arsenal obrigava o Liverpool a atacar continuada, calma e pacientemente, três modos que encravam a natureza da sua máquina.

Com tanta bola, à força, a ter que ser usada em ataque posicional, os de Klopp atraiçoavam-se pela falta de movimentos dos da frente, apenas estáticos à espera das ações uns dos outros, e, quando perdiam a bola, iam pressionar alto a construção do Arsenal, estes sim a habituarem-se cada vez mais à paciência e rasteira forma de dar vazão à bola como se viu na saída que começou no guarda-redes, encontrou a falha pela direita e acabou à esquerda, em Aubameyang, que canalizou o seu Thierry Henry interior para curvar um remate à beira da área e o 1-0 entrar no poste distante.

Andrew Powell/Getty

Mais saídas assim, com um, dois, depois três, quatro, e cinco e seis passes apoiados, com os jogadores a atraírem a pressão contrário e a serem rápidos a tirar a bola para um jogador livre, se viram do Arsenal, que muitas vezes logrou deixar Aubameyang, Nketiah ou Saka a conduzirem a bola com apenas um adversário à frente, embalados para um momento de finalização. A maquinaria mais eficaz em campo era a londrina.

Veio a segunda parte e o engenhoso Klopp inovou para tentar compensar duas coisas.

A falta de Trent Alexander-Arnold era a primeira, a mais evidente, pois a desforma física do lateral tirou o seu pé direito à equipa e, por arrasto, todas as variações de centro do jogo em passe longo e todos os cruzamentos para a área - que ele faz serem, quase sempre, meros passes certeiros -, que muita falta faziam à equipa por jogar contra outra que se defende tão baixo, tão concentrada na área. Sendo o cruzamento uma forma mais provável de ser usada, sem Arnold, o Liverpool insistia em atacar pelo lado de Robertson e desconfiar do substituto Williams.

A ausência de movimentos na frente, ao centro ou na largura, para mexer com a organização do Arsenal, era a outra, e para as atacar o treinador pôs Fabinho a central e desviou Joe Gómez para lateral, abrindo espaço para entrarem Keita e Minamino. O guineense deu conduções de bola rápidas ao centro, para arrastar e fixar gente, o japonês correu para haver diagonais entre lateral e central e mais uma dúvida entre linhas.

Tudo melhorou o Liverpool e encostou o Arsenal, mais ainda, à própria área, até Salah receber uma inofensiva bola de costas para a área, a passividade geral deixá-lo virar-se e um ressalto que encravou uma tabela deixar Minamino a rematar o 1-1 nas barbas do guarda-redes. Os campeões ingleses continuaram a espremer os adversários em espaços curtos, a aniquilá-los com a pressão rápida pós-perda que o Arsenal já não conseguia evadir por ter os jogadores tão comprimidos em campo próprio. Só nos últimos 10 minutos, já Mané tinha desperdiçado um quase-golo, os do Arsenal voltaram a conseguir sair até à outra área com a bola controlada.

Até que o tempo estava a descontar-se e Klopp, com os penáltis à vista, nem dois minutos faltavam, decidiu colocar Brewster em campo, ei-lo com a cara cerrada, o olhar terno e a postura tensa a ser a substituição cuja função não tem de ser explicada, ao acontecer quando aconteceu. O avançado inglês de 20 anos ia entrar porque o jogo ia ser concentrado a 11 metros da baliza e o treinador quis tê-lo a rematar aquela distância.

E foi o miúdo que nem os músculos quentes deveria ter, que talvez até nem tocou na bola antes de a ter de bater a onze passos da baliza, o único dos dez pontapés a não dar em golo. A barra ripostou a bola e o Arsenal acabaria por conquistar a Super Taça de Inglaterra, já o segundo troféu de Mikel Arteta enquanto está a sacudir as cinzas da cremação do velho e maniento Arsenal e a encaminhá-lo, com calma, na direções dos carrões da Premier League.

Este contra o Liverpool que era a máquina mais maquinada em Inglaterra, na segunda parte deu mostras de ainda o ser, mas cuja sucumbiu porque uma peça, inventada à última, falhou no seu aparente e único propósito.